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14/09/2021 - 15:48 - Atualizado em 17/09/2021 - 21:16
Cientistas da UFU ajudam a avaliar riscos de extinção de espécies na Bacia do Rio Doce
Estudos feitos após rompimento de barragem em Mariana resultou em livro
Por: 
Marco Cavalcanti

Crustáceos decápodes, como o Cardisoma guanhumi (caranguejo), foi o grupo de animais pesquisados pelos docentes da UFU (foto: Douglas F. R. Alves)

Dois professores do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) integram a equipe de pesquisadores que fizeram um estudo inédito que identificou o risco de extinção de espécies da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. De 13 espécies de crustáceos estudadas pelos docentes da UFU, nove estão ameaçadas de extinção.

A pesquisa, realizada por cientistas de diversas instituições – quase na sua totalidade universidades públicas –, está reunida no Livro Vermelho da Biota Aquática do Rio Doce Ameaçada de Extinção Pós-Rompimento da Barragem de Fundão, Mariana, Minas Gerais, publicado em agosto deste ano. Com 273 páginas, ele está disponível gratuitamente para download.

A equipe avaliou o estado de conservação de quatro grupos de seres vivos aquáticos – crustáceos, efemerópteros, odonatos e peixes – na área afetada pela lama com rejeitos de minério de ferro, derramada após o rompimento da barragem, em 2015.

Ariádine Cristine de Almeida e Giuliano Buzá Jacobucci, ambos pesquisadores do Laboratório de Ecologia de Ecossistemas Aquáticos (LEEA) do Instituto de Biologia da UFU, foram convidados para a avaliação dos crustáceos decápodes (“com 10 pés”, como o caranguejo e o camarão) em função de suas experiências em estudos ecológicos com espécies desse grupo.

“Há 14 anos venho desenvolvendo investigações com ênfase na variação espacial e temporal da abundância, estrutura populacional e reprodução destes animais, sendo os últimos oito anos dedicados, especialmente, aos crustáceos decápodes de água doce. Já o professor Giuliano tem se dedicado a estes estudos nos últimos 10 anos, aproximadamente”, conta Almeida.

A docente destaca que camarões, caranguejos, siris e lagostas são os principais representantes dos crustáceos decápodes. “De maneira geral, as espécies deste grupo apresentam relevância para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos, incluindo espécies bioturbadoras do sedimento [que revolvem o sedimento enquanto se enterram ou se alimentam], que modificam a disponibilidade de recursos para outros níveis tróficos, e bioindicadoras de qualidade ambiental”, explica ela. Ou seja, a presença desses animais é fundamental para a sobrevivência de outros.

Macrobrachium carcinus (camarão) está ameaçado de extinção na Bacia do Rio Doce (foto: Douglas F. R. Alves)

Conforme o estudo, das 13 espécies desses crustáceos, nove encontram-se ameaçadas de extinção na Bacia Hidrográfica do Rio Doce. São três espécies de caranguejos (Cardisoma guanhumi, Minuca victoriana e Ucides cordatus) e seis espécies de camarões (Atya scabra, Macrobrachium acanthurus, M. olfersii, M. carcinus, Palaemon pandaliformes e Potimirim potimirim). Dentre estas, seis espécies foram classificadas como “Em Perigo” e três como “Criticamente em Perigo”.

“Além disso, do total de 13 espécies avaliadas, seis têm importância econômica para fins comerciais e de subsistência (populações ribeirinhas e caiçaras), em diferentes intensidades, sendo os caranguejos guaiamum e uçá os de maior relevância. Logo, os impactos causados pelo rompimento da barragem, com deposição de sedimento e alteração da qualidade da água por metais pesados e resíduos químicos, interferem no ciclo de vida destas espécies, resultando em prejuízos ao ambiente e à sociedade”, acrescenta a bióloga.

O estudo teve origem no acordo de cooperação técnica entre a Fundação Renova e a Biodiversitas, fundação de conservação da biodiversidade e gestão ambiental. A Fundação Renova foi criada a partir do compromisso das duas maiores mineradoras do mundo, a brasileira Vale S.A. e a anglo-australiana BHP Billiton, para reparar os danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão, que acomodava os rejeitos de minério de ferro de uma mina de propriedade da Samarco, empresa da Vale e da BHP.

