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17/12/2021 - 14:58 - Atualizado em 20/12/2021 - 11:33
A imprensa voltada para o público infantil no Brasil e na França
Pesquisadora da Faculdade de Educação aborda o tema em seu estágio de pós-doutorado
Por: 
Marco Cavalcanti

Em intercâmbio pelo Programa Institucional de Internacionalização da UFU (Print/UFU), Discini participa de reportagem de emissora de TV francesa durante a Feira Nacional do Livro e da Imprensa Infantil no dia 5/12, em Montreuil/Paris. (Foto: acervo da pesquisadora)

O Portal Comunica UFU entrevistou a historiadora Raquel Discini, docente da Faculdade de Educação (Faced/UFU). Ela ministra aulas nos cursos de graduação em Pedagogia e em Jornalismo e nos dois programas de pós-graduação da Faced: de Educação (PPGED) e de Tecnologias, Comunicação e Educação (PPGCE).

Discini está na França, em estágio pós-doutoral na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS-Paris) como pesquisadora sênior com bolsa Capes-Print, programa de incentivo à internacionalização de instituições de ensino superior e institutos de pesquisa no Brasil que busca incrementar o impacto da produção acadêmica e científica dos programas de pós-graduação.

A história da imprensa e da educação são temas de estudo da docente. Nessa entrevista, ela fala um pouco sobre seu estágio, a parceria entre a UFU e a instituição francesa e a história da imprensa dirigida ao público infantil. Confira.

 

Qual pesquisa sobre a imprensa brasileira você está desenvolvendo, mais especificamente?

Eu estudo a história da imprensa brasileira desde os meus tempos de mestrado. Eu sempre procurei pensar na imprensa, imprensa periódica, jornais e revistas como veículos importantes para a educação não formal do público leitor, quer sejam homens, mulheres, meninos, meninas, operários, fascistas, enfim, porque a história da imprensa é uma história bastante segmentada.

No meu doutorado, eu percebi que um dos sujeitos mais “educáveis”, digamos assim, via imprensa no Brasil, na primeira metade do século 20, eram as crianças. E acabei falando um pouco sobre isso, porque o foco do meu trabalho de doutorado não eram as crianças, era a educação feminina. Mas guardei isso dentro de mim, esse desejo de entender mais e melhor a história da imprensa escrita voltada para o público infantil, para o leitor infantil.

 

Qual a importância de Paris, da França e da École des Hautes Études en Sciences Sociales para essa pesquisa?

Porque Paris é um dos polos irradiadores de modelos. Modelos culturais, modelos econômicos e modelos organizacionais do que a gente chama de imprensa no mundo todo. Particularmente no que diz respeito à história da imprensa infantil, Paris ‒ a França como um todo, mas Paris em especial ‒ é um dos pólos difusores de técnicas, projetos, ideologias, modelos, enfim, que acabaram influenciando fortemente as primeiras publicações direcionadas para o leitor criança no Brasil. Há um claro paralelo entre uma das revistas mais antigas em circulação no Brasil, que é a O Tico-Tico [circulou de 1905 a 1962] e os impressos publicados aqui na França desde 1835 em diante.

 

[Reveja a reportagem publicada no portal Comunica UFU sobre a pesquisa que analisou as publicações da revista ‘O Tico-Tico’ do início do século XX]

 

Por que essa pesquisa é importante?

Eu entendo que essa pesquisa é importante porque ela primeiro estabelece uma relação entre o que ocorria na França e o que ocorria no Brasil. É possível a gente tentar estabelecer alguns parâmetros comuns aí, estabelecer alguma relação entre Brasil e França. Por outro lado, é uma pesquisa importante porque ela se debruça na história da educação da população brasileira, uma população leitora para além das paredes escolares. Hoje está mais do que claro que a escola é uma instituição fundamental para a educação das pessoas, mas é “uma” das instituições educativas. E a gente sabe o quanto as mídias, ao longo da sua própria história, tiveram um papel fundamental na construção de modos de ser, de modos de pensar, de modos de sentir e enxergar o mundo. E eu entendo que os jornais e revistas voltados para a leitura infantil e circulação no Brasil tiveram um papel importante na educação dos sujeitos escolares.

 

Que descobertas você tem feito, em relação à história da imprensa escrita voltada para o público infantil?

Tem sido um caminho muito prazeroso, porque, de fato, a imprensa voltada para a leitura infantil é uma imprensa muito… primeiro que remonta ao século 18, no momento em que revista, jornal e livro são gêneros bastante misturados. É difícil distinguir o que é jornal, o que é revista, o que é livro. Esse tem sido um primeiro movimento meu: o movimento metodológico de análise. Por outro lado, uma coisa bastante interessante e prazerosa é que juntamente com a Literatura Infantil ‒ e agora eu estou falando justamente por conta dessa indefinição entre o que é livro, o que é revista, o que é jornal no que diz respeito ao gênero textual, mas é um tipo de material muitíssimo ilustrado. Então, é bonito você ver, né? Porque você acaba trabalhando com a história do surgimento das ilustrações, a história do surgimento das histórias em quadrinho…É um mundo de descobertas não apenas em relação à leitura, ao material voltado à leitura de crianças, mas à própria imprensa como todo.

