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23/07/2020 - 15:33 - Atualizado em 23/07/2020 - 15:46
Aproximações virtuais com leitura na quarentena
Conheça a “Quarentena GEPLELL 2020”, do Campus Pontal, na seção Leia Cientistas
Por: 
Portal Comunica UFU
Por: 
Karina Klinke e Mical de Melo Marcelino*

 

A suspensão do calendário acadêmico na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em 18 de março de 2020, com menos de duas semanas de aula, trouxe-nos ao mesmo tempo conforto, mediante o risco de contaminação por meio do Covid-19, e pesar, devido ao afastamento social. A volta às aulas no curso de Pedagogia do Campus Pontal tinha sido em clima de confraternização, planejamento coletivo de atividades que mobilizam equipes – reuniões do curso, estudos em núcleos e grupos, organização do Círculo de Cultura, atividades em laboratórios, orientação de TCC –, proposição de disciplinas que discentes ansiavam cursar e muitas pessoas envolvidas com o último semestre de sua graduação: anseio por melhoria de trabalho, aumento salarial, o primeiro diploma de ensino superior da família, realização de sonhos.

Afastamo-nos. Por saúde. Sobrevivência.

Como lidar com a nova condição social de isolamento? Quando vamos nos rever? Ninguém sabe, até hoje.

Juntamos os objetos de uso pessoal, fomos para casa. Mas sem sossego. Uma coisa é sair em férias, saber que estaremos em descanso com a família, após um semestre puxado. Outra é ter voltado das férias, com muitos planos de trabalho e estudo, e sermos afastados das atividades em que acreditamos e investimos boa parte da vida, por causa de um vírus.

Questionamo-nos sobre os(as) discentes: estão se cuidando? Suas condições de vida possibilitam sustento? Como orientá-los(as) com o distanciamento? Têm acesso à internet de qualidade para continuarem seus estudos? Suas famílias podem sustentá-los neste período? Como vão lidar com seus planos de vida?

E os(as) docentes e técnicos-administrativos em educação (TAE)? Sobretudo aqueles(as) que têm saúde debilitada, familiares idosos e crianças pequenas para cuidar. Mesmo que tenham melhores salários, condições de moradia e alimentação diante da maioria de profissionais que atuam no sistema privado ou no público estadual e municipal, isso não garante imunidade em uma pandemia.

A preocupação se estende, ainda, pelo extenso contingente de jovens e crianças com os quais lidamos em nossas atividades de estágio supervisionado, poucas com condições sociais que possibilitam acesso ao conhecimento formal em meio ao isolamento social e uma maioria cercada pela miséria, exposta à violência e às baixas condições de saúde e higiene.

Em meio a tantas dúvidas, perguntamo-nos, assim que depositamos sobre a mesa de casa nossos pertences, os mesmos que levamos para a universidade na volta às aulas: como nos aproximar de discentes, docentes e TAEs isolados? Nosso grupo desenvolve estudos e pesquisas sobre Leitura, Escrita, Livros e Linguagens (GEPLELL) e, durante as primeiras 72 horas de aflição, consideramos que era possível intervir nesse hiato que se colocava entre as pessoas. Se lidamos com Arte – literatura, teatro, música – nossos  objetos de estudo, pesquisa e extensão atingem as emoções, desenvolvem possibilidades de convívio, partilham ideias, múltiplos conhecimentos, aproximam pessoas a qualquer distância. 

No primeiro final de semana com o calendário acadêmico suspenso construímos, então, o projeto de extensão “Quarentena GEPLELL 2020”, com o objetivo de lermos uns para os outros: discentes, docentes, TAEs, familiares, amigos, conhecidos. Assim, no dia 23 de março, a primeira leitura foi a público por meio das redes sociais nas quais o grupo tem perfil: YouTube, WhatsApp, Facebook e Instagram. Imediatamente começaram as reações de aprovação: “que lindo!”, “obrigada!”, “que bom te ver e ouvir”. E com o correr dos dias, as pessoas passaram a enviar seus vídeos e outras a esperar o horário de publicação diária (entre 16h e 20h) para receber a leitura.

Os trabalhos remotos de docentes e TAEs continuaram: organização dos setores administrativos para funcionamento na modalidade remota, recepção e despacho de documentos, reuniões deliberativas, comissões, elaboração de editais, estudos em Núcleos e Grupos, análise da nova legislação sobre educação, dentre outros. Mas as melhores horas de trabalho diário de nossa equipe advêm dos contatos para a coleta de vídeos com leituras, sua editoração, postagem, divulgação e manutenção das redes sociais, arquivamento das reações do público e de leitores(as).

