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18/07/2021 - 16:17 - Atualizado em 21/07/2021 - 13:52
Quais são as possibilidades profissionais após a formação superior em Dança?
Terceira e última reportagem da série sobre a primeira década do bacharelado em Dança da UFU apresenta a história de duas egressas do curso, que seguiram diferentes áreas no mercado de trabalho artístico
Por: 
Portal Comunica
Por: 
Genivan Júnior, Matheus Minuncio e Pedro de Paula

Conforme vem sendo noticiado na série especial que o Portal Comunica está veiculando neste mês, o curso de bacharelado em Dança do Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia (Iarte/UFU) está completando 10 anos em 2021. Após a formação nesta graduação, que tem como pilares a criação, a produção e a pesquisa artística, é possível atuar como bailarino, coreógrafo, diretor de espetáculos, preparador corporal, produtor e executor de projetos artísticos e culturais, dentre outros ramos. Além disso, outras opções são os concursos públicos, a pós-graduação ou a atuação como educador em espaços não formais de ensino.

Desde o seu início, o curso já teve 10 turmas ingressantes, sendo que seis delas completaram todo o ciclo formativo – de, pelo menos, quatro anos. Ao todo, foram 24 profissionais formados nesse período. De acordo com a pesquisa realizada pelo professor Alexandre Molina, 79,2% desse conjunto de egressos atuam profissionalmente na área da dança e metade deles já contou com a aprovação de propostas em programas públicos ou privados de incentivo à cultura.

Além disso, quatro egressas já concluíram cursos de mestrado, duas estão matriculadas em programas de mestrado acadêmico e outra finalizou uma especialização na área de Gestão Cultural. Destaca-se, ainda, que a renda com o ofício profissional na área está entre um e três salários-mínimos e que a formalização de seu trabalho se dá, principalmente, na modalidade microempreendedor individual. Entretanto, 20% do grupo de egressos afirmam atuar profissionalmente sem nenhum tipo de formalização.

Nesta terceira, e última, reportagem da série sobre a primeira década do curso de Dança na UFU, conheça a história de duas egressas do bacharelado, que trilharam por caminhos diferentes após a obtenção do diploma. 

 

Gabriela Paes dos Santos - artista, escritora e mestranda em Artes Cênicas pela UFU

Apresentação do trabalho ‘Matéria Orgânica’, de 2019, na cidade de Nova Petrópolis (RS). (Foto Fhaêsa Níelsen)

Hoje com 27 anos, Gabriela afirma que quando criança pensava em ser desde professora e bailarina à soldada da Marinha, devido a gostar de uma propaganda televisiva que ilustrava a possibilidade de viajar em um navio para ajudar pessoas. “Não me lembro de ter uma aspiração específica durante qualquer fase da vida, mas sempre fui encantada pela troca e pela magia do contato. No fundo, eu queria mesmo era ser alguém que estivesse sempre em movimento, aprendendo, fazendo, experimentando e compartilhando com o mundo; e deu certo!”.

A dança fez parte de sua vida, entre pausas e retornos, desde os quatro anos de idade. Apesar disso, durante o Ensino Médio, ela não considerava a possibilidade de se formar na área, que era vista como uma atividade de lazer. Foi sua professora, Fernanda Bevilaqua, em uma escola de dança, que a incentivou a seguir os estudos, quando o curso da UFU havia sido recém-criado. “Graças a ela, eu entendi que era possível me profissionalizar da dança e escolhi essa área porque acreditava – e ainda acredito – que a dança é uma expressão artística capaz de mobilizar uma infinidade de questões, por intermédio do corpo e do movimento. Ela une artista e público no instante e, por mais que se repita, a experiência da dança é sempre única, peculiar e efêmera”, comenta.

