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01/04/2019 - 17:34 - Atualizado em 02/06/2019 - 10:02
Tese conta como a população negra contribuiu para construção da história de Uberlândia
Historiador investigou Congado e revela que racismo e resistência permanecem na cidade
Por: 
Diélen Borges

 

Doutorado de Jeremias Brasileiro foi orientado pelo professor Newton Dângelo (Foto: Marco Cavalcanti)

 

Existiu escravidão em Uberlândia? O município foi fundado em 31 de agosto de 1888, três meses após a assinatura da Lei Áurea, que oficialmente extinguiu a escravidão no Brasil. Mas o que havia por aqui antes disso e o que aconteceu de lá para cá? O pesquisador Jeremias Brasileiro, durante o Doutorado em História na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), investigou a presença da população negra na história regional e relatou como as relações foram - e são - marcadas pelo racismo.

Na tese O congado (a) e a permanência do racismo na cidade de Uberlândia-MG: resistência negra, identidades, memórias, vivências, publicada no Repositório Institucional, orientada pelo professor Newton Dângelo, do Instituto de História (Inhis/UFU), e defendida em fevereiro deste ano, Brasileiro apresenta documentos, fotografias e relatos orais que atestam a presença social e cultural da comunidade negra congadeira no município. O historiador faz análise crítica do material, embasado por autores como Peter Burke, Nestor Canclini e Michel de Certeau, e reflete sobre a permanência do racismo e a resistência negra em Uberlândia.

 

Origens

Dos 604 mil habitantes de Uberlândia registrados pelo Censo 2010 do IBGE, 42,9% se autodeclararam pretos (8,3%) e pardos (34,6%). Os de etnia branca eram 55,8%; amarela, 1,1%; e indígena, 0,2%. A pesquisa científica de Jeremias Brasileiro parte do pressuposto de que esses pretos e pardos constituem a história regional, embora a história oficialmente contada os omita.

Os indígenas caiapós são os povos originários do território que hoje chamamos de Triângulo Mineiro, mas que era denominado de Sertão da Farinha Podre pelos bandeirantes que partiam de São Paulo para a região central do Brasil na época da colonização. Durante os séculos XVIII e XIX, famílias de origem europeia demarcaram as terras do Sertão da Farinha Podre e construíram aqui as primeiras fazendas, entre essas famílias, a dos Carrejos, cuja Fazenda São Francisco, de 1835, daria origem a Uberlândia.

O povoado que se formou em volta da fazenda de Felisberto Alves Carrejo recebeu o nome de Nossa Senhora do Carmo, o mesmo da capela inaugurada em 1853. Quatro anos depois, o povoado havia formado a freguesia de São Pedro de Uberabinha, que se emanciparia de Uberaba em 1888 para ser o município de São Pedro de Uberabinha. O nome Uberlândia é de 1929.

A capela de Nossa Senhora do Carmo foi ampliada em 1861, tornando-se a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo de São Pedro de Uberabinha (essa construção foi demolida em 1943; atualmente, a Paróquia Nossa Senhora do Carmo está situada no Bairro São Jorge). Era a igreja frequentada predominantemente por brancos, enquanto a população negra, formada por afro-brasileiros escravizados ou descendentes de famílias escravizadas, ia à Igreja do Rosário, fundada como capela em 1883, que foi demolida e substituída pela atual igreja em 1931.

Igreja do Rosário de Uberlândia, na década de 1930 (Foto: Arquivo Público Municipal de Uberlândia)

As origens da Congada vêm antes disso, quando os negros escravizados faziam sua festa em homenagem a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito no mês de outubro, em lugares mais centrais da cidade, como na antiga Praça do Comércio. A festa negra foi levada para os espaços periféricos com a construção da Praça do Rosário, que na época ficava nas bordas da cidade, que terminava no cemitério onde hoje é a Praça Clarimundo Carneiro.

A tese de Jeremias Brasileiro detalha as tensões que marcaram as relações do poder público, da Igreja e da sociedade uberlandense com a comunidade congadeira. "Propõe-se a realizar uma releitura do passado conectada com o presente, para mostrar que essa cidade sempre foi racista e que não deixou de ser racista. Nesse caso, procura-se fortalecer esse olhar de protagonismo da cultura popular congadeira na cidade", escreve o historiador.

