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05/06/2019 - 13:50 - Atualizado em 16/06/2019 - 00:34
Defesa do meio ambiente depende das universidades
Pesquisadores alertam para as interações das questões ambientais, como a utilização de agrotóxicos e a diminuição de abelhas
por Autor: 
Marco Cavalcanti

 

As abelhas, principais polinizadores, estão desaparecendo (foto: Marco Cavalcanti)

 

Tendo em vista o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, o portal Comunica UFU ouviu pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia envolvidos com as questões ambientais.

Os entrevistados chamam a atenção para a inter-relação dos problemas que afetam os ecossistemas e para a importância das universidades na criação de soluções ao conciliar desenvolvimento e preservação.

Os pesquisadores alertam para o desaparecimento de abelhas, fundamentais para a produção de alimentos, e para os perigos do uso de agrotóxicos, uma das causas do fenômeno.

Ao analisarem a conjuntura nacional, afirmam que é o momento da sociedade reconhecer e valorizar o conhecimento acadêmico e hora de as universidades mostrarem o quanto são imprescindíveis.

O botânico e coordenador do Programa de Pós-graduação em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais, Paulo Eugênio de Oliveira, afirma que serviços ambientais importantes, como a polinização, são negligenciados.

Ele cita o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, elaborado a partir de uma parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, da sigla em inglês) e a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (Rebipp).

Segundo o documento, o valor monetário estimado do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no país gira em torno de R$ 43 bilhões anuais (cálculo feito para 2018). Dessa quantia, 80% se referem a quatro cultivos de grande importância agrícola: soja, café, laranja e maçã.

Ainda segundo o relatório - apoiado por instituições como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) -, as abelhas formam o maior grupo de polinizadores (48% do total de espécies).

A fragmentação ou perda do habitat e os agrotóxicos são as ameaças mais significativas aos polinizadores, conforme a publicação.

“Quando você estima o valor, você vê que isso tem um custo muito grande para a produção, para a população etc. Mas, infelizmente, quando o governo e quando a população têm que enfrentar esses problemas causados pela interrupção de serviços ecológicos, a tendência, infelizmente, é resolver com a lei do menor esforço”, critica Oliveira.

O professor diz que se dá pouca importância para os serviços que a universidade provê em termos de pesquisa. “Para muitas pragas, para muitos problemas da agricultura brasileira, a solução não está na internet. Ela vai estar no processo de pesquisa que, infelizmente, a gente está descontinuando”.

Dedicada a estudar abelhas, a docente Fernanda Nogueira, do Instituto de Biologia, percebe o desaparecimento de algumas espécies, entre elas a conhecida popularmente como mandaçaia.

“Eu estou em Uberlândia vai fazer 14 anos. E nesse curto espaço de tempo eu percebo que têm muitas abelhas que existiam e que não estão mais presentes. Se elas se extinguiram ou não, a gente não pode dizer. Mas elas diminuíram em número, com certeza”, declara.

Baseada no que sugerem estudos, a pesquisadora acredita que o fenômeno está relacionado ao uso de agrotóxicos. “No Brasil, a gente tem o uso de agrotóxicos que são proibidos em vários países do mundo, inclusive em países que a gente diz subdesenvolvidos”, reclama a bióloga.

 

A disponibilidade de água está relacionada com a cobertura vegetal (foto: Alexandre Costa)

 

Um outro problema, apontado pela docente Marlene Colesanti, do Instituto de Geografia, é a contaminação dos mananciais pelos agrotóxicos pulverizados nas plantações de soja, por exemplo.

“A gente tem que pensar, inclusive, nessa questão de doenças cancerígenas. E eu estou muito preocupada com isso, porque o Ministério da Agricultura autorizou vários agrotóxicos que estavam proibidos”, comenta.

Colesanti é a integrante mais longeva do Conselho Universitário da UFU. Sua luta em defesa do meio ambiente sempre esteve presente em sua atuação na universidade. Desde o início.

Quando, há 40 anos, ela se mudou para Uberlândia, vinda de São Paulo, o ar seco do mês de julho a impressionou. “Essa cidade não tinha árvore. Logo que eu tomei posse, em agosto, eu comecei a pensar o que, como professora da universidade, pesquisadora, poderia fazer para ajudar a essa cidade a se tornar mais agradável, com mais conforto térmico”.

Sumiço de abelhas, agrotóxicos, doenças, regime de chuvas, desmatamento, aquecimento… Diante dos desafios para manter o equilíbrio ecológico, qual  problema é o mais importante?

“Os temas ambientais, de maneira geral, são integrados e articulados entre si. Então fica muito complicado você eleger um para dizer ‘Esse aqui é o mais importante’, porque, na verdade, ele está interferindo em outros e os outros interferindo nele”, explica o professor do Instituto de Geografia, Cláudio di Mauro.

O docente cita exemplos da interação que existe entre a proteção da vegetação e a disponibilidade de água, da qual dependem a cidade e o campo: “A água tem um papel fundamental nas políticas de desenvolvimento e na vida. E para garantir isso, nós precisamos de uma cobertura vegetal qualificada”.

Di Mauro alerta, também, para as consequências no solo. “O impacto do sistema produtivo remove a camada superficial do solo, que é absolutamente fundamental e esgota os solos a partir da produção e da colocação de agrotóxicos e da colocação de adubos. Ora, isso tudo vai para a água também”.

Conforme o docente, é possível pensar a política de desenvolvimento com o equilíbrio ambiental. “Mas não pode ser esse modelo. O modelo que está sendo aplicado, está ultrapassado, é predador… eu diria mais do que predador. Ele é depredador, porque ele deixa os espaços ambientais completamente sem possibilidade de um reuso”.

Em relação às alterações no clima, o pesquisador lamenta a concepção que, segundo aponta, está predominando em alguns setores do Governo Federal. “Consideram que esta discussão de mudança climática, de efeito estufa, são assuntos, eles dizem, do ‘marxismo cultural’. Tem nada a ver com ‘marxismo cultural’! Isso tem tudo a ver com a pesquisa científica realizada em todo o planeta”.

“Nós estamos fazendo do nosso planeta uma casa que tá correndo riscos seríssimos e é fundamental que a população tome consciência disso. E a universidade tem um papel decisivo porque, na verdade, a universidade é o lugar onde se desenvolve esse conhecimento, onde se reproduz esse conhecimento, onde se divulga o conhecimento. A universidade tem um papel indispensável”, afirma.

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