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09/08/2022 - 14:09 - Atualizado em 11/08/2022 - 09:50
Tudo que você precisa saber sobre a varíola dos macacos
Doença causada pelo vírus monkeypox soma mais de mil casos no Brasil e um confirmado em Uberlândia
Por: 
Gabriel Reis

A partir do dia 28 de julho, o Ministério da Saúde(MS) passou a tratar a doença como surto – primeiro estágio que pode evoluir para epidemia, endemia e pandemia. (Foto: Freepik)

 

Em abril de 1971, um burbúrio corria pelas ruas e vielas do bairro da Penha, localizado na zona norte do Rio de Janeiro. Eles estavam lá, em meio aos moradores da Vila Cruzeiro [que compõem o Complexo da Penha], os últimos dezenove pacientes acometidos pela varíola no Brasil. Amedrontados pela doença “invisível” que se alastrava pelo corpo em forma de bolhas e feridas, a salvação veio em pequenas cápsulas adquiridas pelas políticas públicas de saúde e vacinação instauradas naquele momento.Se hoje existem regras para pontos de vacinação, naquela época, tomar a vacina podia se tornar um verdadeiro evento. Festas populares, feiras, encontros religiosos e até paradas de ônibus passavam a ser locais de conscientização e vacinação. O fato, citado por Gilberto Hochman, pesquisador pela Fiocruz, na revista "Ciência e Saúde" em 2011, foi o que tornou possível a erradicação da doença não somente no Rio de Janeiro mas em todo o Brasil.

Talvez hoje, diante das criptomoedas, metaverso, vídeos no tiktok e a temida pandemia de covid-19, falar de varíola pudesse parecer um tanto “cringe” [termo usado por jovens que remete a algo fora de moda]. Por outro lado, a varíola dos macacos, que já soma mais de mil casos no Brasil, não é a mesma doença que acometeu os moradores da Vila Cruzeiro até 1971.

Descoberta em 1970 por meio do isolamento do vírus em primatas, a varíola dos macacos não se restringe a estes animais, sendo encontrada principalmente em roedores e transmitida aos seres humanos pelo contato direto.

Caracterizada por sintomas como febre, mal-estar, dor no corpo e dor de cabeça, a varíola que assusta a população mundial em 2022 se assemelha a diversos outros quadros clínicos até o quinto dia, quando surgem lesões em diversas regiões do corpo, principalmente nas genitálias.

 

Varíola Humana x Varíola dos Macacos

Nível de infectividade. Essa é a principal diferença entre os dois tipos da doença e que não pode ser tratado apenas como um burbúrio. De acordo com a infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC/UFU-Ebserh), Francielly Gastaldi, a varíola humana possui um grau de infectividade maior que a varíola dos macacos, sendo mais transmissível e provocando sintomas mais graves.

Já a varíola dos macacos é mais branda, não apresentando um nível de mortalidade significativo até mesmo em pacientes não imunizados. Formado por um DNA de dupla fita, o monkeypox apresenta baixa capacidade de mutação e, por isso, pode ser mais facilmente controlado.

Dito isso, estaríamos livres de uma pandemia de varíola como a que ocorreu em 1970?

 

Pandemia à vista?

A partir do dia 28 de julho, o Ministério da Saúde (MS) passou a tratar a varíola dos macacos como surto – primeiro estágio que pode evoluir para epidemia, endemia e pandemia.

O surto de uma doença é caracterizado pelo aumento repentino de casos de uma enfermidade que, até então, não se tinha contato e, geralmente, se refere a uma cadeia de transmissão. Quando essa ocorrência é prolongada durante todo o ano e por vários anos, tem-se uma endemia. Em casos em que a expoente do número de diagnósticos acontece em períodos específicos, como ocorre com a dengue em épocas de chuva, podemos dizer que está ocorrendo uma epidemia.

A pandemia, como a população mundial vivenciou nos últimos anos, acontece quando há um aumento exacerbado de determinada doença em uma escala global. Contudo, mesmo que todo surto possa se tornar uma pandemia, caso não seja controlado, Gastaldi afirma que podemos respirar mais tranquilos em relação à varíola dos macacos.

“Por mais que os casos estejam ocorrendo em 80 países, o vírus não tem sido encontrado em todas as idades e em todos os grupos, sendo possível traçar uma cascata de transmissão e o seu controle”, explica.

 

E as máscaras?

Tendo se tornado um item essencial na vida das pessoas com a pandemia de covid-19, as máscaras de proteção também são úteis quando se trata da prevenção da varíola dos macacos. Ao analisar o vírus monkeypox e a doença causada por ele, é possível perceber que sua principal forma de transmissão é através das secreções de pacientes contaminados.

Devido à fragilidade das vesículas que se formam pelo corpo, elas se rompem e eliminam seus fluidos no ambiente, podendo entrar em contato com outros indivíduos de diversas formas, dentre eles por aerossóis emitidos pelas feridas no ato do rompimento. Uma vez que essas partículas ficam no ar, as máscaras tornam-se importantes bloqueadores da cascata de transmissão.

