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27/10/2022 - 16:43 - Atualizado em 04/11/2022 - 08:33
Entre a verdade e a mentira: meningite
De uma epidemia secreta a um surto na atualidade, a meningite levanta dilemas e provoca preocupações
Por: 
Gabriel Reis

Meningites atingem principalmente crianças menores de 5 anos e idosos acima de 60 anos. (Foto: Unsplash)

 

É mentira que a boneca está rachada? Ou são apenas detalhes de uma breve vida ou uma possível morte. Será que é mentira também que por volta de 1970 uma epidemia secreta aconteceu, quando homens de uniformes esverdeados e palavras autoritárias tomaram a terra de bons ares em mãos de chumbo?

 

Foto: Unsplash

 

É mentira que muitas outras bonecas e alguns fantoches – quando as fissuras já não eram imperceptíveis – foram colocados no fundo da estante? É mentira que jornais foram censurados? pesquisas ignoradas e dados científicos alterados? É tudo verdade ou mentira?

Só não é mentira que, uma verdade quando oculta, deixa de ser questionada e com o tempo passa a ser como se ela nunca tivesse existido.

A tática da invisibilidade é bastante usada em governos ditatoriais e foi ela que encobriu a epidemia de meningite que surgiu em São Paulo e, mais tarde, se espalhou para diversas partes do Brasil durante a gestão de Emílio Garrastazu Médici, no período da Ditadura Militar nos anos 1970.

Naquele tempo, as pessoas tinham suas vidas ceifadas por uma doença inominável e pobre em estatísticas, como sugere o professor em educação histórica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Daniel Medeiros.

Para ele, o que foi impossível enterrar junto das vítimas é o fato de que muitos dos cadáveres dos pacientes com meningite da época tenham sido lançados em valas clandestinas, como forma de burlar as notificações oficiais de óbitos.

Em meio à epidemia secreta, em Jaú (SP), a quase 300 quilômetros de São Paulo, uma das vítimas saiu para pescar. Ruy Barbosa, ao contrário do famoso diplomata brasileiro, mais tarde faleceria aos 40 anos, e talvez não imaginasse que entre uma isca e outra, a presa da dor de cabeça – ainda sem nome – seria ele mesmo.

O que havia em meio aos anzóis e varas de bambu e que marcou a última pescaria de Barbosa era uma doença de transmissão interpessoal, que acontece através das vias respiratórias, por gotículas e secreções do nariz e da garganta, ou pela ingestão de água e alimentos contaminados e contato com fezes: a meningite.

Conhecida por atingir principalmente crianças menores de cinco anos e idosos acima de 60 anos – devido à maior fragilidade de seu sistema imunológico – a doença tirou o homem da gráfica onde trabalhava, do conforto de sua casa e de seu ponto de pesca, levando-o à internação na Santa Casa de Jaú.

Depois de exames imprecisos e resultados que nunca chegavam, a resposta para Ruy Barbosa atravessou o Oceano Atlântico Norte com um médico vindo da Alemanha. Através do exame de líquor, bastante usado para diagnosticar doenças neurológicas e que é efeito através da coleta do líquido (líquor) produzido nas cavidades no interior do cérebro, foi possível chegar ao fim da charada que atormentava a família.

Cíntia Franco, filha de Ruy Barbosa e que na época tinha apenas sete anos de idade, conta que, desde o diagnóstico até a morte do pai, pouco tempo se passou. A partir dali algumas transformações passaram a acontecer em relação à meningite e a epidemia secreta, que sempre foi uma venda translúcida, começou a cair.

A menina viu políticas públicas de distanciamento social serem implementadas, escolas serem fechadas, aulas suspensas e hospitais de campanha sendo instalados em algumas localidades [isso te lembra alguma coisa?]. Depois disso, o resto é história, uma história conturbada e que retornaria à tona nos dias de hoje, em 2022.

 

A volta dos que não foram

É março de 2020 e boatos sobre um novo vírus com sintomas e cura desconhecidos preocupam os brasileiros. Escolas e universidades têm suas aulas suspensas por o que todos pensavam serem apenas quinze dias, mas, logo, em meio às máscaras e álcoois-géis, dois anos se passaram.

