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01/06/2021 - 15:48 - Atualizado em 07/06/2021 - 14:25
Artigo analisa bonecas em cerâmica do povo Karajá
A confecção das peças representa socialização, divulgação e manutenção de valores do grupo indígena
Por: 
Laura Justino

A representação de uma cena de caça, envolvendo um homem, uma onça, um cachorro e uma árvore (Foto: Maikon Rangel)

A arte em cerâmica Karajá surgiu como um instrumento de socialização entre o grupo, que incentiva a estabilidade dos seus costumes desde a infância. Por meio desses objetos indígenas, outras populações podem aprender sobre sua cultura.

O artigo Entre los mundos yni y tori: cambios y resistencias reflejados en la confección de muñecas Karajá (em português, “Entre os mundos yni e tori: mudanças e resistências refletidas na fabricação de bonecos Karajá”), publicado em abril de 2021 na revista espanhola Anales del Museo de América, relaciona a arte em cerâmica com o contexto cultural do grupo indígena e mostra as alterações que a confecção passou, devido às relações comerciais ao longo do tempo.

A autora Lídia Meirelles, coordenadora do Museu do Índio (Musíndio), da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), afirma que a aparência das bonecas representam o povo Karajá: “as peças são belas, assim como o grupo se vê”. Ela produziu a pesquisa juntamente à mestranda em Artes, pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Nayana Camurça, quando era bolsista da instituição.

Ritxòkò é o nome das peças femininas, enquanto as masculinas são chamadas de ritxòò. Os objetos podem se espelhar em formas variadas e cenas variadas do cotidiano Karajá. Por meio da observação das características da arte, como a pintura e a forma, é possível identificar se a figura representa um ser mítico, animal ou humano”, explica Meirelles.

A figura que representa a mulher, à esquerda. E o homem, à direita. De acordo com as autoras do artigo, a arte não representa a realidade atual, mas lembra o passado e o ideal estético do grupo Karajá (Foto: Maikon Rangel)

 

Patrimônio cultural

O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão que decide as questões relativas ao patrimônio brasileiro material e imaterial, reconhece a necessidade de garantia da renda econômica do povo indígena. Em 2012, passou a considerar uma riqueza cultural o “artesanato e processos para a confecção dos bonecos Karajá”.

Os objetos cerâmicos eram passados de mãe para filha. Hoje em dia, as peças são apreciadas e adquiridas pelos não indígenas, chamados de tori pelos nativos. “Mesmo que sejam usadas para venda, o comércio não adulterou sua carga simbólica”, explica Meirelles.

A arte costumava ser modelada em argila e apresentava formas arredondadas, salientes e sem a distinção de braços e pernas, como na figura abaixo. O cabelo era feito de cera de abelha. Atualmente, as bonecas produzidas são adaptadas à comercialização de grande volume de peças e cozidas no fogo. Essa mudança na confecção permitiu que a arte em cerâmica apresentasse movimentação de gesticulação. “Surgem as cenas representando situações do cotidiano, como a cena de um parto ou de caça”, explica Meirelles.

De acordo com Meirelles e Camurça, os braços apoiando os lados da barriga, o umbigo destacado e barriga e seios exaltados sugerem gravidez (Foto: Maykon Rangel)

A partir da confecção dessa arte em cerâmica, as crianças do grupo Karajá identificam elementos que constituem sua tradição. A venda das bonecas indígenas é a atividade mais rentável para as mulheres e contribui para o prestígio e reconhecimento da identidade de um povo.

O artigo também traz informações do grupo. “Iny” significa “nossa gente” e representa o nome com que os indivíduos se identificam. Enquanto o termo “Karajá”, designado por não indígenas, tem origem tupi e sua tradução é “grande macaco”.

O estudo aponta que os nomes escolhidos por inimigos e dominadores podem ser atribuídos com uma conotação pejorativa. “Grande parte dos nomes dos povos indígenas identificados hoje em dia são resultados de designações aleatórias”, aponta Meirelles.

Esse grupo habita Centro-Oeste do Brasil, em Goiás, Tocantins e Mato Grosso, no entorno do rio Araguaia e seu idioma é chamado inyrybè. De acordo com o artigo, essa língua apresenta, geralmente, uma variação fonética entre a mulher e o homem, que tende a omitir certos segmentos consonantais.

A revista espanhola na qual a pesquisa foi publicada, Anales, divulga os estudos relacionados ao patrimônio cultural do continente americano, e está vinculada ao Museu da América, uma referência mundial em estudos etnográficos.

“Trata-se de uma importante e reconhecida revista no âmbito científico e acadêmico. Mas, mais do que isso, acredito que é fundamental pensar o Museu como espaço de reflexão, investigação e produção do conhecimento”, comenta Meirelles.

 

MUSÍNDIO

O Musíndio coleciona, protege e divulga os bens culturais indígenas. Ele possui cerca de 70 peças Karajá catalogadas. A co-autora do artigo, Camurça, graduou-se no curso de Artes Visuais na UFU. Seu trabalho de conclusão de curso (TCC) refletiu sobre a arte Karajá em processos de aprendizado de crianças tori. "É extremamente importante incentivar os bolsistas a escreverem e produzirem conhecimento”, afirma Meirelles.

Sua vivência com os acervos do local ampliou seu conhecimento acerca da diversidade dos povos: “conhecer a história do nosso próprio povo e através deles mesmos é de extrema importância. Os indígenas fazem parte da nossa formação, do nosso passado e presente e, oxalá, do nosso futuro!”.

Camurça afirma que o Brasil não valoriza a cultura indígena como deveria: “tratam-se de pessoas com conhecimentos riquíssimos e que lutam, de diversas maneiras, para sobreviver em um país que não reconhece sua própria identidade”.

As bonecas do povo Karajá sofreram mudanças estéticas ao passar dos anos. Mas as autoras defendem que elas não perderam a originalidade. “Esses objetos narram as alterações e adaptações de seus valores e singularidades na atualidade, sem deixar de falar da própria cultura, reafirmando e assegurando a assim a continuidade da própria existência”, conclui Camurça.

 

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