A ideia de seguir a formação superior ganhou força, em 2008, quando Gabriela assistiu a uma apresentação de Christiane Matallo – sapateadora profissional e madrinha da Semana do Sapateado da “Uai Q Dança” – tocando saxofone e sapateando. “Foi completamente transformadora pra mim e me fez querer provocar nos outros aquela alegria e aquele encantamento que ela causou em mim”, descreve. Outro momento que ajudou nessa tomada de decisão foi diante da apresentação solo de Mariana Lemos, artista luso-brasileira que desenvolve pesquisas no “Centro em Movimento” de Lisboa. “Esse trabalho, uma dança-carta-memória-festa, que nasce das relações entre corpo e cidade, expandiu minha compreensão sobre o que pode ser dança e fortaleceu o meu interesse pelos diálogos entre gênero, sexualidade e movimento”, explica.

Ao relembrar desses episódios, Gabriela diz sentir o ‘frio na barriga’ que a dança causa, descrevendo como uma sensação de intimidade e de querer descobrir o que vem em seguida: “O curso da UFU me atraiu pela sua perspectiva completamente inovadora dentro do panorama nacional. Toda a estrutura do bacharelado aqui é voltada para a construção de uma autonomia artística. Ao longo de toda a graduação, somos incentivadas a desenvolver ferramentas que valorizem a nossa subjetividade, e não simplesmente ensinadas a executar a técnica x ou y”.

Apesar disso, ela admite que em alguns momentos pensou em desistir de seguir na área e diz ser este um drama recorrente dentro da classe artística independente. “Ser artista é um desafio diário. Exige que a gente se dedique não só aos processos de criação, mas também para a nossa própria divulgação, agenciamento, produção, captação de recursos e editais, manutenção de grupos, coletivos. Fazer arte é insistir em dar espaço para o corpo no meio de tanto sufocamento”, expõe.

Atualmente, depois de seis anos de formada, suas pesquisas estão centradas nas interfaces da dança e da agroecologia – estudo da agricultura de uma perspectiva ecológica. Desde 2017. Gabriela é atuante em dois projetos: o “Mulheres Unindo Dança e Agroecologia (MUDA)”, que é uma proposta de caráter formativo, realizada via Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PMIC), no qual serão realizadas oficinas remotas de sensibilização corporal para pessoas de 14 a 65 anos, a partir de alguns fundamentos da agroecologia; e o “Matéria Orgânica”, que se trata de um processo de criação e pesquisa, também sobre dança e agroecologia, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFU, desde o início de 2021.

Seus principais objetivos profissionais, daqui pra frente, são aprimorar as práticas de ensino para ministrar cursos livres, workshops e oficinas de dança contemporânea. Outra meta é contribuir com a expansão das pesquisas sobre dança e agroecologia, em grupos de estudo, da produção artística e de eventos. Diante da pandemia da Covid-19, os planos tiveram de ser, em parte, adiados. Sem a possibilidade do encontro presencial, a forma como a maioria dos artistas trabalha, foi necessário passar por mudanças profundas. “Todos os projetos tiveram que ser reorganizados para que se tornassem possíveis no modo remoto. No aspecto econômico, a pandemia exigiu uma boa dose de reorganização financeira para que eu desse conta de pagar os boletos, mesmo com os atrasos na execução dos projetos aprovados para o eixo 2020/2021”, resume.

Foi na UFU que Gabriela teve grandes avanços, tanto pessoal, quanto profissionalmente. A participação em eventos – como o Ruinas Circulares, o Festival Cena Animada e o Rumos Dança – trouxe bagagem profissional e o olhar crítico. “Felizmente, o campo das artes, em especial a dança, tem alargado sua presença dentro das instituições de Ensino Superior e aprofundado seus debates. Mais do que isso, eu considero que existe um movimento forte de rompimento com as visões hegemônicas de se pensar arte nesses espaços, vindo principalmente dos discentes que chegam na universidade com referências que vão muito além do tradicional, do eurocêntrico e, com isso, obrigam que a academia se renove, mesmo que isso leve tempo”, analisa.

