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Prevenção

Encontrei um escorpião, e agora?

Especialista explica medidas de prevenção e como proceder no caso de encontrar o animal

Publicado em 18/12/2025 às 12:45 - Atualizado em 09/01/2026 às 13:59

Foto: Milton Santos

Com o início da estação chuvosa, a tendência é que as aparições de escorpiões aumentem. De acordo com o Boletim Epidemiológico de Uberlândia (BEUDI), produzido a partir de dados do DataSUS e da Prefeitura de Uberlândia, os casos de picada de escorpião, também chamada de “escorpionismo”, começam a apresentar um aumento em agosto, que é o início da época de reprodução deles, e segue até dezembro, na estação chuvosa na cidade.

Por conta disso, a equipe da Diretoria de Comunicação Social (DIRCO) conversou com o professor da Faculdade de Medicina, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Stefan Vilges de Oliveira e que também é coordenador do Boletim Epidemiológico de Uberlândia (BEUDI), projeto de extensão iniciado no Departamento de Saúde Coletiva (DESCO/UFU), para entender como a população pode evitar a aparição dos escorpiões, o que fazer no caso de encontrar  o animal, e como proceder caso seja picado.

Aumento na aparição dos escorpiões

O escorpionismo começa a ter um aumento em Uberlândia a partir de agosto, que é quando há o início do ciclo reprodutivo dos escorpiões, muito por conta do aumento da temperatura pela transição de estação entre inverno e primavera, e pelo aumento dos índices de chuva. O Boletim Epidemiológico aponta que, entre 2007 e 2022, foram pouco mais de 200 casos de picada de escorpião em julho, com aumento para mais de 300 casos em agosto.

Vilges destaca que a espécie predominante na região é o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), que é peçonhento. Além dele, também há o escorpião-marrom (Tityus bahiensis), mais presente em áreas rurais, e que também possui veneno. Alguns dos sintomas desse veneno, que é injetado no corpo humano, a partir da picada do escorpião pelo seu ferrão, localizado na parte final da cauda do animal, incluem dor intensa, inchaço e vermelhidão na área da picada. Em casos mais graves, o veneno pode causar náusea, vômito, sudorese excessiva, febre, dentre outros.

“A gente começa a ver o aumento dos acidentes em agosto e tem um pico em dezembro, que está relacionado muito a temperaturas altas, chuva e hábito de reprodução desses escorpiões. Agora, também no período das chuvas, uma questão que acontece muito é que muitos escorpiões acabam sendo desalojados. Vemos chuvas com grande volume de água e esses escorpiões, às vezes, estão nessa drenagem pluvial que passou o resto do ano seca, e começa a encher com a água, forçando o escorpião a procurar outras áreas”, enfatiza Vilges.

Além disso, o especialista aponta que os escorpiões são predadores naturais de outros insetos, e por isso, buscam locais onde esses animais estão presentes, se abrigando em terrenos baldios com grama alta, tubulações e até em frestas ou locais escuros e quentes dentro da casa das pessoas, como dentro de calçados fechados, por exemplo. 

“Principalmente em áreas que têm prédios mais antigos, essas moradias mais antigas, têm um risco maior de acontecer a aparição de escorpiões. Eles estão quase sempre atrás do alimento principal deles, que são as baratas. Então, se tiver barata, a possibilidade de ter escorpiões é grande também. Então, onde as baratas estão, tem escorpião”, complementa

Prof. Stefan Vilges de Oliveira
O professor Stefan Vilges de Oliveira destaca que os escorpiões coletados pela prefeitura são encaminhados para a Fundação Ezequiel Dias (FUNED) para a produção de soro antiescorpiônico (Foto: Milton Santos)

Nesse caso, como evitar os escorpiões?

A principal recomendação para evitar escorpiões é adotar medidas de controle de baratas, como colocar telas em ralos e não acumular entulhos e materiais que possam atraí-las. “Eles estão sempre atrás do alimento principal deles, que são as baratas. Então, onde as baratas estão, eles estão”, diz o professor. 