 

A bacia

A área de drenagem da bacia do rio Doce abrange os estados de Minas Gerais (86%) e Espírito Santo (14%). Situada na Mata Atlântica, é a quinta maior bacia do país, com uma área de drenagem de cerca de 83.400 km².

Conforme o histórico presente na publicação resultante das pesquisas, a bacia vem sendo impactada por diversas causas desde a década de 1930, como a retirada da vegetação e seu consequente processo de erosão e assoreamento.

Em seguida, teve início a poluição dos rios devido à extração mineral e atividades industriais (siderúrgicas, fábricas de celulose, usinas de açúcar e álcool, frigoríficos, curtumes), além do despejo de esgoto doméstico.

No século XX, os barramentos nos principais rios, para pôr em funcionamento hidrelétricas, trouxeram diversos impactos para a biota (conjunto de seres vivos) aquática.

A situação foi agravada com o rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro no dia 5 de novembro de 2015, no subdistrito de Bento Rodrigues, localizado a 35 km do centro do município mineiro de Mariana.

Foram liberados cerca de 39,2 bilhões de m³ de rejeitos que causaram, da barragem até a foz do rio Doce, no estado do Espírito Santo, diversos danos ambientais.

 

A pesquisa

Ariádine Almeida e Giuliano Jacobucci (destacados) integraram grupo de pesquisadores que avaliou os riscos de extinção de espécies na Bacia do Rio Doce (foto: acervo da pesquisadora)

O trabalho realizado pelos pesquisadores da UFU, relata Almeida, teve início em novembro de 2019. Nesta fase, eles receberam, das fundações Renova e Biodiversitas e da Câmara Técnica de Conservação e Biodiversidade (CTBio), o acesso aos dados das espécies previamente selecionadas, com possível ocorrência na área impactada pelo rejeito para a avaliação do grau de ameaça e a proposição de medidas conservacionistas.

“Esses dados incluíram informações sobre taxonomia, biologia, ecologia e distribuição geográfica. Após análise, nos reunimos com os demais integrantes do grupo de especialistas para discussão e complementação de tais dados, obtendo ao final uma classificação das espécies segundo os critérios e as categorias da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN)”, informa a docente.

O trabalho dos especialistas foi encerrado em janeiro de 2020, com a redação e submissão final do capítulo “Crustáceos ameaçados de extinção na bacia do rio Doce publicado no Livro Vermelho”.

 

Soluções

Ariádine Almeida afirma que, dentre as diversas medidas apresentadas no Livro Vermelho, recomenda-se o mapeamento detalhado e a realização de novos inventários na bacia do rio Doce e ao longo da costa, principalmente no estado do Espírito Santo, bem como em bacias e regiões ainda desconhecidas ou pouco investigadas. “Aliado a isso, é fundamental a realização de estudos sobre a dinâmica populacional e diversidade genética, bem como a avaliação de capacidade de suporte dos estoques populacionais das espécies, principalmente daquelas de valor comercial”, diz.

“Também deve-se considerar estudos sobre o impacto do represamento dos corpos d’água nas populações das espécies, além de estudos prévios e adequados para a construção de novas barragens e represamentos de modo que os cursos naturais de rios e estuários sejam minimamente afetados, bem como a manutenção da qualidade do habitat desses ambientes e daqueles em que tais construções já estão presentes”, acrescenta Almeida.

 

Ucides cordatus (caranguejo) também está na lista de animais em extinção na área atingida pela lama com rejeitos (foto: Douglas F. R. Alves)

Outro aspecto apontado é a necessidade de monitoramentos populacionais de longo prazo, além do diagnóstico e monitoramento sobre o dano genocitotóxico (tóxico para as informações genéticas e células) das populações de crustáceos decápodes afetadas.

“Finalmente, deve-se oportunizar o cultivo das espécies em condições laboratoriais a fim de favorecer o repovoamento em locais com redução populacional drástica, bem como subsidiar a aquicultura a fim de evitar a retirada indiscriminada de espécies economicamente viáveis diretamente da natureza, buscando-se assim contribuir efetivamente em ações conservacionistas e de desenvolvimento sustentável”, recomenda a cientista.

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