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07/02/2019 - 10:36 - Atualizado em 12/02/2019 - 14:30
Pesquisa da UFU demonstra vantagens do sorgo na alimentação de aves
Sistema digestivo de frangos e galinhas possibilita aproveitamento dos nutrientes do grão
por Autor: 
Diélen Borges

 

A doutoranda Sâmela Keila Almeida dos Santos, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias da UFU, faz experimentos com a enzima protease na alimentação de galinhas poedeiras na Fazenda do Glória (Foto: Marco Cavalcanti)

 

O sorgo é o quinto cereal mais produzido no mundo, depois do trigo, arroz, milho e cevada. É utilizado como alimento humano na África, Ásia e América Central. No Brasil, o sorgo é adotado apenas na nutrição animal, mas sua produção aumentou quase dez vezes nos últimos 30 anos.

Esse crescimento pode ter sido influenciado pela ciência, inclusive pelas pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). É o que defende o professor Evandro de Abreu Fernandes, da Faculdade de Medicina Veterinária da UFU.

Os estudos coordenados por Fernandes demonstram as vantagens da utilização do sorgo na alimentação de frangos e galinhas poedeiras. É para falar dessas vantagens que, há 20 anos, o pesquisador tem percorrido o Brasil e conversado com produtores.

 

O que é sorgo?

O sorgo é uma espécie vegetal da família Poaceae, que é o clã de capins, gramas e relvas. De origem africana, o cereal foi domesticado entre 3 mil e 5 mil anos atrás. Seu valor nutricional é prioritariamente energético. Assim como o milho, tem de 62% a 65% de amido, mas o grão de sorgo tem mais proteína (de 8,5% a 9% contra 7,8% a 8% do milho) e menos óleo (1,5% contra 3% do milho).

Existem cinco tipos de sorgo utilizados na agronomia: granífero (de baixo porte, adaptado à colheita mecânica), sacarino (de porte alto, bom para silagem, que é um método de conservação de alimentação animal a partir da fermentação láctica, e como alternativa para produção de açúcar e álcool), forrageiro (utilizado em pastos e produção de feno), vassoura (para confecção do utensílio de limpeza) e biomassa (destinado à produção de energia).

Durante a safra 2016/2017, o Brasil produziu 2,1 milhões de toneladas de sorgo granífero. As lavouras se concentram na região Centro-Oeste, principalmente no estado de Goiás, seguida por Sudeste e Sul. A colheita do sorgo acontece entre agosto e setembro. Ele é um mês mais precoce que o milho, com ciclo de vida de 90 a 120 dias, e precisa de menos água.

 

O sorgo é utilizado como alimento humano na África, Ásia e América Central. No Brasil, é adotado apenas na nutrição animal (Foto: Arquivo do pesquisador)

 

Portanto, segundo o professor Fernandes, o cultivo do sorgo é adequado à safrinha (intervalo entre as safras principais) e favorável ao meio ambiente, por ser feito nas mesmas terras onde já se produzem outras culturas na safra principal, evitando desmatamento de novas áreas. No livro Sorgo: o produtor pergunta, a Embrapa responde, da Coleção 500 perguntas, 500 respostas, estão disponíveis mais informações sobre o plantio do grão.

Quando professor Fernandes, que é médico veterinário, começou a trabalhar com sorgo, há 30 anos, em uma granja de Uberlândia, o cereal enfrentava três paradigmas: presença de tanino, substância cujo sabor fazia os animais rejeitá-lo; ausência de pigmento amarelo, o que tornava as gemas de ovo e os pés de galinhas que se alimentavam com sorgo mais claras que daquelas que comiam milho; e desconfiança em relação ao seu valor nutricional, pois na época acreditava-se que correspondia a 80% do milho.

Fernandes chegou a testar o sorgo na granja. Em 1998, ingressou como docente na Faculdade de Medicina Veterinária da UFU e, em 2000, após instalar uma granja de pesquisa para frangos de corte na Fazenda do Glória, pôde desenvolver pesquisas científicas sobre a utilização do grão de sorgo na nutrição das aves, trocando informações com a Embrapa Milho e Sorgo e o Grupo Pró-Sorgo.

 

Galinhas que comem sorgo

Quando o milho é moído para compor as rações dos animais - em moinhos a martelos e peneiras de três a quatro milímetros -, o resultado são “pedaços menores”, ou seja, com granulometria própria para rações. Mas os experimentos revelaram que, ao moer o sorgo nessas mesmas peneiras, uma quantidade significativa de grãos passava inteira.

Fernandes testou o sorgo inteiro na alimentação de frangos e observou que os organismos das aves digeriam os grãos, pois eles não saíam nas fezes e o desempenho era igual ao dos frangos que comiam milho. Desempenho significa ganho de peso da vida de pintinho à idade adulta, que para frangos são 42 dias; conversão de ração em peso, ou seja, quantos quilos de ração foram comidos para se transformar em cada quilo de peso do animal vivo; índice de mortalidade; e tamanho da massa magra e dos órgãos.