Nesse entremeio, as fake news, que já se popularizavam desde 2018, reforçaram um caráter de descrença em relação à vacinação e que, segundo a infectologista Francielly Gastaldi, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC/UFU), propiciou que doenças já controladas ressurgissem no Brasil.

Ao contrário de Franco, que desde cedo se conscientizou acerca da importância de vacinar seus filhos, inúmeras famílias pararam de fazer o mesmo por medo de que as vacinas modificassem o seu DNA, implantassem chips líquidos de controle populacional ou transmitissem HIV – sendo essas algumas das desinformações que mais se popularizaram na época.

Além da meningite, que logo nos primeiros seis meses de 2022 já ultrapassou o total de casos em 2021, doenças como a poliomielite – que já havia sido extinta e apresentou uma cobertura vacinal menor que 40% neste ano – começaram a reaparecer entre a população.

“Nos últimos dois e três anos observamos uma das menores aderências ao protocolo vacinal já visto no país. A vacinação é uma medida de saúde pública fundada em estudos e que, mesmo que em alguns casos acarrete sintomas como uma dor local, os efeitos de não tomá-la são muito mais prejudiciais”, comenta Gastaldi.

 

Fonte: saude.mg.gov.br

 

Espelho, espelho meu…

A meningite é assim: não tem cor, não tem cheiro e silenciosamente pode invadir o seu cérebro. Ela é silenciosa, pode agir do dia para a noite, ou em alguns dias, e quer tomar o maior número de vítimas possível.

Um dos órgãos mais nobres do corpo humano, o cérebro é revestido por camadas de proteção, as meninges. Quando esses tecidos de revestimento ficam inflamados por uma causa bacteriana ou viral, há o que se chama de meningite.

O perigo está no fato de que, por estarem muito próximos do cérebro, esses vírus e bactérias podem chegar até o órgão de controle e levar ao óbito.

Quando causada por um vírus, gera febre, dor de cabeça, rigidez da nuca, falta de apetite e irritação.

Já os casos de meningites bacterianas são mais graves e em pouco tempo os sintomas aparecem: febre alta, mal-estar, vômitos, dor forte de cabeça e no pescoço, dificuldade para encostar o queixo no peito e, às vezes, manchas vermelhas espalhadas pelo corpo.

No caso de Ruy Barbosa, o que o acometia era a meningoencefalite. A doença, marcada pelo acarretamento da meningite associada à encefalite e principalmente de causa viral, tem um desenvolvimento mais arrastado, envolto por um véu de confusão e que se agrava com o tempo.

“Ainda hoje a maior parte das meningoencefalites de causas virais são autolimitadas, ou seja, não há medicação específica para tratá-las e são administradas para combater os sintomas conforme eles vão surgindo. Por isso, a importância da prevenção adequada”, explica a infectologista.

 

Fonte: saude.mg.gov.br

 

 

Para tantos outros Ruy Barbosa

O recado da infectologista Gastaldi é um só: busque se informar.

Historicamente marcado por ser um país referência em campanhas de vacinação, o Ministério da Saúde(MS) brasileiro, disponibiliza no site da Sociedade Brasileira de Imunizações(SBIm) inúmeros documentos que orientam a população sobre a importância da vacinação, possíveis efeitos colaterais, orientações gerais e específicas para os mais diversos públicos e esclarecimento de dúvidas.

“É importante entender sobre a doença que você está sendo imunizado e como é a ação daquela vacina. Afinal, conhecimento é poder e quando a população entender todas essas questões, terá maior segurança em ir ao posto de saúde se vacinar”, esclarece Gastaldi.

A boneca está rachada. Por volta de 1970 uma epidemia secreta aconteceu, quando homens de uniformes esverdeados e palavras autoritárias tomaram a terra de bons ares em mãos de chumbo.

Muitas outras bonecas e alguns fantoches – quando as fissuras já não eram imperceptíveis – foram colocados no fundo da estante. Jornais foram censurados, pesquisas ignoradas e dados científicos alterados. É tudo verdade.

 

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