Pular para o conteúdo principal
Ciência

Entenda como os túneis de desinfecção contra o coronavírus podem prejudicar a saúde

Especialistas da UFU explicam os efeitos das substâncias usadas nos tubos para o corpo e reforçam o isolamento para conter o avanço do vírus

Publicado em 10/06/2020 às 16:32 - Atualizado em 22/08/2023 às 16:52

Anvisa detectou substâncias nocivas à saúde nos túneis. (Arte: Anna Cauhy)

Estruturas em forma de câmaras, tubos e túneis que aplicam produtos desinfetantes às pessoas estão sendo instaladas em alguns comércios, terminais rodoviários e outros estabelecimentos no Brasil. A solução pode parecer eficaz, porém, esses túneis são reprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, dependendo das substâncias utilizadas, representam riscos à saúde.

A Anvisa, por meio de nota técnica, detectou substâncias perigosas à saúde em cabines de desinfecção. Eis o que a Agência declara sobre elas:

"Hipoclorito de sódio: é um produto corrosivo, podendo causar lesões severas dérmicas e oculares, além de produzir irritação nas vias respiratórias. Não deve ser misturado com outros produtos, pois o hipoclorito de sódio reage violentamente com muitas substâncias químicas e pode potencializar os efeitos adversos.

Peróxido de hidrogênio (água oxigenada): a inalação aguda pode causar irritação no nariz, garganta e trato respiratório. Em altas concentrações do produto, pode ocorrer bronquite ou edema pulmonar. 

Quaternários de amônio: pode causar irritação de pele e das vias respiratórias e sensibilização dérmica, mas não é corrosivo. As pessoas que se expõem constantemente aos produtos podem desenvolver reações alérgicas. 

Ozônio: a exposição leve a moderada ao gás ozônio produz sintomas do trato respiratório superior e irritação ocular (por exemplo, lacrimação, queimação dos olhos e garganta, tosse, dor de cabeça, dor subesternal, irritação brônquica, gosto e cheiro acre)."

O médico infectologista Henrique de Villa Alves, do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC/UFU), afirma que, após contato com a pele ou mucosas, alguns produtos podem causar efeitos graves, como uma dermatite. “Há pessoas mais sensíveis, outras podem desenvolver essa sensibilidade, uma ferida ou alergia na pele. A maioria dos produtos usados pode irritar o olho e a inalação das substâncias pode causar falta de ar leve, transitória, até falta de ar grave”, acrescenta.

Os cientistas reforçam a importância da higiene das mãos. Essa ação, aparentemente simples, tem muito efeito na escala microscópica:  o material genético dos vírus é protegido por proteínas e uma camada de gordura, que formam uma cápsula protetora. Quando as moléculas do sabão, por exemplo, interagem com a gordura do vírus, o envelope viral se ‘rasga’, o material genético fica exposto e se rompe. Dessa forma, o vírus é inativado. 

A biomédica Victória Riquena Grosche, formada pela UFU e doutoranda em Microbiologia pela Universidade Estadual Paulista ‘Júlio Mesquita Filho’ (Unesp), informa que as soluções pulverizadas, como água sanitária e amônio, usadas nos túneis têm capacidade limitada de limpar as superfícies. 

“Por exemplo, a pessoa passou por esse tubo de sanitização, que supostamente limpou as mochilas, roupas e acessórios. Quando ela sai do túnel, pode passar em outro lugar, ou conversar com alguém contaminado pelo vírus. Por isso, as soluções individuais, como o uso da máscara e lavar bem as mãos, ainda são as melhores alternativas para não se contaminar”, explica a cientista.

As principais forma de transmissão da Covid-19 são as gotículas de saliva e as secreções respiratórias. “O vírus está nos pulmões, na boca, no nariz, e a forma de transmissão é o contato com as gotículas ou superfícies contaminadas, como a roupa. Portanto, esses tubos não resolvem a principal forma de contaminação”, explica o médico.

A Anvisa informa que não existe na literatura acadêmica evidência de eficácia dos túneis. De acordo com a nota, é importante esclarecer que, “quando da aprovação de produtos saneantes desinfetantes, a Anvisa avalia sua aplicação em objetos e superfícies, mas não sua aplicação direta em pessoas. Portanto, não existe, atualmente, produto aprovado pela Anvisa para 'desinfecção de pessoas'”. 

Também não foram encontradas recomendações por parte de órgãos e agências internacionais, como “a Organização Mundial da Saúde (OMS) , Agência de Medicamentos e Alimentos dos EUA (FDA) ou Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC) sobre a desinfecção de pessoas no combate à Covid-19, na modalidade de túneis ou câmaras. Igualmente, não existe recomendação da Agência Europeia de Substâncias e Misturas Químicas (ECHA)”.

Alves acredita que essas estruturas podem causar uma falsa sensação de segurança. “O mais importante é a gente focar em realmente no que faz a diferença. Talvez, no futuro, alguém desenvolva algum sistema ou produto que realmente seja eficaz. A ciência está sempre mudando. Agora, o importante é a etiqueta respiratória, higiene das mãos, respeitar o período de isolamento social para evitar muitos casos ao mesmo sobrecarregando o sistema de saúde”, finaliza o médico infectologista.

 Por enquanto, apenas o uso da máscara é obrigatório. Se algum estabelecimento essencial, como supermercado e farmácia, exigir a passagem pelos tubos de desinfecção, contate os órgãos competentes de fiscalização, como o Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) e a Vigilância Sanitária.

Palavras-chave: COVID-19 coronavírus desinfecção tubo túnel

A11y