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Sustentabilidade

Economia solidária

Projeto incentiva desenvolvimento de empreendimentos com dificuldades de se autogerirem

Publicado em 08/12/2014 às 13:26 - Atualizado em 09/06/2025 às 22:10

Economia solidária é uma forma de produção, consumo e distribuição centrada na valorização do ser humano. Tem base associativista e cooperativista e é voltada para produção, consumo e comercialização de bens e serviços de modo autogerido. Segundo o Ministério do Trabalho, é uma nova forma de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver, sem explorar os outros, sem querer levar vantagem, sem destruir o ambiente. Parte da nova lógica de desenvolvimento sustentável com geração de trabalho e distribuição de renda, mediante um crescimento econômico com proteção dos ecossistemas. Seus resultados são compartilhados pelos participantes, sem distinção de gênero, idade e raça. Implica a reversão da lógica capitalista ao se opor à exploração do trabalho e dos recursos naturais, considerando o ser humano na sua integralidade como sujeito e finalidade da atividade econômica.

Neste contexto surge, em 2008, o Centro de Incubação de Empreendimentos Populares Solidários (Cieps) da UFU, responsável por incubar empreendimentos de coleta seletiva, cultura e agricultura familiar e camponesa. Está localizado na Rua Tapuios, 1370, bairro Saraiva. A responsável e coordenadora do centro é a professora Neiva Flávia de Oliveira.

Segundo a coordenadora, incubar é um processo em que o centro, utilizando a interdisciplinaridade existente na universidade, acolhe um empreendimento vulnerável ou de pessoas que não têm acesso ao mercado tradicional, trabalhando para que elas consigam ter uma geração de renda, o que é chamado de empoderamento. O objetivo é permitir a emancipação e a autonomia de empreendimentos populares solidários, para os indivíduos que não possuem potencial financeiro para alcançar a independência econômica. É um apoio conjunto: são pessoas que trabalham juntas, geram renda e partilham igualmente o lucro.

Como chegar ao Cieps

A professora Neiva Flávia afirma que há dois caminhos para se chegar ao Cieps. Um deles é por meio da busca ativa do centro, quando assistentes sociais realizam atividades em assentamentos e fazem o Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico), em que se identificam e caracterizam famílias de baixa renda. Esses profissionais retornam ao Cieps com demandas de projetos de empreendimentos de assentamentos ou da área urbana. A segunda forma de entrada é caracterizada pelas pessoas que buscam o centro.

Segundo Karina Mamede, jornalista voluntária, todos os interessados, sejam os da busca ativa do Cieps ou aqueles que procuram o centro, necessitam agendar entrevista para apresentar o empreendimento. A apresentação é feita por meio de diálogo com o coletivo (grupo de profissionais encaminhados de acordo com o tema de cada empreendimento), responsável por compreender o real interesse da comunidade, visitar a empresa e avaliar se o centro tem condições de efetivar a iniciativa (ou negócio).

Existem alguns critérios para que a proposta seja aceita para o processo de incubação. O grupo de pessoas que pretende candidatar seu projeto ou empreendimento passa pela triagem de identificação de vulnerabilidade. Verifica-se se aquele grupo realmente não tem condições de pagar pelo assessoramento. De acordo com Neiva Flávia, outro ponto fundamental é a disponibilidade para trabalhar como cooperativa ou associativismo. “Que a pessoa não venha aqui querendo ser um empreendedor e gerar lucro, ter empregado e explorar o empregado. Que ela venha para cá com o pensamento da economia solidária”, ressalta a coordenadora.

Karina esclarece que, mesmo preenchendo os requisitos do Cieps, o empreendimento entra em uma lista de espera. “Há ocasiões em que todos os bolsistas estão ocupados e não temos como atender, pois os coletivos são todos formados por bolsistas. À medida que desencubamos um empreendimento, chamamos o outro para a entrevista”, esclarece a jornalista.

Neiva Flávia informa ainda que as bolsas para alunos da UFU são disponibilizadas por meio de editais de processos seletivos divulgados pela universidade. Para se voluntariar não é preciso ter vínculo com a instituição, mas é necessário apresentar carta de interesse e assinar termo de voluntariado. Já o estágio depende dos cursos de graduação, sendo obrigatório um professor orientador.

Experiência de incubação

Neiva Flávia conta que um dos coletivos trabalha com catadores, ajudando a criar associações e cooperativas, permitindo que, a partir da coleta de material reciclável, haja geração de renda. “Nós trabalhamos também com assentamento de reforma agrária na perspectiva de que as pessoas tenham condições de produzir. Contamos com estagiários e bolsistas, que são estudantes de Agronomia e apoiam na produção [rural]; de Direito, que constituem as associações; de Contabilidade, que verificam o processo para apoiar os projetos; de Administração, que fazem o plano de gestão; da Comunicação, que fazem o marketing e pensam em como divulgar as atividades; da Psicologia, que ajudam no sentido de estabelecer a ideia de coletivo e solidariedade. Tudo em prol de que os empreendimentos produzam renda”, explica a coordenadora.

O coletivo de cultura surgiu, segundo Karina, na expectativa de colaborar com os assessorados para que eles adquiram a noção de união e agregação. Ela salienta que outra proposta atendida pelo coletivo é a de levar cultura, pois, devido à distância, principalmente dos assentamentos, havia dificuldade de acesso. Assim, foram criados dois grupos: o Periferart e Artemanha. Eles vão até as comunidades rurais levar atividades artísticas (roda de capoeira, dança típica, apresentação de teatro, cinema).

A Associação Camponesa de Produção da Reforma Agrária do Município de Uberlândia (Acampra) atua na produção e distribuição de produtos hortigranjeiros e está incubada pelo Cieps há um ano. A Acampra é formada por moradores do assentamento Emiliano Zapata. Juarez Moura, presidente da associação, conta que os assentados conheceram o centro por meio da busca ativa que ele realiza. “Começamos com uma ideia e nos transformamos em uma associação que entrega 30 toneladas por mês de hortaliças para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) da cidade, além de fornecer alimentos para o RU [Restaurante Universitário] da UFU”, frisa Moura.

A Central de Ação Social Avançada (Casa), que faz parte do projeto Serviço, Educação e Desenvolvimento de Entidades do Terceiro Setor (Sede), utilizou os serviços do Cieps para auxiliar em seu desenvolvimento. A Casa está há seis meses desincubada. Laerte Magalhães, integrante da central, afirma que as orientações sobre o cooperativismo e o conhecimento adquirido em economia solidária foram fundamentais para que os associados se reconhecerem como grupo. Outro fator determinante, segundo Magalhães, foi a ajuda ao acesso a recursos federais. Ele destaca ainda a utilização das dependências da UFU, o auxílio à execução do projetos e a elaboração da prestação de contas.

Laerte acrescenta que, após a desincubação, o projeto continua no mesmo ritmo de quando estava incubado. “Continuamos caminhando. Conseguimos, por meio dos recursos da Secretaria de Desenvolvimento Social e Trabalho, melhorar o desenvolvimento de entidades do terceiro setor de forma constante”, finaliza.

Professora Neiva Flávia, coordenadora do projeto

Palavras-chave: economia solidaria uberlandia

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