Além disso, em 2014, ela conheceu Fhaêsa Níelsen, sua companheira, durante um evento na universidade, em que ambas apresentaram pesquisas sobre gênero e sexualidade, envolvendo a teoria queer. Anos depois, com a ajuda de sua parceira, também escritora, Gabriela publicou um livro oriundo de sua pesquisa atual, que relaciona dança e agroecologia. “Meu maior interesse era em compreender de que maneiras aquela prática agrícola poderia conversar com a produção artística em dança. Será que existiam pontos em comum? Como um corpo que planta vivencia o movimento? O que muda no movimento quando ele nasce em um espaço completamente oposto ao espaço da sala de ensaio, do palco liso e asséptico? E dessas questões foi brotando o ‘Matéria Orgânica’, publicado em 2019”, conta.

Quando decidiu prestar a prova para o mestrado, Gabriela não sabia o que esperar, mas agora avalia ter acertado na escolha. “Saí da graduação um pouco cansada da vida acadêmica, porque a universidade foi praticamente a minha casa durante o bacharelado. Eu passava o dia todo envolvida com as atividades do curso e do centro acadêmico. Voltei para esse espaço, seis anos depois de formada, com o peito aberto, movida pela vontade de fazer pesquisa a partir de um olhar mais maduro e autônomo, e não poderia estar mais satisfeita. Considero um grande privilégio poder me dedicar a estudar arte, no Brasil, em pleno 2021, em uma universidade de excelência como a UFU”, reitera.

Por fim, a mestranda afirma que, ao mesmo tempo em que temos profissionais cada vez mais qualificados, o mercado de trabalho ainda é incipiente e bastante instável. “O mercado da dança é uma corda bamba, na qual cada pessoa precisa buscar uma maneira de se manter equilibrada e, caso caia, bem amparada pela sua rede de proteção. Mesmo antes da pandemia, a maior parte dos agentes culturais já vivia de forma incerta, dependente de editais, prêmios e das poucas políticas públicas disponíveis. Agora, os efeitos da Covid, se alastram por todos os lados, inclusive sobre escolas e academias de dança, que antes sobreviviam com o mínimo de respiro”, conclui.

 

Juliana Maria Alves Ladeira - produtora e gestora cultural

Juliana Ladeira atualmente está morando na Inglaterra. (Foto: SGTV)

A dança é uma das manifestações artísticas que utiliza o corpo como instrumento criativo. Os artistas que se expressam por meio desta arte, na maioria das vezes, relatam que a dança sempre esteve presente em suas vidas. É o caso de Juliana Ladeira, que dança desde a infância, mas não consegue se lembrar em qual ponto a dança entrou em sua vida; a sensação é de que a arte sempre esteve por ali. “Não me lembro exatamente quando, mas lembro da minha irmã mais velha criando coreografias para apresentarmos pra nossa família quando eu era bem pequenininha. Dancei muito em casa e na escola, mas comecei a fazer aulas mesmo, apenas aos 12 anos”, conta.

Dançar sempre foi a forma preferida de expressão e, às vezes, até uma válvula de escape para Juliana. Mesmo dançando desde criança, ela confessa que não tinha muita ideia de como era ter a dança como profissão. A dançarina veio de uma cidade pequena, onde não havia muitos grupos de dança profissionais e pouca oferta de projetos e espaços culturais. Optar por cursar Dança na UFU foi a forma que ela encontrou para seguir o seu sonho. Conforme avalia, fazer o curso a possibilitou compreender o que mais existia no universo da arte e até onde poderia chegar com a instrução adequada.

Apesar de sempre sonhar com o curso, a distância da graduação – que, até então, existia somente nas capitais – e a questão financeira fizeram com que Juliana desanimasse de correr atrás desse objetivo. Em 2012, ao saber que a UFU passaria a ofertar o curso de Dança, foi como se recebesse uma injeção de ânimo. Não pensou duas vezes antes de fazer a inscrição no processo seletivo.

