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15/04/2019 - 16:41 - Atualizado em 24/04/2019 - 10:19
Parceria entre UFU e UFRGS estuda as expressões da vitivinicultura no sul de Minas
A pesquisa mapeou as tradições do cultivo e da produção de vinho em Caldas e Andradas
por Autor: 
João Pedro Rabelo

O estudo de Chelotti investigou registros históricos da cultura da uva e do vinho existente nas cidades de Andradas e Caldas há mais de 100 anos. Na foto as parreiras estão em processo de dormência no ciclo produtivo. (Foto: Arquivo do pesquisador)

As origens do fabrico de vinho no Brasil datam de 1532, quando o fidalgo português Brás Cubas (que não é o finado personagem de Machado de Assis), nascido na cidade do Porto, funda a Vila de Santos e manda cultivar as cepas trazidas de Portugal nas encostas da Serra do Mar, onde hoje se situa a cidade de Cubatão, em São Paulo. A experiência inicial não vingou, mas uma outra tentativa, desta vez na região de Tatuapé, resultou na primeira investida de sucesso no empreendimento de cultivo de vinhas na colônia. Sabia-se que à época os índios detinham certa habilidade na produção de bebidas fermentadas, com registros do padre Simão de Vasconcelos sobre 32 tipos de bebidas diferentes fermentados de raízes de frutas, entre eles o Cauim, o primeiro vinho da “nova terra”.

De lá pra cá, o histórico de cultivo e produção da uva e da “bebida de Dionísio”, é de tentativas frustradas que levaram às bem sucedidas e contribuíram para a formação de uma cultura de cultivo própria no país. Atualmente, a região Sul, mais especificamente a Serra Gaúcha tem maior influência na produção de vinho, o que não faz dessa cultura uma regra aplicada unicamente a essa localidade. Existem ainda outras regiões que são caracterizadas pelo cultivo de uvas e produção de vinhos no Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.

Em Minas Gerais o cultivo da uva e a produção de vinho estão presentes de maneira mais acentuada no sul do estado e foi com o intuito de mapear e identificar as expressões e a tradição da vitivinicultura nessa região que o professor do curso de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia, Marcelo Cervo Chelotti, realizou o trabalho de pós-doutorado intitulado “Patrimônio da uva e do vinho: residualidades e novas expressões da vitivinicultura no sul de Minas Gerais”.

A pesquisa, desenvolvida no programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), dedica-se a discutir a pertinência da tríade patrimônio, território e ruralidade para caracterizar as expressões contemporâneas da vitivinicultura na localidade e compreender a construção de uma valorização da uva e da produção artesanal do vinho ao longo da história.

 

Da etimologia à realização da pesquisa

Na etimologia a palavra “vitivinicultura” tem como designação a atividade que envolve o cultivo das vinhas e o fabrico de vinho. O interesse do pesquisador no assunto surgiu de uma “provocação” feita por sua orientadora, Rosa Maria Medeiros, a respeito de como andava o mapeamento e o estudo da vitivinicultura em Minas Gerais.

“Em um desses eventos da geografia, ela me provocou dizendo: ‘Olha, Marcelo, você mora em Minas Gerais e nós temos uma lacuna em relação à discussão do patrimônio da uva e do vinho’. Foi aí que comecei a olhar com mais atenção a essa problemática”, conta.

Os levantamentos de Chelotti começaram em Caldas e Andradas, duas das cidades que concentram os maiores registros da tradição da produção de uva e vinho e que foram fundamentais na elaboração da pesquisa e na busca por respostas sobre o assunto. O professor do Instituto de Geografia da UFU conversou em campo com agricultores locais, chamados “guardiões do vinho”, sobre como começou a tradição vitivinicultora e em qual momento ela se organizou enquanto atividade produtiva.

As adegas vitivinícolas representam parte do patrimônio material da região. (Foto: Arquivo do pesquisador)

O processo de coleta de dados e informações e desenvolvimento do projeto estendeu-se de 2017 a 2019. Os registros encontrados pelo pesquisador mostraram que a região produz vinho há mais de 100 anos. De maneira artesanal, há relatos de nativos de que em 1890 já havia a produção da bebida.

O trabalho dedicou-se a sistematizar, organizar e discutir a geograficidade da região, além da identificação da existência de um patrimônio material verificado a partir da existência de adegas vinícolas e da festa da uva e vinho, que ocorre há mais de 50 anos tanto em Caldas quanto em Andradas. Esse movimento auxiliou na estruturação de arquivos para o primeiro Museu do Vinho de Minas Gerais, que ficará localizado na cidade de Andradas.

Existe também um patrimônio imaterial, destacado pelo pesquisador, que se encontra na construção dos saberes daqueles sujeitos envolvidos na produção de vinho por pelo menos quatro gerações. O estudo ainda faz o levantamento bibliográfico de outras pesquisas feitas sobre as variedades de uvas cultivadas e as características do solo e do clima local.

