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29/10/2019 - 18:04 - Atualizado em 01/11/2019 - 15:38
UFU pesquisa novos medicamentos contra câncer de mama e de próstata
Nesta entrevista a docente do Instituto de Biotecnologia (Campus Patos de Minas), Thaise Araújo, revela detalhes dos estudos
por Autor: 
Marco Cavalcanti

Em 2015 Thaise recebeu o Prêmio Octavio Frias de Oliveira, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (foto: arquivo pessoal)

 

Aos nove anos de idade ela já sabia o que queria ser - e fazer - quando crescesse. Iria ser cientista e descobrir a cura do câncer. Thaise Gonçalves de Araújo graduou-se e fez pós-graduação na UFU. Atualmente, é professora do curso de Biotecnologia, no Campus Patos de Minas. Em suas pesquisas, trabalha no desenvolvimento de novos medicamentos contra os cânceres de mama e de próstata - os mais comuns em homens e mulheres, depois do câncer de pele não melanoma. 

Em 2015 recebeu, na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia, o Prêmio Octavio Frias de Oliveira, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo. A equipe da qual faz parte desenvolveu um anticorpo capaz de identificar uma proteína relacionada ao câncer de mama.

Nessa entrevista, a docente fala como andam três pesquisas que ela coordena e que buscam novos medicamentos contra o câncer: Uma poderá resultar em uma vacina para combater o câncer de mama mais agressivo. Os testes começarão a ser feitos em animais. Nas outras duas são estudados compostos metálicos e plantas do Cerrado e da Mata Atlântica para novos quimioterápicos. 

“Não se descobriu a cura definitiva, mas já se salvaram várias mulheres com os métodos terapêuticos que já foram desenvolvidos até hoje”, analisa a pesquisadora.

 

Vacina contra câncer de mama. O mundo todo deve estar atrás desta vacina. Como surgiu essa pesquisa na UFU?

Esse estudo surgiu a partir de um anterior referente à minha tese de doutorado orientada pelo professor Luiz Ricardo Goulart Filho. Construímos um anticorpo por engenharia genética capaz de reconhecer proteínas associadas ao câncer de mama. Conseguimos demonstrar o papel desse anticorpo em pacientes com câncer de mama triplo-negativo. Contudo, nos perguntamos: qual o alvo desse anticorpo? Onde estaria se ligando? Então conseguirmos identificar os peptídeos que se ligam a esse anticorpo e desenvolvemos uma estratégia vacinal. Vamos imunizar camundongos com os peptídeos e avaliar se os animais são capazes de desenvolver um mecanismo de defesa contra o câncer de mama. Como os camundongos serão expostos ao antígeno tumoral, o sistema imunológico será sensibilizado e, portanto, impedirá o desenvolvimento do tumor.

 

Peptídeos???

É uma pequena porção da proteína; pequenas sequências de aminoácidos que, apesar de pequenas, são capazes de ativar o sistema imunológico. Esses peptídeos já foram sintetizados para começarmos os testes em animais.

 

Para uma pessoa leiga, o que isso quer dizer?

Que temos uma estratégia para combater o câncer de mama. O anticorpo nos direcionou a proteínas chaves e, sabendo que essas proteínas estão alteradas no câncer de mama, podemos impedir que o tumor se desenvolva por meio de vacina. É isso que iremos avaliar nos camundongos a partir de agora. 

 

Isso quer dizer que no futuro uma mulher poderá tomar uma vacina e não ter câncer de mama?

Ao provarmos que nossos peptídeos ativam o sistema imunológico e impedem o desenvolvimento do tumor sem efeitos colaterais teremos indícios científicos que poderemos, de fato, prevenir o desenvolvimento de tumores de mama mais agressivos. Não significa que irá ser efetivo a todos os subtipos de câncer de mama, mas ofereceremos uma ferramenta personalizada para o tratamento do câncer de mama.  

 

É a primeira vez na UFU que se estuda uma vacina para câncer de mama?

O laboratório do professor Luiz Ricardo Goulart Filho já desenvolve esse tipo de pesquisa voltada para diferentes doenças. Contudo, é a primeira vez que trabalhamos nesse tipo de construção. Esses peptídeos são inéditos e a patente já foi depositada no INPI [Instituto Nacional de Propriedade Industrial] pela Agência Intelecto [órgão da UFU responsável pela proteção das tecnologias criadas na instituição].

 

Daqui a quanto tempo poderá estar disponível para a população?