 

Escravidão e racismo em Uberlândia

Na relação de bens doados para leilão e esmolas para a construção da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, no ano de 1858, da então São Pedro de Uberabinha, consta um homem negro escravizado, que foi doado por João José Dias e arrematado por José do Carmo por 17 mil réis - o mesmo valor de dois carros de milho e menos que o de um boi carreiro, arrematado na época por 26 mil réis.

Parte da relação de bens doados para leilão e esmolas para construção da Paróquia Nossa Senhora do Carmo no ano de 1858, da então São Pedro de Uberabinha, atual cidade de Uberlândia (Foto: Arquivo do pesquisador)

A tese de Jeremias Brasileiro aponta também que, entre 1885 e 1888, são identificados mais de cem casamentos de negros escravizados, em que aparecem seus padrinhos nos livros de tombos (registros) da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo e São Sebastião do Uberabinha. "Só que esses padrinhos eram simplesmente os seus senhores", afirma o recém-doutor.

Brasileiro diz que a história que se pretende ser oficial negou ou omitiu a presença dos senhores de escravos na cidade de Uberlândia. "Fala-se constantemente do desenvolvimento, do progresso, da cidade que surge com a visão de futuro e ao mesmo tempo, eis que na realidade, as famílias tradicionais e seus ascendentes familiares, eram em sua maioria, donos de escravizados", relata.

Embora a população negra seja parte intrínseca da história uberlandense, os pesquisadores da UFU apontam um apagamento dos sujeitos negros da história oficial registrada no município. A tese conta a história de personalidades como Leônidas da Costa, Milton Ferreira e outras, ligadas à tradição do Congado, cujo legado religioso e cultural é pouco conhecido fora da comunidade congadeira.

“Meu pai ajudou fundar essa cidade, ele chegou antes mesmo do Tubal Vilela, antes de outros coronéis, meu pai morreu com 101 anos, isso há uns 40 anos atrás, então esse povo do Congo daqui, levantou essa cidade também, os filhos dos netos dos escravos", relata Dona Maria Aparecida Sousa, uma das fontes ouvidas por Brasileiro.

Segundo os historiadores, a abolição da escravidão não significou o fim de uma espécie de apartheid na região. Até os anos 1960, em Uberlândia, havia separação de lugares para brancos e negros em passeios, clubes e cinemas. Atas de reuniões e reportagens publicadas na época, referenciadas na tese de Brasileiro, mostram que a população negra era retratada como rude e sem modos.

Os relatos orais coletados para a pesquisa revelam o racismo manifestado na construção do estereótipo do negro associado ao trabalho braçal. Geraldo Miguel (conhecido como Charqueada) e Salvador Costa relataram ao pesquisador da UFU que, em meados do século XX, trabalhavam em um frigorífico no bairro Patrimônio onde os negros eram colocados para carregar peso ou enviados para trabalhar "na geladeira", com a justificativa de que tinham o sangue mais quente para suportar as baixas temperaturas.

A partir da narrativa da história do Congado, manifestação religiosa de origem africana milenar, também presente em Uberlândia desde a chegada dos primeiros negros escravizados, Brasileiro relata as tensões entre os congadeiros e a Igreja na cidade. O historiador aponta a relação paternalista que se estabeleceu, além da imposição de datas, pois, durante décadas, a festa da congada foi transferida para novembro, porque em outubro seria a festa dos brancos em louvor a Nossa Senhora do Rosário.

Brasileiro diz que, ainda hoje, os congadeiros são proibidos de entrar na Igreja Nossa Senhora do Rosário, pois, segundo a Igreja, os tambores poderiam abalar a estrutura dos vitrais. A tese aponta também, como racismo simbólico em Uberlândia, a imagem exposta na praça do Santuário Nossa Senhora Aparecida. De acordo com a Igreja, trata-se de uma questão artística: embora originalmente Aparecida seja uma denominação mariana negra, a imagem exposta em Uberlândia é pintada de branco.

Nossa Senhora Aparecida, exposta na Praça do Santuário (Foto: Arquivo do pesquisador)

 

 

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