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02/05/2022 - 11:36 - Atualizado em 02/05/2022 - 12:40
A importância da saúde mental no combate à evasão universitária
Pesquisadora e assistente estudantil da UFU teoriza e aconselha alunos acerca das inseguranças sociais e psíquicas que podem levar à saída da graduação
Por: 
Gabriel Reis

“Não podemos olhar para essas saídas como se fossem apenas números e cifrões, afinal, como a própria LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) aponta, a Educação Superior tem oito finalidades, e somente uma delas trata-se da diplomação”, enfatiza a assistente estudantil (Foto: Unsplash)

 

Era março de 2020. Do dia para a noite, pessoas de várias partes do mundo foram separadas de forma, até então, não vista por algumas gerações anteriores. Máscaras passaram a cobrir os sorrisos largos e calorosos brasileiros, os encontros se cessaram ou foram transferidos para as salas virtuais e os abraços se tornaram expressivos somente através de emojis ou figurinhas de whatsapp.

No meio universitário não foi diferente, os prédios e ruas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que antes viviam repletos de jovens e sonhos, se tornaram cada vez mais vazios e a incerteza de um amanhã melhor tomou o seu lugar. Em meio à vida que não para e não dá trégua, a evasão universitária tornou-se uma realidade para muitos graduandos que, por diversos motivos, não retornarão à UFU após a pandemia.

Ao estudar o tema, Daniela Almeida, mestre em Psicologia e atualmente assistente estudantil pela UFU em Patos de Minas, evidencia a complexidade do assunto. Em sua dissertação de mestrado, apresentada em março de 2022 ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFU (PGPSI), Almeida pôde acompanhar 45 ex-discentes do campus e avaliar os motivos que os levaram a deixar a universidade.

Dentre as justificativas, coletadas através de um formulário online enviado, em 2020, aos alunos evadidos entre 2011 e 2019 – que somam 514 no Campus Patos de Minas – estão as dificuldades financeiras para se manterem, a incompatibilidade com o curso escolhido e os entraves em conciliar trabalho e estudo.

 

 

De acordo com Almeida, a evasão universitária é um fenômeno multicausal , ou seja, existe uma multiplicidade de fatores que podem estar relacionados com a saída do estudante do seu curso ou instituição. Muitos destes fatores se relacionam entre si e tornam a análise dos motivos da evasão ainda mais difícil. A psicóloga enfatiza que, diante das avaliações feitas no Campus Patos de Minas, apontar uma única causa como a mais impactante para a saúde mental da vida de um estudante seria um equívoco.

“Observo na minha atuação como psicóloga na Assistência Estudantil, um comportamento frequente de culpabilização por parte dos estudantes quando apresentam situações de dificuldades na sua trajetória acadêmica, como se fossem os únicos responsáveis pelo processo de ensino e aprendizagem", conta a pesquisadora.

Em virtude da democratização do acesso à universidade, gerada pelas políticas públicas implementadas no país – como a Lei de Cotas, de 2012 – inúmeras realidades socioeconômicas passaram a fazer parte dos ambientes universitários. Contudo, a permanência desses estudantes ainda mostra-se como um desafio. uma vez que são mais vulneráveis a possíveis fatores impulsionadores do processo de evasão, como não ter condições financeiras suficientes para continuar os estudos e nem de postergar a entrada no mercado de trabalho., ou por não corresponderem ao perfil de estudante esperado pela instituição de ensino superior, devido ao seu processo de escolarização prévio.

“O que fica evidente é que precisamos saber onde estão, por onde passaram, o porquê evadiram­-se e, sobretudo, quem são esses estudantes. Talvez desta forma consigamos combater os principais prejuízos dessas evasões: a interrupção do direito à educação superior”, explica Almeida.

 

Conselhos para quem fica

Em meio aos encontros e despedidas, as inseguranças acerca do retorno presencial marcam muitos estudantes que permanecerão na UFU. Além das questões sanitárias, os graduandos mostram-se duvidosos em relação a readaptação do ritmo proposto pelo retorno às salas de aula e às condições psíquicas prejudicadas durante o período pandêmico.

Ao serem questionados sobre as principais incertezas frente à volta do curso presencial, alunos da graduação da UFU ressaltam o medo de não conseguirem se manterem atentos como antes, possíveis dificuldades em conciliar trabalho e estudo, além das dúvidas daqueles que pensam em deixar a universidade.

Leia abaixo as questões levantadas pelos alunos:

 

“Tenho medo de não conseguir acompanhar as aulas porque os anos de ensino remoto prejudicaram o meu foco. Não consigo me manter atenta e me preocupo em não conseguir me recuperar. Como lidar com esse sentimento?” - Aluna do 4º período.

Almeida: Tenho observado esse sentimento “de não conseguir se recuperar” no relato de muitos estudantes, como se o que foi vivido durante a pandemia tivesse sido exclusivamente nossa responsabilidade, além de uma sensação de incapacidade e de pouca produtividade nesse período. Antes de mais nada, precisamos refletir sobre o contexto social que vivemos e as cobranças que são impostas pelos outros e por nós mesmos.

Há dois anos, a forma como organizamos a nossa rotina e a nossa vida mudou drasticamente. Muitas coisas não estavam mais sob nosso controle, tivemos que nos adaptar a uma forma de viver nunca antes vivida. Uma das áreas mais afetadas por essas mudanças, foi justamente o processo de ensino-aprendizagem.

