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Pesquisa

Herbivoria: entenda a interação entre espécies que é pesquisa da UFU em rede global

Projeto HerbVar tem colaboração de mais de 100 instituições em mais de 30 países

Publicado em 25/10/2023 às 13:08 - Atualizado em 26/10/2023 às 15:52

Relação entre os animais e plantas é fundamental para a manutenção do ecossistema (Foto: Diego Anjos)

Na natureza, uma curiosa interação acontece diariamente. É uma relação entre folhas verdes e pequenos intrusos que, ao mastigar, tecem o enredo da vida em florestas, campos e jardins. Esta é a arte da herbivoria: uma interação desarmônica entre diferentes espécies, na qual animais se alimentam de plantas.

Os seres vivos que consomem algas e vegetais são conhecidos como herbívoros. Eles se encontram no segundo nível das cadeias alimentares e são frequentemente referidos como consumidores primários, uma vez que sua dieta consiste principalmente em organismos produtores. Nessa relação, há um ganho para os animais e uma perda para as plantas — por isso uma interação desarmônica.

Uma característica marcante das interações planta-herbívoro é que elas são bastante variáveis ​​ao longo do tempo e do espaço e acontecem em todos os níveis de organização biológica. Ecologistas e biólogos evolucionistas procuram, há muito tempo, compreender esta variação, desenvolvendo uma infinidade de hipóteses para explicar e prever esta característica comum na natureza.

Inseto herbívoro (Lepidoptera) predando as folhas de O. spectabilis
Inseto herbívoro (Lepidoptera) predando as folhas de O. spectabilis (Foto: Diego Anjos)

Foi pensando nisso que surgiu a Rede de Variabilidade da Herbivoria (HerbVar), uma rede global de cientistas que trabalham juntos para compreender como as interações entre plantas e herbívoros variam no planeta, nos ecossistemas e na filogenia das plantas. Ela foi criada em 2019 e já conta com mais de 200 colaboradores de aproximadamente 100 instituições de 30 países.

Pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) integram a equipe e têm desenvolvido pesquisas sobre a temática na região do Cerrado. Recentemente, um artigo produzido em rede foi aceito pela revista Science e descreve o estudo que analisou amostragens de herbivoria para 503 espécies de plantas em 790 locais ao redor do mundo.

O trabalho tem coautoria de Diego Anjos, pós-doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ecologia, Conservação e Biodiversidade da UFU; de Raquel Carvalho, egressa da UFU e pós-doutoranda do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP); e de Eduardo Calixto, também egresso da UFU e pós-doutorando no Departamento de Entomologia e Nematologia da Universidade da Flórida.

Fotos de Eduardo Calixto, Raquel Carvalho e Diego Anjos fazendo as amostragens do projeto
Eduardo Calixto, Raquel Carvalho e Diego Anjos fazendo as amostragens do projeto (Foto: Arquivo pessoal)

As amostragens feitas por esses pesquisadores incluíram dados únicos de espécies de plantas do Cerrado brasileiro. “Existe uma ideia antiga e dominante na ecologia/evolução de que as interações planta-herbívoro são altamente variáveis, a partir de trabalhos clássicos e teorias explorando as consequências da herbivoria variável. Os nossos dados confirmam esta ideia, mas também revelam um padrão que não tinha sido documentado anteriormente: forte variabilidade dentro das próprias populações de plantas”, explica Anjos.

Espécies típicas do Cerrado foram amostradas, como a Ouratea spectabilis e Cordiera elliptica, que integram o grupo de 503 espécies coletadas nos seis continentes. Entre os principais resultados, o grupo percebeu que quanto mais próximo da linha do Equador, menor a variabilidade da herbivoria dentro das populações de plantas.

Além disso, percebeu-se que quanto menor o tamanho da planta, maior a variabilidade da interação e uma forte influência filogenética, considerando o parentesco entre as espécies de planta na variabilidade. 

“A variação na herbivoria co-variou com fatores centrais para a ecologia e evolução das interações planta-herbívoro, como a latitude, o bioma, o tamanho da planta e a filogenia. Estes padrões em macro-escala foram muitas vezes mais fortes do que os padrões para os níveis médios. Isso sugere que o nível de variabilidade pode ser importante para determinar diferenças na biologia dos herbívoros em todo o planeta, entre espécies com características diferentes e ao longo das relações de parentesco das plantas”, completa Anjos.

Com o trabalho, que continua sendo feito em rede e recebendo pesquisadores do mundo todo, será possível entender os fatores estruturantes desta interação, que pode ajudar a compreender melhor os padrões da vida na Terra. Você pode acompanhar as atualizações dos trabalhos pelo site do projeto.

 

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Palavras-chave: pesquisa herbivoria

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