 

Um dos estudos desenvolvidos na Fazenda do Glória, previsto para ser concluído no primeiro semestre deste ano, testa cinco dietas com galinhas poedeiras: sorgo com protease moído, milho moído, sorgo sem protease moído, sorgo sem protease inteiro, sorgo com protease inteiro. (Foto: Alexandre Costa)

 

Os pesquisadores da UFU descobriram que a moela dos frangos que comiam apenas sorgo inteiro era até 12 gramas maior que a moela das que comiam milho, que têm em média 35 a 38 gramas. Foi aí que Fernandes descobriu porque o sorgo dava tão certo com galinhas: graças à moela.

As aves, por não terem dentes, têm um sistema digestivo bastante peculiar, com papo (uma dilatação do esôfago que armazena e umedece o alimento) e estômago dividido em proventrículo ou estômago químico, responsável pela produção de ácido clorídrico e pepsinogênio, e moela, que funciona como um estômago mecânico que compensa a falta de dentes, com musculatura que tritura a comida. As galinhas chegam a comer pedrinhas de propósito, para se acumularem na moela e ajudá-las a triturar os alimentos.

O intestino é mais parecido com o dos mamíferos, subdividido em delgado e grosso. A equipe do professor Fernandes também observou uma resposta fisiológica das aves alimentadas com sorgo em grão, aumentando a superfície de absorção do intestino.

 

A ascensão do sorgo

Entre 1985 e 1995, o Brasil produzia 300 mil toneladas de sorgo por ano. Na safra 1999/2000, a produção chegou a 1 milhão de toneladas e dobrou em menos de 20 anos, chegando aos 2,1 milhões de toneladas da última safra.

O que explica esse sucesso? Na publicação Sorgo: aspectos econômicos, o economista Jason de Oliveira Duarte, que também é pesquisador da Embrapa, aponta três fatores para explicar o crescimento da produção de sorgo no Brasil. "O primeiro está relacionado à criação, no início dos anos noventa, do Grupo Pró-Sorgo, constituído de representantes da indústria de sementes, da pesquisa agropecuária, de instituições públicas e outros, que teve como objetivo o fomento da produção de sorgo no Brasil, com maior divulgação das potencialidades da cultura e suas modernas tecnologias", afirma.

As outras duas justificativas para o aumento na produção do sorgo indicadas por Duarte são: o plantio direto nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, "tendo o sorgo como uma cultura que, além de servir para rotação com a soja, produz boa palhada necessária a esse sistema", e o crescimento da safrinha na região central do Brasil, "onde o sorgo representa menor risco, uma vez que é mais resistente ao estresse hídrico do que o milho".

 

Professor Evandro de Abreu Fernandes, da Faculdade de Medicina Veterinária da UFU, integra grupo Pró-Sorgo, da Embrapa (Foto: Alexandre Costa)

 

É na primeira explicação que entra a UFU. "A partir do momento em que eu comecei a fazer pesquisa nós não ficamos calados, nós começamos a divulgar", recorda o professor Fernandes. "A primeira divulgação era através de publicações da própria UFU. A partir daí, fui convidado para fazer palestra no Brasil inteiro, do Ceará ao Rio Grande do Sul, falando do sorgo na nutrição de aves", explica.

Uma das interferências diretas que as pesquisas do Grupo Pró-Sorgo teve na agricultura nacional foi a produção de sorgo sem tanino, a substância que faz o animal refugar o alimento. Segundo o docente da UFU, o melhoramento genético foi feito por meio de seleção, e não modificação, ou seja, as variantes sem tanino foram selecionadas, cruzadas e deram origem às sementes comercializadas hoje.

Fernandes conta que aproveita o contato com os produtores rurais para levantar as dúvidas deles e levá-las para o laboratório, como a situação dos grãos que saem nas fezes de mamíferos, mas não nas de aves.

"Eu já fiz mais de 50 palestras no Brasil ao longo desses 20 anos. Só apresentei nossos trabalhos de pesquisa. Eu nunca apresentei trabalhos de fora. Por isso eu falo: a UFU é responsável por isso, porque nós desenvolvemos pesquisa atendendo a todas as preocupações, a todas as arguições dos produtores e, do outro lado, como a gente foi pesquisando isso, nós fomos levando aos produtores o que era o resultado", afirma o pesquisador.

Além da parceria com a Embrapa, a pesquisa da UFU recebe doações de grãos de sorgo de empresas privadas produtoras de sementes. Há também os recursos arrecadados com a comercialização de animais e ovos, que vão para uma conta da Fundação de Desenvolvimento Agropecuário (Fundap) e são reinvestidos em materiais e equipamentos utilizados nos experimentos. Estudantes de pós-graduação da Famev que atuam no estudo também recebem bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ou da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

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