Lembro que durante os primeiros atendimentos de plantão no Projeto Proteger-se [acolhimento e apoio em momentos de fragilidade], os estudantes relatavam o sofrimento e as dificuldades, principalmente com a atenção e a organização da rotina de estudos, afinal, todas as atividades eram realizadas dentro de casa. Fomos privados de nossa liberdade de ir e vir e ao mesmo tempo precisávamos lidar com a realidade que nos cercava. Não foi fácil.

Agora, temos a oportunidade de voltar. E essa volta, também pressupõe novas mudanças. Novamente, desenvolveremos nossa atenção e reorganizaremos nossa rotina, considerando esse novo contexto. O que não podemos é entender que o que vivemos na pandemia foi um tempo perdido, como se tivéssemos que ‘correr atrás de um prejuízo’. Tenho certeza de que cada um fez o que foi possível naquele momento para poder enfrentar a situação, e fará isso novamente agora. Caso no decorrer do caminho as dificuldades permaneçam, não hesite em procurar por ajuda.

 

“Como conciliar aulas, projetos de extensão e estágio de maneira saudável?”- Aluno do 6º período.

Almeida: Quanta coisa para se fazer dentro da universidade, não é? Será que é possível fazer isso tudo do jeito que nós imaginamos? Ou nós não estaríamos reproduzindo uma expectativa que nos é imposta socialmente?

Essas perguntas nos permitem refletir sobre os modos de viver na atualidade. Não há uma resposta que seja única para todos os estudantes que estão dentro da universidade. Isso porque a forma como cada um irá conciliar as atividades que compõem sua vida acadêmica irá depender diretamente das suas condições concretas de vida e das oportunidades que teve ao longo do seu processo de escolarização.

Essas diferenças ficam evidentes quando temos de um lado estudantes que têm a oportunidade de se dedicar aos estudos de maneira integral e, do outro lado, estudantes que precisam conciliar os estudos com outro trabalho remunerado, por exemplo. Ou seja, o lugar que esse jovem ocupa na sociedade deve ser considerado, pois os estudantes não são todos iguais e suas escolhas e seu desempenho acadêmico não dependem exclusivamente da sua vontade. Há outros fatores envolvidos.

Temos que ter consciência de qual é a parcela da minha responsabilidade e qual não é, para que todos possam compreender o que é de fato real e o que é idealizado e imposto a nós. Desta forma, devemos tentar fazer o que for possível, buscando equilibrar a vida acadêmica com a vida pessoal. Procurar manter uma rotina diversificada entre atividades de estudo e lazer, buscar participar e se integrar nos espaços da universidade e entender que, provavelmente, eu não consiga fazer tudo de uma única vez. Afinal, cada um tem prioridades e realidades diferentes. Se precisar em alguns momentos abrir mão de algo, está tudo bem. Quando for possível, você faz!

 

“Que conselho você daria para estudantes que ainda não se decidiram se irão sair ou permanecer em suas respectivas graduações?” - Aluno do 4º período.

Almeida: Não diria um conselho, mas uma reflexão sobre as características do processo de escolha de uma graduação na nossa sociedade. A decisão do curso que você optou em fazer, por exemplo, foi tomada exclusivamente por você? Se não foi, o que o levou a escolher essa profissão?  O seu status social, o interesse pela área, o retorno financeiro após a conclusão estão entre tantas razões que nos levam a decidir entre as inúmeras opções que chegam até nós.

Se você, estudante, tem dúvidas quanto às escolhas feitas até então, não se preocupe. Uma das mudanças mais importantes enfrentadas no nosso desenvolvimento refere­-se à etapa em que passamos do ensino médio para o ensino superior, que comumente acontece durante a adolescência, período de transição entre a infância e a idade adulta. Muitas decisões precisam ser tomadas em um curto espaço de tempo, e uma delas é a escolha da futura profissão.

Neste momento, mudar a escolha é algo compreensivo. Se você não está feliz com a decisão tomada até então, converse sobre isso e procure refletir sobre seus interesses e outras possibilidades. Vejo cada vez mais a necessidade de termos uma consciência crítica que consiga olhar para a realidade concreta que nos cerca e compreender seus impactos na nossa vida individual. Essa tomada de consciência pode auxiliar no enfrentamento das dificuldades e dos desafios que surgem durante nossa trajetória universitária.

 

“Muitos alunos, tanto da graduação quanto da pós, desenvolveram problemas em estar presentes em grandes grupos devido a pandemia. Como esses estudantes podem lidar com o retorno presencial e com as possíveis inseguranças geradas com esse período?” - Aluno do 4º período.

Almeida: Informação. Quanto mais informados estamos sobre determinado assunto, mais conseguimos entender e avaliar os impactos desse retorno na nossa vida. Quando tivemos que ficar em isolamento há dois anos, nós passamos por um processo de adaptação e aceitação, pois isso era o mais seguro naquele momento. As pesquisas e os dados de casos e mortes decorrentes da covid-19 nos mostraram isso. Agora, eles também nos mostram que o cenário está diferente, já temos a proteção da vacina e temos uma série de cuidados que podemos manter mesmo com o retorno.

Cito aqui o uso da máscara, o hábito de lavar frequentemente as mãos, de usar álcool em geral e de evitar lugares com muita aglomeração caso ainda se sintam inseguros, por exemplo. A ideia é caminharmos aos poucos, até que tenhamos segurança suficiente para ficarmos tranquilos. Não vamos pular o processo, cada etapa de uma vez, vivendo e experimentando, sem tantas cobranças e fazendo o que for possível naquele momento.

 

 

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