 

‘Imprensa para o público infantil’ parece ser um segmento muito restrito, seleto. É isso mesmo?

Isso em termos de história do Brasil, porque se você olhar para a França, por exemplo, onde a massificação da educação primária foi uma política de Estado que efetivamente funcionou, o que a gente tem é uma proliferação de textos voltados para leitura infantil e de textos que efetivamente circulavam. No Brasil também. Porque o jornal, em especial, é um produto barato, desde os seus primórdios. Mas é claro que você não tem nem como comparar um público leitor na França no século 19, por exemplo, com um público leitor no Brasil. Se a gente parar para pensar que as primeiras estatísticas confiáveis ligadas ao assunto, no Brasil, datam da década de 1920… e a gente sabe que, em alguns estados brasileiros, mais de 80% da população era analfabeta. Agora, isso não exclui a importância da circulação dos impressos, principalmente porque se trata de uma imprensa "ilustrada”. Esse é o termo da época. Ou seja, uma imprensa repleta de imagens, de desenhos, inicialmente e, portanto, uma imprensa em que o sujeito leitor aprende por meio da leitura, mas também, e principalmente, por meio da leitura de imagens. Isso todo mundo lê.

 

Qual a avaliação que você faz, de um modo geral, da imprensa dirigida ao público infantil no Brasil de hoje?

Eu não sei se eu sou a melhor pessoa para opinar a respeito, porque eu entendo muito do que foi, não do que é. Vou falar, agora, não como pesquisadora, mas como mãe de dois pequenos que, infelizmente, estão sendo formados, com muita insistência minha e da escola, claro, pela mediação do livro, mas, a experiência tátil de leitores de jornais e revistas, é inacreditável, mas eles não têm. E eu entendo que essa é uma questão da minha ordem privada. Mas é “uma questão da minha ordem privada” porque é uma questão do mundo. Agora, eu estou pensando nessa pequena família como uma amostragem de uma família de classe média do Sudeste e com pais letrados.

Então, o que aconteceu na minha infância, por exemplo: a minha mãe assinou a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e esses jornais chegavam na minha casa todo santo dia, e ao menos uma vez por semana, existiam suplementos direcionados a mim. A pequena leitora da Folhinha, Estadinho e, conforme eu fui crescendo, fui indo, principalmente na Folha, para outros nichos e outros suplementos, Folha Teen, até chegar à leitora da Folha. Hoje em dia, isso não existe mais, por conta da própria transformação radical que as mídias estão vivendo no século 21. Mesmo a Folha de São Paulo, hoje, que é um dos jornais mais importantes do país, tem um dia, uma página dedicada à leitura de criança. Uma paginazinha pequenininha. Então, eu não posso fazer uma análise criteriosa como pesquisadora das mídias da imprensa atual. Mas eu posso falar como mãe de jovens leitores que não têm acesso. Os materiais impressos estão deixando de existir paulatinamente. Eu, particularmente, acho tudo isso uma pena! Talvez seja saudosismo. Não sei.

 

Quando termina seu estágio?

Esse é um estágio de três meses, que termina agora na primeira semana de fevereiro, mas eu tenho certeza que é o início de um longo caminho que pretendo trilhar junto à École des Hautes Études en Sciences Sociales. A gente tem aqui o Centro de Pesquisa sobre o Brasil Colonial e Contemporâneo (Centre des Recherches sur le Brésil Colonial et Contemporain). Temos, aqui na École, a revista Brésil, que é toda voltada para os estudos ligados ao Brasil e à América Latina, mas principalmente ao Brasil.

Estou muito feliz porque estou sendo acolhida por uma baita pesquisadora, que é a Mônica Raisa Schpun [autora dos livros Beleza em Jogo e Justa (biografia de Aracy de Carvalho, mulher de Guimarães Rosa). A Mônica é pesquisadora aqui da École e é uma pessoa com quem estou aprendendo demais. Ela foi presidente da associação de brasilianistas da Europa, é uma pessoa que tem se mostrado muito aberta a uma interlocução conosco na Universidade Federal de Uberlândia. Então eu acredito que a gente vai conseguir fazer um belo de um intercâmbio, uma bela ponte entre os nossos alunos de pós-graduação da UFU e a École des Hautes Études. Um negócio muito interessante é que a École é um centro interdisciplinar. Eu estou aqui como pesquisadora, não do PPGED, mas a ideia é fazer um intercâmbio entre alunos de mestrado e de doutorado não só do PPGED, mas das ciências humanas em geral aí da UFU: Geografia, História, Jornalismo, Artes, enfim as Ciências Humanas, porque uma marca da escola de Altos Estudos é justamente a interdisciplinaridade.

 

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