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19/11/2019 - 16:25 - Atualizado em 26/11/2019 - 19:40
Histórias de resistência: pesquisadores negros contam sua trajetória na ciência
Vencendo as dificuldades e o racismo, jovens cientistas conquistam seu espaço na vida acadêmica
por Autor: 
Lucas Ribeiro

O estudante Emerson Soares pretende seguir carreira acadêmica (Foto: Lucas Ribeiro)

 

Você já parou para observar quantos professores negros você tem? Quantos profissionais da saúde negros te atendem quando vai ao hospital? Essa reflexão é necessária para que a gente entenda a importância do mês da Consciência Negra e de falarmos de questões como racismo e políticas públicas voltadas à democratização do acesso às universidades e ao mercado de trabalho. Na ciência não é diferente. Ainda não ouvimos ou vemos o suficiente, mas muitas pesquisas são desenvolvidas por negros na universidade, como os exemplos que iremos apresentar.

Desde sua graduação, Régis Rodrigues Elísio, 24 anos, mestrando em História Social e coordenador de ações afirmativas do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade Federal de Uberlândia (Neab/UFU), tem trabalhado com a questão das cotas raciais. Esse tema sempre chamou atenção do pesquisador, pois houve uma grande mobilização por parte do Movimento Negro Brasileiro para que fossem implementadas tais ações nas políticas educacionais no ensino superior. No fim de 2018, ele defendeu sua monografia, intitulada “Políticas de Ações Afirmativas e os Estudantes Cotistas da Universidade Federal de Uberlândia”, em que apresenta o processo de institucionalização das cotas raciais na UFU, apontando também o uso inadequado dessas cotas por pessoas que não eram pretas, pardas ou indígenas.

“Tendo adquirido resultado satisfatório no meu trabalho de conclusão de curso, decidi dar continuidade a esta pesquisa, trabalhando com História Política. Atualmente, curso mestrado em História Social, vinculado à linha de Política e Imaginário, pelo Instituto de História da UFU”. O projeto desenvolvido por Elísio trata das cotas raciais, porém, desta vez, com foco no processo de heteroidentificação (análise dos traços físicos dos candidatos aos cursos de graduação) para uso das cotas raciais. É intitulado "Comissões de Heteroidentificação: discursos, práticas e perspectivas das políticas de ações afirmativas no Brasil". A previsão é que ele defenda sua dissertação  no início de 2021.

O pesquisador Régis Rodrigues Elísio apresentando a defesa de seu trabalho de conclusão de curso (Foto: Rubia Bernardes Nascimento)

Mesmo com um trabalho tão bem construído, o jovem ainda enfrenta desafios em seu caminho na ciência. “O desafio de ser um pesquisador negro é que a academia brasileira, no geral, não está acostumada a ver corpos negros ocupando espaço na pesquisa. Essa situação reflete na dificuldade que, geralmente, as pessoas têm em “acreditar” que eu faço mestrado na UFU. É comum eu ser parado por conhecidos nos corredores da universidade e me perguntarem se eu ainda não formei. Quando eu respondo que além de ter formado eu ingressei no mestrado, as pessoas ficam impactadas. Além disso, quando eu falo que sou pesquisador-bolsista da Capes, o constrangimento é ainda maior. Pois, no imaginário brasileiro, é inconcebível que pessoas negras estejam em posições não-marginalizadas”, reflete. 

As dificuldades não são capazes de findar a paixão que ele sente pela pesquisa. “Por esse motivo, sigo feliz com os meus estudos, certo de que, de alguma forma, estou contribuindo com o trabalho dos/as negros/as que me antecederam”, afirma o mestrando, que também é membro da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN).

Sobre o interesse social de sua pesquisa, Elísio reforça: “O interesse social da minha pesquisa é evidenciar que a realidade enfrentada pela comunidade negra, em nossos dias, é o resultado de uma sociedade que ainda não superou seus preconceitos e não aprendeu a lidar com as diferenças. Apontando para os processos históricos, políticos e sociais que forjam esta conjuntura, acredito que com os estudos que eu tenho desenvolvido, seja possível implementarmos e aprimorarmos políticas para a população negra, tendo em vista a promoção da igualdade racial no país”.

O mestrando (à direita) com a banca avaliadora do seu trabalho de conclusão de curso (Foto: Rubia Bernardes Nascimento)

A maior inspiração do pesquisador é a família, que, segundo ele, mesmo diante das dificuldades, conseguiu formar um cidadão consciente de seus direitos e sua condição de negro no mundo e o motiva muito saber que ele é resultado das lutas políticas travadas pelo Movimento Negro Brasileiro e, agora, cabendo a ele deixar sua contribuição para que seus pares também possam alcançar os lugares que ele ocupa.

