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10/11/2022 - 18:09 - Atualizado em 16/11/2022 - 18:49
Livro discute o processo de patologização na educação escolar
Obra que tem professora do Instituto de Psicologia da UFU entre as organizadoras é finalista de premiação nacional
Por: 
Laura Justino

Livro reúne pesquisas das autoras em 382 páginas. (Diagramação e arte: Marcos Kazuyoshi Sassaka / Foto: Yuji Kodato)

A patologia é a área da medicina que tem o objetivo de diagnosticar as doenças a partir do estudo dos órgãos, tecidos e fluidos dos seres vivos. Derivado da palavra “patologia”, o termo “patologização” consiste no processo em que alguns comportamentos humanos passaram a ser considerados como sintomas de transtorno mental.

A professora Silvia Maria Cintra da Silva, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (IP/UFU), em parceria com as professoras Nilva Sanches Tessaro Leonardo e Záira Fátima de Rezende Gonzalez Leal, do curso de Psicologia da Universidade Federal de Maringá (UEM), publicaram um livro que reúne as pesquisas das autoras e amplia a discussão sobre patologização no âmbito escolar.

“O ponto principal é que no processo de patologização se culpa a criança por questões pedagógicas, sociais, políticas, entre outras, olhando apenas para o biológico. E isso limita a compreensão e não ajuda a criança e nem a escola”, defende a docente da UFU.

Silva explica que, quando uma criança não consegue prestar atenção à aula, ela é diagnosticada com um distúrbio, como o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), por exemplo. E isso pode ser citado como um caso de patologização da educação.

De acordo com as autoras do livro, a sociedade precisa entender que a atenção é uma função psicológica que a criança não nasce pronta e precisa ser direcionada por adultos, tanto na família como na escola. Com a ajuda necessária, a pessoa pode conseguir direcionar a sua atenção para alguma determinada atividade.

O livro, publicado em 2021, é finalista da premiação organizada pela Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Prêmio Abeu 2022), na categoria “Ciências Humanas”.

Confira a entrevista com a professora Silvia Maria Cintra da Silva.

 

O que é patologização? 

A patologização é a utilização recorrente de explicações de caráter biológico para descrever e analisar fenômenos que dizem respeito a aspectos sociais, políticos, históricos e econômicos. No caso do presente livro, focamos no processo de patologização da educação em seus diferentes níveis de ensino.

 

E por que está escrito (des)patologização no título do livro?

No título está (des)patologização porque o livro faz a crítica a esse movimento, buscando deslocar a chave de compreensão pautada apenas e equivocadamente no indivíduo. O livro faz a crítica à patologização ao procurar mudar os modos de compreensão desse fenômeno voltados de modo equivocado e simplista somente ao indivíduo, para um entendimento mais ampliado, que considere questões culturais, sociais, políticas, econômicas, entre outras.

 

Você disse sobre a crítica a certo movimento. Qual movimento? Qual pensamento vocês defendem no livro?

Temos vivido um movimento de medicalização e de patologização da vida, da educação e da sociedade. Isso significa que problemas sociais, históricos, políticos, econômicos e culturais são abordados dos pontos de vista biológico e médico e, inclusive, tratados com o uso de medicamentos. Veja que não estou falando de doenças que, quando existem, precisam receber o devido tratamento por meio de remédios. No caso da educação, como o livro aborda, esse movimento reduz a compreensão sobre o processo de ensino-aprendizagem, a complexa rede de relações entre todos os segmentos que compõem o cotidiano escolar (alunas/os, familiares, professoras/as, gestoras/es, demais funcionárias/os e o entorno da escola) e, ainda, desconsidera a formação docente, as difíceis condições do trabalho de professoras e professores, as políticas públicas e questões didáticas e pedagógicas, por exemplo.

Essa discussão vem de longa data; em 2010 foi criado o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, apoiado por várias entidades da Psicologia brasileira, além de outros coletivos e pessoas, com o objetivo de enfrentar e superar esse fenômeno, buscando mobilizar a sociedade para a crítica ao processo de medicalização de comportamentos e da aprendizagem no contexto escolar. O “Despatologiza – Movimento pela Despatologização da Vida” é outro grupo que também se mobiliza nesse sentido.

 

Como o livro pode contribuir para a comunidade escolar e acadêmica e para a sociedade?

As pesquisas e estudos apresentados no livro fundamentam-se na Psicologia Histórico-Cultural, uma teoria que compreende o desenvolvimento do ser humano a partir de suas condições materiais, isto é, condições relativas à educação, saúde, moradia, lazer e cultura. Crianças e adolescentes não podem e nem devem ser consideradas/os a de modo isolado dessas condições. Baseado nesse entendimento mais aprofundado sobre o processo de escolarização, o livro chama a atenção para o movimento de transformar em doenças comportamentos que não se encaixam em padrões escolares, de classificar como doentes crianças e adolescentes que se manifestam e aprendem de modos e em tempos diferentes daqueles que geralmente as escolas – e famílias – esperam. Sua contribuição é justamente discutir esse processo de patologização do cotidiano escolar por meio de um referencial teórico aprofundado e crítico, para que todas as alunas e alunos possam aprender e se desenvolver por meio de uma educação de qualidade que também envolve professoras, professores e a comunidade escolar como um todo.

 

Como a Psicologia Histórico-Cultural pode contribuir para a pesquisa?

Os fundamentos teóricos da Psicologia Histórico-Cultural contribuem para o enfrentamento e a superação do discurso hegemônico, isto é, aquele que se pauta, de forma reducionista, em teorias biologizantes e patologizantes do desenvolvimento humano, centradas no indivíduo e que busca as justificativas e as causas para os problemas no processo de escolarização no/a aluno/a, em sua família ou no/a professor/a.

Esse referencial teórico nos ensina a não dissociar mente/corpo, indivíduo/sociedade. Assim, o desenvolvimento humano é compreendido a partir de suas condições materiais e em sua complexidade, apreendendo as dimensões sociais e históricas envolvidas no citado processo de patologização da educação.

 

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