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27/11/2018 - 16:14 - Atualizado em 04/12/2018 - 09:31
Professora da UFU é premiada por estratégia de compartilhamento de emoções
Projeto 'Cajón', de Daniela Carvalho, foi reconhecido pela Fundação Carlos Chagas
por Autor: 
Diélen Borges

 

Atividades foram desenvolvidas na disciplina Ciências e Mídias, do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas (Foto: Arquivo pessoal)

 

O cajón, aumentativo de caixa em espanhol, é um instrumento de percussão de origem afro-peruana. No século XVII, os africanos escravizados no Peru, após serem proibidos de tocar seus tambores, passaram a utilizar objetos de madeira como mesas, gavetas e caixas para produzir os sons que acompanhavam suas canções. Esses objetos se tornaram os cajones.

O Cajón: estratégia interventiva para compartilhamento de emoções em sala de aula é um método didático desenvolvido pela professora Daniela Franco Carvalho, do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com o objetivo de levar cada sujeito a compartilhar, com os colegas de turma, alguma memória que reverbere nele, tal qual o som do cajón.

O trabalho foi um dos três contemplados com o Prêmio Professor Rubens Murillo Marques, da Fundação Carlos Chagas, que prestigia e divulga experiências formativas realizadas por professores dos cursos de licenciaturas. A cerimônia de premiação, com entrega de diploma, troféu e R$ 20 mil, aconteceu em São Paulo, no dia 23/11.

 

Daniela Carvalho recebeu o prêmio em São Paulo no dia 23/11 (Foto: Arquivo pessoal)

 

Carvalho desenvolveu o projeto na disciplina Ciências e Mídias, no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da UFU, em 2017, tendo por base as teorias do linguista russo Mikhail Bakhtin e do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. A partir de sua vivência docente e do estudo desses teóricos, a professora constatou que os valores intrínsecos dos outros como seres humanos singulares estão desaparecendo.

“Não vi outra possibilidade a não ser atuar nas brechas. Colocar-me junto aos meus estudantes em abertura. Em entrega ao desconhecido. Em fragilidades. Repensei-me professora”, afirma Carvalho, que faz aulas de música, de dança e gosta de escrever:

 

Eu-professora.

Uma anfitriã.

Ciceroneio estudantes por vão-palavras.

Salas-sensibilidades.

Ruas-poemas.

Cidades-livros.

Museus-pessoas.

Objetos-ao-vento.

Por lugares ainda não pisados.

Por nós.

 

A professora conheceu o cajón em uma aula de percussão em 2016. “Sentada, bati timidamente na madeira e fiquei encantada com a vibração. Nunca tinha sentido algo daquela forma”. Depois, buscou tocadores de cajón na internet e encontrou a sul-africana Heidi Joubert. “De múltiplas maneiras o som, sua presença e a força feminina no instrumento me deixaram com a sensação de que estava muito perto daquilo que vinha buscando”, diz Carvalho.

A primeira ação da disciplina foi convocar os alunos para uma entrega no laboratório de ensino. Carvalho colocou uma música de Heidi Joubert em som alto e sugeriu aos estudantes que compartilhassem “algo materializado que acessasse uma memória, um vivido, uma marca que reverberasse neles, tal qual o som do cajón, fosse oriunda de um encontro alegre ou triste, daquilo que os emocionasse de alguma forma”. Ela projetou um microconto:

Hoje parei num semáforo e um rapaz se aproximou com uma caixa de isopor. Abaixei o vidro e ele explicou que tinha vindo da Bahia e estava vendendo bombons caseiros. Eu disse que se tivesse dinheiro eu compraria, mas não tinha. Aí ele me falou para pegar um bombom. Repeti que não tinha dinheiro. O rapaz insistiu. Era um presente. Disse que eu tinha sido a primeira pessoa a conversar com ele no dia e que ele estava precisando somente de um sorriso.

A professora levou a embalagem do bombom para os alunos e disse que aquilo era o seu cajón, que a levou a pensar nas fragilidades das relações humanas e nos presentes imateriais que podem ser ofertados. E convidou os alunos a compartilhar algo deles também nos encontros seguintes.

 

O objetivo do projeto é levar cada sujeito a compartilhar memórias que reverberes nele, tal qual o som do cajón (Foto: Arquivo pessoal)

 

Outras atividades desenvolvidas ao longo de cada semestre letivo envolveram processos de criação com fotografias e textos autorais, que vão compor um livro digital que está em fase de editoração.

“Conseguimos com o cajón discutir os temas polêmicos dos conteúdos programáticos da disciplina, respeitando a diversidade de opiniões e reunindo argumentos em nossas próprias vidas para nos colocarmos em possibilidade de compreensão de situações de risco do corpo biológico e de abusos em múltiplas esferas, sabendo de nossas limitações como sujeitos e das impossibilidades de resolver todos os problemas que prostram a potência do exercício da docência”, conclui Carvalho.

O trabalho está detalhado em um dos capítulos da publicação Relatórios Técnicos do prêmio, em que é possível ler os depoimentos de estudantes que participaram das ações. “Eu sei que o cajón não é terapia, mas foi pelo cajón que eu tive força para perceber que eu precisava de ajuda”, diz um deles. “Eu nunca quis ser professora, mas depois do cajón eu fico pensando que eu quero. Eu quero ser professora para ajudar meus alunos a curarem eles mesmos”, afirma outra.

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