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Treinamento

Simulado de acidente aéreo avalia integração dos serviços de emergência em Uberlândia

UFU participou do treinamento que reuniu 200 participantes e simulou pouso de avião descontrolado com 50 passageiros

Publicado em 08/12/2025 às 14:28 - Atualizado em 12/12/2025 às 09:30

Foto: Isadora Pimenta

 

Na manhã desse sábado (6), um avião da companhia aérea Azul, vindo do aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, sofreu uma excursão de pista ao pousar no Aeroporto de Uberlândia. A aeronave transportava 50 pessoas e, segundo o último boletim divulgado ainda pela manhã, o saldo era de nove vítimas fatais e 13 feridos em estado crítico. O cenário, apesar de assustar passageiros e familiares, não era real: tratava-se do Simulado de Múltiplas Vítimas, atividade que integra o IV Fórum de Urgência e Emergência da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). O exercício reuniu dezenas de profissionais e estudantes, além de instituições como a Defesa Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, empresas  de transporte de emergência e a própria Aena Brasil, operadora do aeroporto.

Essa foi a terceira edição do simulado, mas a primeira sob coordenação da Aena Brasil. Nos anos anteriores, foi encenado um atropelamento em massa às margens de uma rodovia e um acidente envolvendo corrida clandestina, ambos performados no Campus Glória da UFU. Em 2025, o desafio aumentou o nível de dificuldade: simular um acidente aéreo para testar tempo de resposta, fluxos de comunicação, integração dos serviços e a capacidade operacional e estrutural do Hospital de Clínicas da UFU (HC-UFU/Ebserh).

Às 7h, o auditório do segundo andar do aeroporto já estava lotado. Entre socorristas, estudantes, avaliadores e organizadores, a preparação seguia intensa. Os estudantes de diversos cursos da UFU, que interpretariam as vítimas, passavam pela etapa da moulage, técnica de maquiagem que cria ferimentos realistas, desde escoriações simples até fraturas expostas.

A fidelidade visual das lesões é essencial para que equipes médicas identifiquem a gravidade de cada caso e pratiquem a triagem por cores, que divide os feridos entre categorias de risco: vermelho (emergência), amarelo (urgência moderada), verde (ferimentos leves) e preto (óbitos ou vítimas sem chance de sobrevivência em tempo hábil).

 

Foto simulação lesão
Simular lesões com moulage é essencial para treinar profissionais a agir diante de cenários de alta complexidade. (Foto: Laís Espósito)

 

As equipes de Medicina, Enfermagem e do Corpo de Bombeiros se espalhavam pela sala com os preparativos. Junto dessas equipes, estudantes de Psicologia e Jornalismo aguardavam o início do acidente na parte de dentro do aeroporto para acolher as famílias simuladas e apurar as informações fornecidas pelos serviços do aeroporto e das companhias aéreas. Na articulação da atividade, estava a professora Tânia Mendonça, responsável pela organização do evento na UFU. Para Mendonça, a organização é um grande desafio, envolvendo mais de 200 pessoas, entre vítimas, avaliadores, pessoas dos serviços de saúde e estudantes da universidade.

“Eu não digo que esse evento é da cidade, e sim regional. São muitas instituições de ensino, muitos cursos envolvidos, e todas as entidades relacionadas ao socorro e ao cuidado da nossa população, e os estudantes atuando cada um na sua área. Para fazer esse alinhamento, precisamos treinar muito. Assim como a urgência e emergência exigem preparação, a organização de um evento desse porte também exige articulação para dar certo. É um exercício multi-profissional e multi-institucional”, destaca. Entre as instituições envolvidas, estão UFU, Aena, instituições de ensino de Araguari e Uberaba, além de serviços de emergência, como Corpo de Bombeiros, Defesa Civil municipal e estadual, e os funcionários do aeroporto que prestaram os primeiros socorros às vítimas, por exemplo.

Assim que deixaram as salas de preparação, o próximo passo para a simulação começou. As equipes desceram acompanhando os Bombeiros pela área de acesso restrito, passando pelos detectores de metal, em um processo rigoroso que reforçava a prioridade absoluta da segurança, visto que é um local sob jurisdição nacional. Do outro lado, a cena se organizava: vítimas simuladas, avaliadores, estudantes de Medicina, fotógrafos e jornalistas posicionavam-se enquanto recebiam instruções finais sobre suas funções. No início, o ambiente mantinha uma normalidade, com conversas altas, risos, ajustes de posicionamentos e pequenas revisões técnicas, até a sirene do início do simulado soar.

Às 8h45, a aeronave modelo ATR-72 600 “pousou” e deu-se início ao simulado. Uma falha no sistema hidráulico levou a uma excursão lateral de pista, que é quando o avião sai da pista após a decolagem ou aterrissagem. A composição transformou-se em um cenário de preocupação com o sinal do comandante da operação e das sirenes dos bombeiros. As vítimas gritavam, pediam ajuda e simulavam o desespero com realismo. Às 9h01, após o acionamento imediato das equipes de emergência do aeroporto, a equipe do Corpo de Bombeiros chegou ao local, com a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), das UTIs (Unidade de Terapia Intensiva) Móveis às 9h13.

Um caso, em especial, chamou a atenção de todos ao redor: o de uma jovem que interpretava uma gestante. A atuação intensa de Érica Carvalho, psicóloga e participante do evento pela primeira vez, destacou-se pela preocupação constante com o bebê e pela suposta queda provocada pelo impacto. Sua entrega trouxe verossimilhança à cena e exigiu das equipes de socorro um nível elevado de atenção e sensibilidade no atendimento.