Há um longo caminho pela frente pois temos que provar sua eficácia e segurança às pacientes. Os peptídeos existem e começarão a ser testados em animais. Esperamos impedir o desenvolvimento de tumores de mama mais agressivos.

 

Qual é a porcentagem de casos de tumores mais agressivos?

Tumores triplo-negativos contabilizam cerca de 15% dos casos dos cânceres de mama. São tumores agressivos e que precisam ser amplamente estudados e vêm ganhando uma atenção especial dos pesquisadores. A UFU, portanto, está inserida nessa luta e conseguiremos oferecer alternativas de tratamento para essas pacientes.

 

Em outra pesquisa, em parceria com o Instituto de Química, são utilizados compostos metálicos, não é?

O Instituto de Química desenvolve compostos metálicos inéditos como novos possíveis quimioterápicos. Nós testamos quanto à sua eficácia no tratamento dos cânceres de mama e de próstata.

 

Esse tratamento é para qual tipo de câncer de mama?

Avaliamos sua eficácia nos subtipos de câncer de mama já descritos. Em um primeiro momento testamos em modelos celulares estabelecidos em laboratório. Posteriormente testamos em animais. Procuramos compostos eficazes e menos tóxicos. Hoje já temos dois promissores para câncer de mama e de próstata. Os experimentos estão em andamento e estamos bem animados e envolvidos na comprovação dos benefícios dessas substâncias.

 

Esse vai ser utilizado para os medicamentos de quimioterapia. É um novo medicamento? Será utilizado combinando com outro?

Testamos isolados e combinados a outros medicamentos. Quando combinados conseguimos combater melhor os tumores, pois atingimos diferentes mecanismos que estão alterados no câncer. Bloquear diferentes mecanismos significa “atacá-lo por diferentes lados”. Então procuramos demonstrar qual a melhor combinação de medicamentos para tratar os cânceres de próstata e de mama.

 

Em outros países também é estudado isso?

Sim. Contudo, os medicamentos que utilizamos são inéditos e criados pelo professor Wendell, do Instituto de Química. Vários grupos de pesquisa procuram novos quimioterápicos, mas os que trabalhamos são desenvolvidos exclusivamente pela UFU.

 

E os produtos purificados de plantas? Eles são utilizados para quimioterapia?

Também, e essa área encontra-se em expansão. Desenvolvemos projetos em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora, com o professor Ademar Alves da Silva Filho, trabalhando com diferentes espécies vegetais. Os extratos são testados e seus constituintes purificados. Partimos de um extrato composto por diferentes substâncias e estudamos a principal, enquanto capaz de combater os cânceres de próstata e de mama.

 

O câncer é um inimigo que desafia os pesquisadores. O que ele tem que outras doenças não têm?

O câncer é uma doença complexa com diferentes características entre os pacientes. Cada paciente apresenta um perfil diferente de alterações celulares. Isso é desafiador. Buscamos entender essas alterações e desenvolver novos medicamentos destinados a grupos de pacientes com características comuns. A oncologia caminha a passos largos para a medicina personalizada, ou seja, uma medicina que conhece as alterações e oferece medicamentos mais específicos. Por isso a ciência básica é tão importante. Precisamos compreender os tumores para melhor combatê-los e melhor tratar os pacientes.

 

Esse desafio deve ser uma “diversão” para você, não?

Sou apaixonada pela pesquisa. Aos nove anos decidi pela ciência. O avanço da ciência é essencial para a solução dos problemas sociais. Optei pela pesquisa para ajudar no combate ao câncer. Não se descobriu a cura definitiva, mas já se salvaram várias mulheres com os métodos terapêuticos que foram desenvolvidos até hoje.

 

Para evitar o câncer, o que você falaria para as mulheres?

O auto-cuidado. Hábitos saudáveis, dieta equilibrada, prática de exercícios físicos, realizar o autoexame e a mamografia periodicamente. A mulher precisa estar atenta ao seu corpo, aos sintomas, ao seu bem-estar. Isso também vale para homens. No próximo mês se inicia a campanha do Novembro Azul, como um alerta para os homens também se cuidarem e ajudarem no controle e combate ao câncer de próstata.

 

As pesquisas citadas nessa entrevista são financiadas pela Fapemig, CNPq e Capes e realizadas em parceria com pesquisadores da UFU (Luiz Ricardo Goulart Filho, Yara Cristina de Paiva Maia, Wendell Guerra e Robson José de Oliveira Júnior) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (Ademar Alves da Silva Filho).

 

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