 

Inspiração para outras pesquisadoras

Letícia Freitas, 22 anos, pesquisadora e formanda do curso de Relações Internacionais, pesquisa sobre gênero e raça em um recorte de ambiente carcerário. Ela se viu motivada a pesquisar quando teve um olhar crítico sobre a situação carcerária brasileira e o silenciamento das organizações e instituições e pretende seguir carreira acadêmica em Relações Internacionais sempre com recorte de raça e gênero. Ela fala dos desafios e das conquistas que passou em sua trajetória com a ciência.

“A [maior] conquista é perceber que eu estou me tornando referência dentro do meu instituto para as alunas negras e ver os resultados se concretizando. O desafio é lidar com o racismo institucional e [a forma] como a pesquisa no Brasil está sendo levada”, afirma a pesquisadora, que percebeu a dificuldade que era pesquisar raça e África, sempre tendo um novo desafio.

Freitas conta que suas inspirações de vida foram sua avó, mãe e tias, e espera que sua pesquisa possa servir de referência para várias mulheres negras que entram nas universidades públicas deseja que elas tenham resiliência para enfrentar o racismo institucional. Freitas parafraseia Conceição Evaristo: “para que nós mulheres negras tenhamos escrivivência."

 

Letícia Freitas apresentando sua pesquisa em evento acadêmico (Foto: arquivo da pesquisadora)

 

Novas perspectivas

Emerson Soares, 19 anos, aluno do curso de Jornalismo da UFU, pretende se tornar um pesquisador em breve, instigado por seu gosto por estudar, especificamente, as Ciências Humanas. Ele conta que, com sua chegada à universidade e com as leituras exigidas nela, suas percepções de mundo foram afloradas.

“Por descobrir [por meio da universidade] novos universos que existem em consonância com o meu, muito pela leitura e pelo contato com intelectuais e novas pessoas, acredito que o principal estímulo que a pesquisa me daria seria esse: o de construir e promover conhecimento, e até mesmo de ver outros pontos de vista a partir daquilo que eu construí, ou que eu dei como normativo. Acho que a vontade de aprender, dialogar e trazer debates é o que mais me inspiraria nesse sentido”, diz o estudante.

Como inspiração, Soares cita nomes como Neusa de Souza, Djamila Ribeiro, Aza Njeri, Nataly Neri e Marielle Franco, além de outros. “Todas essas pessoas que constroem os nossos espaços e as nossas narrativas a partir de perspectivas racializadas, que também pautam as nossas dores, mas também as nossas complexidades e os nossos pensamentos e intelectos altamente construídos e tecidos.”

Quando entrou na universidade, ele afirma que olhava com mais vislumbre e romantismo para a carreira acadêmica e cogitava ser um intelectual. Hoje, ele ainda não tem certeza sobre qual caminho seguir. Mas uma coisa é certa: ele pensa em uma iniciação científica para começar de algum ponto sua trajetória como pesquisador.

 

Emerson Soares conta que, com sua chegada à universidade e com as leituras exigidas nela, suas percepções de mundo foram afloradas (Foto: Lucas Ribeiro)

 

Perguntado sobre os desafios que terá de enfrentar, ele mostra consciência sobre a batalha que virá. “Eu acho que pesquisadores negros, no geral, sempre abrem novos territórios de debate dentro da academia, uma vez que estamos inseridos em uma sociedade racista. Toda vez que um pesquisador negro se coloca no espaço da pesquisa, significa que mais dos nossos estão acessando conhecimentos, tendo o reconhecimento merecido, e reorganizando o espaço de alguma forma”, diz ele. 

“Acho que um dos principais desafios para pesquisadores negros está concentrado na sofisticação do racismo, quando dentro da academia, que, como muitos outros espaços, coloca as pessoas negras universitárias numa espécie de lugar de embranquecimento subjetivo”, completa.

Em relação a estar em uma universidade federal, ele afirma que nunca lidou com racismo institucional, mas que o ambiente acadêmico é um lugar difícil. “É um ambiente no qual eu preciso me revisitar, me reconstruir várias vezes, e onde estou constantemente duvidando do meu potencial.”

Em relação às mudanças do cenário acadêmico para pesquisadores negros, Soares percebe certo progresso, mas que ainda pode evoluir mais: “esse cenário da academia tem mudado e tem trazido novos pontos de vista sobre a realidade. Mas, uma vez inserida na sociedade racista, assim como outros espaços, a academia reflete um modus operandi racista. É um espaço que precisa ser disputado, desejado e almejado pela população preta, até porque ainda é, em termos sociais, um dos espaços mais importantes para a profissionalização e para a oportunidade de mobilidade social, mas com muita crítica e muito cuidado. E, de novo, a academia traz mudanças, mas ela não atua sozinha."

 
 

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