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Cultura

'Xangô nos libertou'

Caneta criada por artista de Uberlândia foi usada pelo presidente Lula para sancionar revisão da Lei de Cotas

Publicado em 31/01/2024 às 13:14 - Atualizado em 13/02/2024 às 22:10

Fotos: Lucas Basílio e Natalia Adler

 

No dia 13 de novembro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a alteração na Lei de Cotas, vigente desde 2013. Para registrar esse momento histórico, que conta com mudanças como a inclusão dos quilombolas, a redução da renda máxima e a permissão de que candidatos cotistas concorram a vagas gerais, Lula utilizou uma caneta feita de orixás.

Os orixás são divindades cultuadas por muitas crenças africanas. Essa caneta, especificamente, foi criada a partir do orixá “Xangô” e assinada pelo artista André Ribeiro, de Uberlândia. Ele, que também é ferreiro, recebeu da deputada federal Dandara Tonantzin o convite para confeccionar a caneta e aceitou o desafio, finalizando o objeto em apenas dois dias.

 

Imagem do presidente assinando o documento com a caneta artesanal
Projeto de lei sancionado por Lula implementa a primeira revisão da Lei de Cotas desde sua criação, em 2013. (Imagem: Reprodução)

O dom da serralheria

André Luiz Ribeiro Silva, também conhecido como Odé Okê Samim (seu nome de santo), é candomblecista e vem de uma família de serralheiros. Ele trabalha com a serralheria desde jovem, porém apenas nos últimos três anos passou a usá-la como ferramenta artística e de umbanda.

 

Imagem do artista que confeccionou a caneta
André Ribeiro cria a partir do ofício que aprendeu na juventude. (Foto: Arquivo pessoal)

Em novembro do ano passado, realizou uma exposição no Centro de Memória Graça do Aché. Intitulada “Ogum, o ferreiro de deus”, a mostra foi composta por obras de arte em ferro que remetem a orixás e tradições de matrizes africanas. Para relacionar os instrumentos com as divindades, ele faz um estudo individual de cada peça, entendendo qual ferramenta é usada para cada ritual. “A partir desse estudo das peças e dos orixás, eu começo o trabalho. Por isso que cada peça é única; um trabalho nunca vai ficar igual o outro”, acrescenta o artista.

André também conta que em sua exposição, a convite da coordenadora do Graça, Ivete Almeida, o foco era trazer um pouco da religião e da cultura afro para aqueles que não conhecem ou entendem muito sobre o tema. Já a “caneta de Xangô” foi um caso particular.

 

Orixá de reparação e justiça

Feita de ferro, com um vergalhão, uma chapa 18 e uma solda MIG, a “caneta de Xangô” é mais que um instrumento, ela carrega um significado: justiça.

 

Imagem da caneta artesanal
Caneta tem o formato da 'machadinha de Xangô', orixá que representa justiça e equilíbrio. (Foto: Arquivo pessoal)

Ao receber o convite para confeccionar o objeto, o artista diz não ter se empolgado tanto e visto aquele como "mais um" de seus trabalhos. Depois de tê-lo finalizado, porém, André destaca que reconheceu a proporção do feito: “Pensei muito no peso disso, em como eu contribuí; um preto fazendo uma caneta que foi usada pelo Lula para sancionar uma lei… pra mim, foi muito bom."

Leandro Costa, pai de santo de André e amigo da deputada, foi quem intermediou o processo. Ele conta que, quando surgiu essa demanda, a ideia era simbolizar justiça e trazer representatividade. "Tudo na caneta foi pensando, até o fato dela ser feita em ferro tem um motivo… porque o Lula foi um metalúrgico.”

Além disso, Leandro, também conhecido como “Baba”, explica o significado do orixá escolhido para a caneta. “Xangô é o presidente da sala. Quando Ossaim desceu para a Terra, Oxum e Xangô desceram logo atrás. Ossaim deu para Xangô o poder da presidência do sacerdócio. Assim, ele representa a justiça, a renovação e o movimento político”, detalha.

O pai de santo acrescenta que a escolha do Xangô, além de simbolizar justiça e reparação histórica, por meio das alterações feitas na Lei de Cotas, também representa a resistência que existe nos terreiros. 

Finalizando, ressalta que os terreiros são muito mais do que parte da religião, são um local de resistência: "Principalmente nos últimos quatro anos, os terreiros foram muito atacados e tivemos muitas dificuldades para ter nossos direitos reconhecidos. Então, para nós, Xangô nos libertou e segue libertando.”

 

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Palavras-chave: Artista Uberlândia Caneta Xangô André Ribeiro

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