Começamos por gravar nossa própria leitura, divulgá-la nas redes sociais e convidamos outras pessoas a fazerem seus vídeos. A escolha do texto é livre, feita pelo(a) leitor(a); são eles(as) também que fazem a gravação e enviam por meio eletrônico. Nós conferimos a qualidade de som e imagem, fazemos a legenda para que pessoas surdas ou com baixa audição possam acompanhar, editamos com imagens de leitura e frases de literatos, acrescentamos os logotipos do grupo, da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proexc) e da UFU; mais recentemente, incluímos uma vinheta musical produzida por um colaborador. Todos os vídeos são arquivados no canal do YouTube, por não termos acesso a outra ferramenta com tantos recursos livres. Depois são postados, um por dia, nas demais redes sociais.  

Conhecemos, assim, muitos talentos: pessoas que nunca tinham gravado um vídeo, que não gostavam de ler em público, discentes, docentes e TAEs que escrevem, compõem músicas e letras, escritores e escritoras pouco divulgados, famosas também, contadoras de estórias, diversos estilos literários, enfim, muitas vozes ressoam.

Até o tempo presente somam-se 83 leituras. Nosso canal no YouTube registrou, entre 23/03 e 20/07, 173 inscritos, 8.297 visualizações, sendo que 88% delas são feitas por pessoas não inscritas; são 136 horas de audição, das quais foram registradas 23.045 impressões. O maior acesso acontece por meio do Facebook (50%) – onde temos um perfil e uma página – 19% pelo WhatsApp – por onde divulgamos um link de acesso às leituras –, apenas 0,2% pelo nosso perfil no Instagram e 30,8% por outros meios. Assim, conhecemos um pouco sobre nosso público e como ele acessa as redes sociais.

Sob o ponto de vista dos leitores e leitoras, um relato contempla todo o conteúdo dos demais que se manifestaram: “ler na quarentena é ler com outros sem saber onde eles estão! É sentir que existem redes, intelectuais, de afeto e de proteção neste momento tão ímpar que enfrentamos. É oferecer um pouco do ‘deliciamento’ que só os textos podem provocar!” (Janaína Losada, foi professora do curso de História no Pontal e atualmente é pró-reitora de Gestão Acadêmica da Universidade Federal do Sul da Bahia).

Recebemos relatos de pessoas que, ao acompanhar os vídeos do projeto, passaram a encomendar livros impressos para ler mais dos autores e autoras divulgados; há quem faça uma lista de desejos e, quando conclui um livro, compra o próximo; há os que revisitam leituras antigas porque tiveram outra percepção do texto, após assistir a interpretação gravada; crianças que montaram um Banco, uma Cesta ou um Canto de Leitura em suas casas.

Como resultado parcial deste projeto extensionista, já foi possível coletar uma quantidade considerável de dados que servem como objeto de pesquisa. Os resultados parciais demonstram que a leitura espontânea no espaço virtual é uma possibilidade de escuta e fala sensível, que aproxima as pessoas e incentiva a leitura.

Ao avaliarmos os primeiros 120 dias de desenvolvimento do projeto soubemos, por meio dos comentários de espectadores(as) e leitores(as), mais demandas e vamos nos debruçar sobre elas agora: criação de um canal de podcasts para quem não quer expor sua imagem e dicas sobre leitura dadas por especialistas: como incentivar, programar, desenvolver e interpretar a leitura literária.

O que nos incomoda, por não sermos especialistas em comunicação, são as barreiras de editoração e divulgação. Até o momento foram feitas com os meios disponíveis, em sua maioria mantidos por grandes empresas que oferecem serviços aparentemente gratuitos. Assim, ao mesmo tempo em que atinge o grande público e nos aproxima, com estímulo à leitura, esta produção fica vulnerável às corporações que coletam nossos dados (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft). Resta-nos a pergunta: como atingir nosso público de forma abrangente, sem dispor nossa produção e imagem à iniciativa privada?

 

*Karina Klinke e Mical de Melo Marcelino são professora do Instituto de Ciências Humanas do Pontal (ICHPO/UFU).

 

A seção "Leia Cientistas" reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao. Se você já enviou o seu texto, aguarde que ele deve ser publicado nos próximos dias.

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