Publicado em 10/03/2016 às 10:44 - Atualizado em 09/06/2025 às 22:14
Foto: divulgação
Narciso Telles, professor do curso de Artes Cênicas da UFU, lançou recentemente “Grande Otelo - Estudos (in)displinares sobre cena e atuação”. O livro é uma coletânea de artigos organizada por ele, reunindo pesquisadores que se debruçaram sobre a vida e a obra Grande Otelo, artista nascido em Uberlândia cujo centenário se comemorou em 2015. O caráter indisciplinar do trabalho, denunciado na brincadeira no título, diz respeito à variedade de temas contemplados nos artigos: “Não é um livro sobre teatro ou cinema, ele está sempre no entre, como era a figura do Grande Otelo.”, explica o professor.
Não apenas as áreas de atuação como também as identidades de Grande Otelo eram múltiplas. Nascido Sebastião Bernardo da Costa, ele também era Sebastiãozinho da Tia Silvana, Pequeno Otelo e Sebastião Bernardes de Souza Prata. Sua relação com os lugares, principalmente com Uberlândia, também era ambígua. Esse é o tema do artigo assinado pelo pesquisador Tadeu Santos e a professora Maria Clara Tomaz Machado, historiadora e diretora de Comunicação Social da UFU. “Um ser humano que se constitui nessas plurais definições, nesses plurais espaços. As pessoas leem ele como o Grande Otelo, mas esquecem que ele era mais isso.”, explica Santos.
Cheia de idas e vindas, a relação de Uberlândia com o artista é pautada por interesses. Otelo sai da cidade ainda na infância, indo inicialmente para São Paulo e depois para o Rio de Janeiro, onde se consagra como ator. Em 1943, com o lançamento do filme Moleque Tião, protagonizado por ele - um ator negro, de origem pobre, tendo a chance de contar sua história - Uberlândia o reclama para si, se apropriando de seu sucesso. Até a morte, Sebastião foi ora acolhido e ora rejeitado por sua terra natal, e é através de suas “trampolinagens e astúcias”, como define a professora Maria Clara Machado, que ele também se aproxima e se afasta do local.
Para Telles, esse fenômeno tem a ver com a forma como a cidade de Uberlândia se relacionava com a população negra de modo geral. “Ela [comunidade negra] tinha seus nichos, havia esse lugar da segregação. Acho que por muito tempo esses artistas, essas figuras da história da cidade de Uberlândia, ficaram esquecidas. Muito no silêncio, melhor dizendo. Não se falava [sobre elas]. Acho que agora a gente tem um outro momento, de se falar dessas pessoas.”, explica o professor.
A coletânea
Além dos trabalhos de Tadeu Santos, Maria Clara Machado e Narciso Telles, que organiza o livro e também assina um dos artigos, a obra conta com contribuições de Luis Felipe Kojima Hirano, da Universidade Federal de Goiás (UFG), Zeca Ligiéro, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Camila Delfino e Maria do Socorro Marques, mestre em Artes pela UFU e professora do curso de Artes Cênicas da universidade, respectivamente.
A ideia do livro veio através do jornalista Carlos Franco, que também editou o material, que fez a proposta ao professor Telles. O processo de organização e edição durou cerca de cinco meses. “Grande Otelo - Estudos (in)disciplinares sobre cena e atuação” pode ser adquirido online e há um projeto ainda não concluído de oferecer o livro para que a prefeitura de Uberlândia possa disponibilizá-lo nas escolas da cidade.
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