Outras medidas pontuais como se atentar à remoção de lixos e entulhos, fazer a manutenção de tubulações, e observar o interior de calçados expostos, antes de calçá-los são aconselhadas. A Prefeitura de Uberlândia possuí meios que auxiliam nessas ações preventivas, como o “Cata-Treco”, um serviço que recolhe objetos domiciliares descartados, como sofás, TVs, guarda-roupas e móveis em geral. Para acionar o serviço, basta ligar e solicitar o atendimento, que vai até a residência da pessoa. Os Ecopontos também são iniciativas públicas espalhadas por toda a cidade, com o objetivo de ser um local de entrega voluntária de resíduos, como materiais de entulho e obras.

Quando se fala em controle de escorpiões, a propaganda do consumo e uso de venenos e produtos químicos é amplamente difundida, porém são necessárias ressalvas sobre sua utilização e efetividade, de acordo com Vilges. “Usar produtos químicos como única forma de controle não é recomendação do Ministério da Saúde. A empresa coloca esse produto que não atinge o local exato onde ele (o escorpião) está e não vai matá-lo. Mata as baratas, o que é importante, mas os escorpiões permanecem”, comenta Stefan. O especialista pontua também que estes venenos são “de contato”, ou seja, apenas produzem efeito se entram em contato direto com os escorpiões. Ele aconselha que medidas conjuntas, não apoiadas somente no uso destes produtos químicos, adotadas como forma direta de combate, são maneiras mais eficazes de controlar e evitar esses insetos.

O que fazer quando encontrar um?

Caso encontre um escorpião em casa, é sugerido que evite contato próximo com ele, afastando animais e pessoas do local no qual ele foi achado. “Se a pessoa tiver condições de coletar esse escorpião, vivo ou morto, às vezes com uma pazinha de lixo você consegue colocar num potinho e chamar a Zoonose”, propõe Vilges. A recomendação geral é isolar e conter esse animal e esperar pela chegada do atendimento especializado da Zoonose.

E se eu for picado(a)?

Em caso de picada, é aconselhado buscar assistência médica imediata, mesmo em casos onde a pessoa não sinta dor. Pode-se fazer compressas de água morna no local para diminuir a dor e manter o membro afetado elevado, porém nenhuma ação caseira substitui o atendimento médico. O especialista reforça a procura de ajuda rápida mesmo se o ferimento for leve: “Procurar assistência, não deixar para depois. Muita gente minimiza a dor e só busca assistência em caso de agravamento do quadro, mas é sempre indicado procurar assistência para avaliar o caso”.

O professor também destaca que o Hospital das Clínicas (HC-UFU/Ebserh) é referência no tratamento de escorpiões, procurar ajuda hospitalar é essencial pois apenas estes podem disponibilizar e dosar os antivenenos para o tratamento da picada. Os antivenenos são disponibilizados pelo município de acordo com a demanda, todos os acidentes com escorpiões devem ser reportados à prefeitura para mapear os casos e possibilitar o acesso dos antivenenos à população. “É importante registrar mesmo que seja uma picada leve, porque a partir do registro da ocorrência do acidente, por mais que ele não seja um acidente grave, é quantificado o número de antivenenos que são dispensados para aqueles municípios”, reforça Vilges.

Ações da UFU

De acordo com Nelson Barbosa, diretor de Sustentabilidade da Prefeitura Universitária (PREFE) da UFU, “a presença ocasional de animais como escorpiões é uma característica comum a grandes centros urbanos, e nossos campi, por possuírem extensas áreas, inserem-se naturalmente nesse contexto”.

Para gerenciar essa questão, a UFU mantém um fluxo de atendimento. Ao avistar o animal, a PREFE deve ser informada. Esta, por sua vez, aciona o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Uberlândia. “Essa parceria técnica é fundamental, pois garante a remoção segura do espécime e contribui para o mapeamento da fauna urbana”, ressalta Nélson.

Barbosa destaca que a aplicação de venenos químicos — a desinsetização convencional — não é adotada como estratégia principal de combate pela UFU. “Porque, biologicamente, os escorpiões possuem a capacidade de se abrigar em frestas profundas e tubulações onde o produto muitas vezes não alcança; além disso, o uso de tais substâncias podem ser contraproducente, pois tende apenas a desalojar o animal de seu abrigo habitual, forçando sua circulação por áreas comuns e aumentando o risco de acidentes”, explica o diretor.