Sobre a Vitivinicultura

No “mundo do vinho”, segundo Chelotti, existe no sul de Minas o que os especialistas chamam de “terroir”, uma relação íntima entre o solo e o micro-clima particular que concebe o nascimento de um tipo de uva, que expressa livremente sua qualidade, tipicidade e identidade em um grande vinho. O terroir presente nessa região é o tropical de altitude, entre 1.000 e 1.100 metros de altitude. Hoje, essa relação entre clima e solo, associada a técnicas de cultivo do homem, desenvolveram uma característica singular nas uvas cultivadas em Andradas e Caldas.

A esse terroir, duas espécies de uva adaptaram-se mais facilmente: as “Videiras Americanas”, que produzem uvas mais comuns utilizadas na produção de suco e responsáveis pela produção de um vinho artesanal, classificado como “vinho de mesa”, mais consumido entre os brasileiros; e as videiras “Vitis viníferas”, de matriz europeia, entre as quais estão as uvas Syrah e Chardonnay, que produzem vinhos de maior qualidade agregada, chamados “vinhos finos”.  

A visita a órgãos de pesquisa como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater), a Secretaria Municipal de Cultura e a Empresa Mineira de Agropecuária (Epamig), auxiliou na obtenção dessas informações. Na Epamig, Chelotti identificou ainda uma técnica desenvolvida nos últimos 20 anos e que é utilizada no ciclo de produção das parreiras: a dupla poda.

De acordo com o ciclo natural da videira, no hemisfério sul, a colheita acontece entre janeiro e fevereiro, depois a planta entra em dormência e o ciclo recomeça. No entanto, com a aplicação da dupla poda, o ciclo é alterado para estimular a rebrota das videiras sob condições de uma boa amplitude térmica.

“Com essa técnica a poda é feita em novembro, quando a parreira estaria produzindo as bagas. Essa poda induz a parreira a rebrotar e ter seu auge produtivo em julho, época que é frio na noite, quente durante o dia e não chove. Essas condições são ideais para a produção de vinhos finos porque fazem com que o brics [teor de açúcar da uva] dentro da uva se potencialize”, explica Chelotti. “Quanto maior a amplitude térmica, mais a uva vai se estressar e produzir mais açúcar. É isso que vai fazer com que esse vinho tenha a condição de ser um vinho de excelente qualidade, um vinho de guarda, como a gente chama”, complementa.

A aplicação da dupla poda exige, no entanto, que a parreira seja mais vigorosa e resistente, para que o ciclo seja consistente. A produção da uva em julho produz os melhores vinhos em Minas Gerais, premiados em campeonatos internacionais na França e na Inglaterra, segundo o pesquisador. As uvas que se adaptaram a essa técnica são a Chardonnay, a Sauvignon e a Syrah.

Depois de coletados todos os dados, Chelotti retornou ao Centro da Cultura e Patrimônio do Vinho (Cepavin) da UFRGS e lá, sob supervisão de Medeiros, continuou as análises e discussões para a conclusão do trabalho.

A demanda da produção de vinhos

A região que foi alvo da pesquisa tem hoje dois modos de produção distintos. Um desses modelos é composto por um grupo de pequenos proprietários que produzem de 5 a 10 mil litros de vinho por ano, com uma demanda de comercialização curta, no mercado local. Há um segundo grupo, localizado em Andradas, cuja produção conta com uma infraestrutura industrial, com sete vinícolas de produção em larga escala que atende ao mercado regional do sudeste.

Uma terceira organização trabalha em pequena produção, mas com castas específicas que, de acordo com o geógrafo, atende a uma demanda por vinhos finos de qualidade agregada. Esse projeto tem alto valor de capital investido que estão inserindo vinhos de alta qualidade no mercado regional.

As uvas Chardonnay, Sauvignon e Syrah adaptaram-se com mais facilidade ao ciclo produtivo da dupla poda. (Foto: Arquivo do pesquisador)

Contribuição para a sociedade

Para o pesquisador, as contribuições que o seu trabalho oferece à sociedade residem no resgate e valorização de um patrimônio histórico e da memória de um legado. Chelotti faz uma comparação com outros produtos conhecidos culturalmente em território mineiro, como o café e o queijo, no sentido de chamar a atenção do poder público para subsidiar políticas públicas que reconheçam o vinho como  patrimônio cultural.

“Uma sociedade sem memória, é uma sociedade que tende ao seu fracasso. Em Minas Gerais não há uma política do estado para incentivar diretamente a vitivinicultura. Diferente de como ocorre o Rio Grande do Sul, onde há uma política de incentivo do estado para essa área”, reflete. “Então esse legado é a reflexão de como decisões políticas interferem na vida das pessoas, isso também é importante para tomada de decisão para possíveis políticas públicas”, completa.

Outro aspecto a ser observado e que o geógrafo leva em consideração é o da proposição de novas pesquisas que possam ser desenvolvidas com o intuito de despertar um olhar turístico para a região e um projeto de educação patrimonial.

 

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