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01/10/2020 - 17:22 - Atualizado em 01/10/2020 - 17:23
A constituição da infância na era das tecnologias digitais
Doutorando em Estudos Linguísticos escreve, na seção Leia Cientistas, sobre práticas discursivas, relações de saber e de poder
Por: 
Portal Comunica UFU
Por: 
Anísio Batista Pereira*

 

Evolução tecnológica se dá de forma acelerada, influenciando a vida de todos (Foto: arquivo do pesquisador)

A infância pode ser percebida como uma etapa significativa na vida do ser humano, uma vez que corresponde à principal fase de formação como sujeito dócil, socializável e capaz de interagir com as pessoas. As suas práticas discursivas, relações de saber e de poder que a constituem - bem como defende o filósofo e psicólogo francês, Michel Foucault, quando problematiza a constituição do sujeito - se dão de forma mais intensa no âmbito escolar, cujas relações com os saberes vão a constituindo e também no sentido de conduzir suas capacidades comunicativas, de socialização com os colegas e com toda a comunidade escolar e, dessa forma, alargar seu convívio social, de forma mais ampla.

Nas famílias tradicionais (mais antigas), porém, em uma era não muito distante, as crianças interagiam de forma intensa, por meio de brincadeiras criativas, cujas tecnologias eram apenas recursos disponíveis nas próprias residências (pedaços de madeira, cordas, elásticos, pilhas etc.) que alegravam esses sujeitos. Sobretudo nas residências rurais, os brinquedos eram fabricados pelas próprias crianças ou por parentes adultos, com tudo aquilo de mais simples que o espaço rural podia oferecer. Os famosos carrinhos de lobeiras, os papa-ventos e as bolas feitas de leite de gameleira (retirado de seu caule que se transforma em borracha), só para citar alguns exemplos, intermediavam as interações das crianças e inseriam-nas em uma identidade que lhes era própria. A partir dessas construções e criatividades se davam suas práticas discursivas, em que o calor humano reinava nessas interações e as constituíam no sentido de estabelecer vínculos com o outro por meio das relações presenciais, de estar face a face. 

Mas, os tempos são outros e a evolução tecnológica se dá de forma acelerada, influenciando a vida de todos e a estrutura familiar não fica de fora desses dispositivos. As tecnologias digitais avançaram de forma a dar condições de acesso a todos, seja aos sujeitos da zona urbana ou rural, pois a internet hoje é acessada por toda a parte, em todos os espaços e âmbitos produtivos ou educacionais que se possam imaginar. As brincadeiras “inocentes” das crianças cederam lugar aos jogos virtuais, ao entretenimento que se dá pelo aperto de botões, dispensando o contato presencial e as interações físicas. Dessa forma, observa-se uma mudança nos valores e a necessidade de consumo, criando uma obrigação de adesão a essas tecnologias, também no sentido de status e de se colocar nesse lugar imaginário de ser moderno. As relações humanas se transformaram, as formas de exercício do poder assumiram outra dimensão e parece-nos que a interação virtual tornou-se mais valorosa que a presencial, novos sentidos emergem, em que a dominação que essas tecnologias exercem sobre as crianças parecem conduzir a constituição desses sujeitos de forma coercitiva, na dimensão tempo-espaço.  

Essa transição ligada à infância pode ser observada de forma lúcida, pelo abandono das brincadeiras em grupo ou com o outro, a concentração desses sujeitos nos celulares ou em outras tecnologias, também pela dificuldade de controle por parte das famílias em relação a esses hábitos. Não ousamos a julgar se esses modos de diversão são prejudiciais ou benéficos, mas parecem colocar uma barreira entre os indivíduos. Quanto à interação/socialização das crianças e o desenvolvimento do raciocínio, a contribuição que esses dispositivos podem proporcionar aos alunos ainda carece de investigações mais refinadas. 

O que está em jogo é essa adesão transformadora de hábitos relacionados às brincadeiras, que apontam até para uma perda da “inocência” da criança e configura outro cenário nessa constituição, o que vem a ser infância nos tempos contemporâneos. O que se pode afirmar, diante disso, é que uma tradição está sendo deixada de lado e as relações de saber e de poder constitutivas de sujeitos, retomando a teoria foucaultiana, se dão por intermédio desses dispositivos tecnológicos e parece-nos esvaziar a dimensão humana nesses modos de subjetivação. Sendo históricos, esses sujeitos se constituem então a partir dessa nova ordem estabelecida, em que a infância tecnológica da atualidade parece apagar essa memória de uma infância “ingênua” e feliz.

 

*Anísio Batista Pereira é graduado em Letras (Língua Portuguesa e suas Literaturas) e mestre em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Catalão (UFCat); doutorando em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU/Fapemig) e membro pesquisador do Laboratório de Estudos Discursivos Foucaultianos (LEDIF/UFU/CNPq).

 

A seção "Leia Cientistas" reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao. Se você já enviou o seu texto, aguarde que ele deve ser publicado nos próximos dias.

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