Dessa forma, na UFU os esforços são concentrados no manejo ambiental e na prevenção estrutural como medidas mais eficazes. Isso se traduz em ações permanentes como: manutenção predial para vedação de possíveis pontos de acesso; manejo e limpeza constantes das áreas verdes; gestão adequada de resíduos, para evitar a atração de insetos que servem de alimento aos escorpiões; orientação da comunidade universitária sobre a importância de manter os ambientes organizados e livres de acúmulos. 

Segundo Nélson, “essa abordagem preventiva, somada à colaboração da comunidade em manter seus ambientes organizados, têm se mostrado o caminho mais seguro para garantir o bem-estar em nossos campi, refletindo-se na ausência de registros de acidentes em nossas dependências”. O diretor enfatiza que “a segurança em um ambiente tão amplo é construída coletivamente, e manter os locais organizados e livres de acúmulo de materiais é a contribuição mais valiosa que cada usuário pode oferecer”.

O mais importante, ressalta Barbosa, é caso alguém encontre um escorpião, mantenha a calma e a distância. Não tente capturá-lo ou utilizar produtos paliativos por conta própria e informe a Prefeitura Universitária com a maior brevidade possível pelos telefones (34) 3239-4140 ou 3239-4242 ou abra chamado para Limpeza / Controle de Pragas e Roedores no Sistema de Ordens de Serviço - PREFE.

Recomendações do BEUDI

Acesse o site do Boletim Epidemiológico de Uberlândia neste link, e também o Instagram do projeto @beudi.ufu para mais informações sobre escorpionismo e também sobre outras doenças tropicais negligenciadas. O último boletim divulgado pela equipe do BEUDI/UFU fez algumas recomendações para a prevenção de acidentes e como evitar a proliferação dos escorpiões, confira:

Para evitar acidentes:

  • Sacudir roupas e calçados antes de usá-los;
  • Não colocar as mãos em buracos, sob pedras e troncos podres;
  • Uso de calçados e de luvas de raspa de couro para manusear jardins, entulhos e materiais de construção;
  • Afastar as camas e os móveis das paredes;
  • Evitar que roupas de cama e mosquiteiros encostem no chão;
  • E evitar pendurar roupas nas paredes e portas.

Para evitar a proliferação:

  • Manter jardins e quintais limpos;
  • Evitar o acúmulo de entulhos, folhas secas, lixo doméstico, material de construção nas proximidades das casas;
  • Evitar folhagens densas (plantas ornamentais, trepadeiras, arbustos, bananeiras e outras) junto a paredes e muros das casas e manter a grama aparada;
  • Limpar periodicamente os terrenos baldios vizinhos numa faixa de 1 a 2 metros das casas, pelo menos;
  • Vedar as soleiras das portas e janelas quando começar a escurecer, pois estes animais, na sua maioria, apresentam hábito noturno;
  • Vedar frestas e buracos em paredes, assoalhos e vãos entre o forro e paredes, consertar rodapés despregados, colocar saquinhos de areia nas portas, colocar telas nas janelas;
  • Vedar ou colocar telas em ralos do chão, pias e tanques;
  • Combater a proliferação de insetos, pois são os alimentos preferidos de aranhas e, principalmente escorpiões;
  • Acondicionar lixo domiciliar em sacos plásticos ou outros recipientes que possam ser mantidos fechados, para evitar insetos, principalmente baratas;
  • Preservar os inimigos naturais de escorpiões e aranhas: aves de hábitos noturnos (coruja), lagartos, sapos, galinha (principalmente galinha d'angola), gansos, macacos, quatis.

Confira a seguir os números para entrar em contato caso você encontre ou seja picado por um escorpião:

  • Centro de Controle de Zoonoses CCZ - Prefeitura de Uberlândia
    Telefone: (34) 3213-1470
  • Cata-trecos
    Telefone: (34) 3239- 2800

Saiba mais:

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.

Palavras-chave: escorpião Boletim Epidemiológico prevenção

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