Quando o assunto é o curso de Dança nas universidades públicas, ela avalia que "estamos nos desenvolvendo bem; mais pessoas estão conhecendo os cursos e suas produções. No entanto, as universidades ainda precisam de mais espaço e investimento, tanto em graduação, quanto na pós-graduação”. Juliana opina que o curso na UFU apresenta uma proposta criativa muito interessante, que é a interdisciplinaridade com o teatro e as performances que surgem a partir dessa interatividade. “Acredito que essas interações ampliam ainda mais as possibilidades criativas e, na minha opinião, elevam a qualidade do curso", declara.

Explica que o corpo docente também deu espaço para que entendesse o que ela era e o que queria. Enquanto cursava Dança na UFU, os projetos de produção e de interação com a comunidade externa foram os que mais chamaram sua atenção. Participar deles fez com que a então estudante percebesse outros interesses profissionais, com os quais não havia se identificado quando decidiu cursar dança.

Foi participando dos projetos de extensão que envolviam a gestão e produção cultural nas áreas de dança, teatro ou cultura popular, que Juliana compreendeu que criar projetos e ações, ver tudo acontecer e pensar em cada detalhe eram tarefas que a moviam tanto quanto a própria dança. “Entendi que poderia levar a mais pessoas todas as produções maravilhosas que me moviam e me transformaram. Além disso, também existia a possibilidade de ampliar a oferta cultural onde eu trabalhava e morava”, sintetiza.

Durante o curso, ela participou da produção de várias edições do Sala Aberta, compartilhamento de processos dos alunos do curso de Dança, Circulandô, Mostra Rumos Dança e Congresso da Abrace, como coordenadora de logística e diversos outros eventos acadêmicos, inclusive com o diretório acadêmico e o Diretório Central dos Estudantes (DCE). Além disso, em Uberlândia, Juliana atuou na produção de mostras de academias de dança, como a Semana do Sapateado no Uai que Dança, Mostra Minas que Dança, Mostra Paralela, Mostra 6tetas, dentre outras. “Acompanhei Cláudia Muller no Sesc Palco Giratório nas cidades de Vitória e Araxá e também na Bienal Sesc de Dança em Campinas”, exemplifica.

Em 2017, após tantas aventuras, Juliana voltou para sua cidade natal, São Gotardo (MG), onde exerceu a função de diretora de Cultura e Turismo e, até 2020, elaborou e produziu diversas ações e projetos. Por lá, também atuou na equipe de gestão da Biblioteca Municipal e do Museu Municipal e foi a responsável pela elaboração e aprovação do Plano Municipal de Cultura, que fundamenta, regulamenta e orienta a proposição e execução das políticas públicas em São Gotardo. O documento foi resultado de um longo processo de pesquisa, análise e pactuação, construído de forma democrática, que envolveu Poder Público e sociedade civil. Ela acredita que arte e cultura têm um papel crucial na nossa formação e desenvolvimento como seres humanos.

Apesar disso, Juliana revela ainda sentir falta da dança e, em outubro do ano passado, em busca de novos desafios e experiências, se mudou para a Inglaterra, onde hoje é gerente de departamento em um galpão de um site de roupas, calçados e acessórios. Ela ressalta que a ideia é voltar à área da dança e continuar estudando, assim que se estabilizar e a pandemia permitir. “Embora estejamos em uma situação um pouco mais avançada em muitos locais, com teatros e museus sendo reabertos, ainda tenho um pouco de medo da situação e pretendo esperar”, alega.

Questionada sobre o que a experiência durante o tempo em que foi aluna de Dança na UFU representou em sua vida, ela narra que teve oportunidade de conhecer pessoas incríveis, fazer parte de projetos importantes, amadurecer como pessoa e de entrar em contato com muitas outras realidades que não se pareciam com a dela, mas eram igualmente importantes. “Pude estudar o que amo, o que me move e descobrir outros interesses e habilidades. Acredito que não se pode criar arte sem entender quem você é e tive excelentes mentores que me ajudaram nessa tarefa. A dança na universidade realmente não é como os outros cursos, mas é sim um campo de conhecimento e é importante que tenhamos espaço para debater, construir e melhorar esta área”, finaliza.

 

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