Mais cedo, Érica contou como encarou a experiência: “Pelo que ouvi de edições anteriores, é uma simulação muito real, mas só vou saber mesmo no momento do Simulado. Cheguei por volta das seis da manhã, e a preparação com a moulage levou cerca de meia hora”, relatou.

 

Foto entrevista com paciente interpretando mulher grávida
Érica Carvalho vive o papel de uma gestante ferida, em uma das interpretações mais marcantes do simulado. (Foto: Thaís Nadai)

 

Enquanto a simulação avançava, avaliadores se distribuiam para observar o desempenho das equipes de resgate. Os bombeiros circulavam entre os feridos e faziam a triagem, enquanto estudantes de medicina e seus supervisores acompanham os casos em suas pranchetas com check-lists e uma folha de avaliação para indicar erros dos socorristas. Com o desenrolar do exercício, um estudante comentou que, até então, quatro corpos haviam sido registrados, porém apenas um fora identificado, por exemplo.

Vale destacar que, após a finalização do evento, os socorristas e cada um dos atendimentos são avaliados no “debriefing”, uma reunião feita para avaliar como o Simulado ocorreu e apontar deslizes e detalhes que passaram despercebidos no atendimento das equipes de emergência, a fim de evitar que, em um caso real, esse tipo de erro não se repita, afinal, o objetivo do evento é exatamente este: identificar falhas, testar os limites dos socorristas sob pressão, e oferecer aos participantes a oportunidade de corrigir problemas em um ambiente seguro antes de situações reais que exigem respostas imediatas, precisas e sem margem para deslizes.

Isso foi enfatizado pelo capitão da Defesa Civil do Estado de Minas Gerais, Tenente Pedro Omar, que apontou: “A gente treina bastante para que, no momento real, haja maior facilidade de atendimento. Atender um evento de múltiplas vítimas nunca é fácil. Estamos falando de um desastre, de uma ocorrência que ultrapassa a capacidade de resposta local, seja dos Bombeiros, seja dos hospitais. Todo esse treinamento serve para dar mais confiança, integrar as equipes e aumentar o sucesso em um possível acidente real, seja uma queda de aeronave, seja um caso mais simples, como a excursão de pista simulada hoje.”

 

Foto prancheta com registros das equipes
Avaliadores registram falhas e acertos das equipes durante o simulado de resgate. (Foto: Maria Eduarda Marrama)

 

As vítimas que necessitavam de atendimento foram encaminhadas ao Hospital de Clínicas da UFU (HC). A cada desembarque de ambulâncias, os médicos verificavam a prioridade definida pelo sistema de cores. Gustavo Antônio Raimundi, Gerente de Ensino e Pesquisa do HC, explicou sobre o sistema de triagem usado. A partir da classificação das vítimas por cores, preto representa o óbito, enquanto vermelha, amarela e verde vão, sequencialmente, de maior à menor gravidade. Na simulação, somente as vítimas classificadas como vermelhas seriam encaminhadas para dentro do HC para simular o atendimento de trauma.

O simulado evidenciou a complexidade de um acidente de grande porte. Mais do que um exercício técnico, era um teste coletivo de preparo, integração e resposta, com resultados positivos para todos presentes. Com o encerramento do exercício, o aeroporto foi gradualmente retomando seu funcionamento habitual, mas, para os envolvidos, o impacto da experiência ainda prevalecia. Para a administração aérea, o treinamento testou, sob pressão, a articulação entre diferentes setores responsáveis pela segurança e atendimento às vítimas. 

 

Foto de atendimento em embulância
Foto: Maria Clara Gomes

 

Nas áreas reservadas às famílias simuladas, a equipe de psicologia finalizava seu trabalho de estabilização emocional e monitoramento dos impactos dos exercícios. O simulado também serviu como campo de formação para esses profissionais, que vêm consolidando sua presença em situações de crise simulada como essa. Segundo a psicóloga Laila Raquel, “é a terceira vez que a Psicologia participa do simulado do IMV, e a cada ano percebemos o nosso próprio crescimento.”

Janaina Bento e Elisangela de Fátima, funcionárias do aeroporto, também reforçaram que o simulado foi uma oportunidade de aprender como agir em uma situação real de emergência, entender para onde correr, quem acionar e quais procedimentos seguir. Para o Tenente Pedro Omar, o atendimento às vítimas ocorreu conforme o planejamento, com alguns apontamentos a serem feitos para o grupo, facilitando a gestão de um desastre, e com um tempo de resposta satisfatório.

“O treinamento é excepcional e extraordinário. Fazemos isso em diversos locais, entre oito e dez vezes por ano, com trabalhadores de usinas hidrelétricas e de barragens em todo o estado, em rodovias. Isso serve para aprimorar a capacidade técnica e diminuir o tempo de resposta, com o objetivo de salvar vidas. Queremos que as pessoas saibam quem vai atendê-las, quem será acionado, como vamos disponibilizar todas as nossas equipes à disposição das vítimas, e também fazer o controle dos curiosos, para que não tenhamos ‘turistas de desastres’, para não aumentar esse número de vítimas e não atrapalhar as equipes que estão realizando o resgate”, completa.

O exercício demonstra que um acidente aéreo não mobiliza apenas bombeiros e equipes médicas, mas uma cadeia inteira de profissionais: psicólogos, gestores, seguranças, comunicadores e de certo modo, até mesmo os passageiros presentes no local. Em todos os níveis, o aprendizado se faz presente. No fim, vai além de testar protocolos. A simulação aproxima instituições, fortalece equipes, expõe fragilidades e, sobretudo, prepara todos para atuar com precisão e humanidade quando não se trata apenas mais de um treinamento, mas sim de vidas reais.

 

 

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Palavras-chave: Simulado acidente aeroporto

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