“Existem relatos de que, quando as cascas dessas feridas secam e caem em superfícies como na cama, e, por algum motivo, elas são lançadas ao ar, também podemos acabar nos contaminando com os aerossóis emitidos por elas”, conta a infectologista.

Contudo, mesmo a via respiratória sendo essencial para a disseminação da varíola dos macacos, ela não é a principal. Dentre os cuidados mais importantes, estão a lavagem de mãos e superfícies de forma adequada e prevenção de contato entre as pessoas.

Abaixo, a infectologista Francielly Gastaldi recomenda um modelo para higienização das mãos.

 

(Imagem fornecida pela entrevistada)

 

Sexualmente transmissível

Ao contrário do que se pode pensar, a varíola não é uma doença sexualmente transmissível, mas pode ser passada durante as relações sexuais devido ao contato entre os indivíduos.

Marcada pelo estigma histórico acarretado pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), a comunidade gay também tem recebido ataques em relação à varíola dos macacos. Devido a um levantamento fornecido pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), que consta que 98% dos casos diagnosticados do vírus monkeypox foram em homens que possuem relação sexual com outros homens, surgiu um boato de que a varíola dos macacos seria uma doença homossexual.

Por outro lado, Gastaldi afirma que esse é um posicionamento infundado, uma vez que qualquer indivíduo pode pegar a varíola ao ter contato com alguém infectado. “Essa porcentagem se justifica devido ao fato de que grande parte das campanhas de saúde são destinadas a essa comunidade; assim, eles acabam procurando mais os serviços de saúde e podem ser diagnosticados”, explica a infectologista.

A recomendação é que todos se atentem aos sintomas da varíola dos macacos e tomem os devidos cuidados durante as relações interpessoais. Em casos de suspeita da doença, o ideal é procurar atendimento médico para que haja o diagnóstico.

“É importante que, após os cinco primeiros dias de sintomas, caso haja o surgimento de qualquer marca ou ferida, seja feita a avaliação médica. Existem inúmeras doenças de pele que podem causar erupções na pele, o que torna o diagnóstico ainda mais difícil”, conta Gastaldi.

Após o diagnóstico da varíola dos macacos, são aplicadas as medidas de tratamento de sintomas e cuidados em relação ao paciente, além das pessoas que tiveram contato com ele e podem ter adquirido o vírus.

 

Primeira morte no Brasil

No dia 29 de julho deste ano, o Ministério da Saúde confirmou a primeira morte por varíola dos macacos no Brasil. A vítima foi um homem de 41 anos que estava internado no Hospital Eduardo de Menezes, em Belo Horizonte (MG). De acordo com os dados fornecidos, o paciente tinha câncer e fazia quimioterapia. Além do tratamento, segundo o MS, ele sofria de um caso grave de imunossupressão.

Ao analisar o caso clínico, Gastaldi explica que, por estar em quimioterapia, qualquer infecção poderia agir mais gravemente, uma vez que o organismo do paciente não conseguiria reagir tão potencialmente contra o antígeno. Portanto, pode-se dizer que o óbito está mais relacionado à condição que o indivíduo se encontrava do que a mortalidade inata ao monkeypox.

“Em situações como essa, o paciente já vem lidando com diversos outros problemas e a varíola chega como mais um agravante que pode levá-lo à óbito”, ressalta.

 

Vacinação

Como forma de barrar a doença que assusta a população e cresce em número de casos no país, o Ministério da Saúde demonstrou interesse na compra de 50 mil doses da vacina contra a varíola dos macacos. Contudo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda, neste momento, a vacinação em massa, e sim o direcionamento desta às pessoas expostas ao vírus ou com maior risco de infecção.

A infectologista do Hospital das Clínicas explica que, ao contrário do que acontece em casos como a pandemia de coronavírus, que acomete as pessoas independentemente de grupo de risco ou idade, a varíola dos macacos exige ações mais direcionadas.

“Uma vez que eu tenho um vírus que possui somente uma cepa e a mortalidade não é alta, não há necessidade de propor uma vacinação em massa sem avaliar a peculiaridade dessas pessoas”, conta.

Gastaldi ainda esclarece que, pela vacina contra o monkeypox ser composta pelo vírus vivo atenuado, ela não é indicada para todas as populações, uma vez que, em alguns casos, elas podem gerar complicações – como aconteceria com pacientes imunossuprimidos.

 

Varíola dos macacos em Uberlândia

Em Uberlândia, até o momento, houve 10 casos suspeitos de varíola dos macacos, cinco negativados e um confirmado na última sexta-feira (5), pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG). Independentemente do número de suspeitos, a recomendação é que as investigações e  os cuidados continuem.

Para Gastaldi, o principal ponto de atenção não somente em relação ao monkeypox está relacionado à lavagem de mãos.“A conscientização acerca da higiene de mãos e da necessidade do isolamento em casos de suspeita de qualquer doença transmissível são questões que não vão mais sair de moda”, frisa.

Além disso, a comunidade médica recomenda que todo o conhecimento e hábitos de cuidados adquiridos nos últimos dois anos não sejam perdidos, mas sim adequados para combater possíveis doenças que venham a surgir ou que, como ocorreu com a varíola, voltem a causar burbúrios pelas ruas do Brasil.

 

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