Publicado em 24/02/2025 às 12:39 - Atualizado em 28/02/2025 às 12:23
O Relatório Mundial sobre Drogas 2024, realizado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), identificou que mais de 292 milhões de pessoas usaram drogas em 2022, um aumento de 20% em relação à década anterior. Diante do agravamento desse problema mundial, uma equipe de cientistas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em parceria com a Polícia Federal (PF), desenvolveu uma tecnologia inédita para detectar o uso de crack por meio da saliva com uma luz infravermelha. O novo método dispensa o uso de exames invasivos e prejudiciais ao meio ambiente.
Segundo o docente e coordenador do Grupo de Inovação em Diagnóstico Salivar e Nanobiotecnologia da UFU (Salivanano/UFU), Robinson Sabino-Silva, é a primeira vez que a saliva é utilizada para detectar o crack por uma plataforma portátil baseada na luz infravermelha (ATR-FTIR) associada a algoritmos de inteligência artificial (IA). “Nós colocamos uma gota com dois microlitros de saliva e depois foi aplicado um laser infravermelho, sem colocar nenhum reagente na amostra”, explica o pesquisador.
A saliva é analisada em uma tecnologia biofotônica por ATR-FTIR, uma técnica que analisa a composição molecular das amostras de maneira não destrutiva e com alta sensibilidade. Os testes realizados pelos pesquisadores mostram que o método pode identificar a exposição ao crack com 90% de precisão, sendo que um dos algoritmos de IA alcançou 100% de sensibilidade. De acordo com o docente, incluir a inteligência artificial nas análises é de grande importância, uma vez que ela auxilia tanto na identificação da droga quanto na agilidade no diagnóstico para a população.
Desde o início da pesquisa, a parceria entre a UFU, a UFAL e a PF foi fundamental para o estudo. “Nós conseguimos fazer uma parceria – junto com o professor Olagide [Castro], que é colaborador deste trabalho – com a Polícia Federal. Eles nos cediam amostras de crack, que ficavam no laboratório”, conta Sabino-Silva. Com um sistema desenvolvido por Olagide Castro, docente na UFAL, os animais utilizados na pesquisa eram expostos à fumaça da substância e, posteriormente, a saliva era coletada.
As amostras eram transportadas até Uberlândia para análise no equipamento ATR-FTIR através de uma luz infravermelha, uma tecnologia sustentável e inovadora. “Outra coisa que evoluiu foi a inclusão de algoritmos de inteligência artificial, pois eles conseguem diferenciar o espectro da saliva exposta ao crack”, descreve o professor da UFU. Esse processo aumenta a capacidade de identificar se há ou não substâncias ilícitas.
Atualmente, as análises toxicológicas do crack são realizadas em laboratórios especializados em técnicas para a identificação de drogas com um tempo determinado para liberar os resultados. A portabilidade e a alta sensibilidade do equipamento FTIR “é o principal avanço nessa área, porque os desenvolvimentos das técnicas tendem para uso na clínica médica e para auxiliar na atividade da polícia”, destaca o coordenador Salivanano/UFU.
A nova plataforma portátil com inteligência artificial, desenvolvida pela UFU e UFAL, representa um avanço responsável e atento à preservação ambiental. Enquanto os métodos convencionais de detecção de drogas utilizam reagentes químicos tóxicos e de alto custo que podem contaminar o meio ambiente, a tecnologia desenvolvida pelos pesquisadores das duas universidades usa apenas luz infravermelha para analisar as alterações químicas na saliva, garantindo um exame rápido, seguro e sem impactos ambientais.
Além de eficiente, a tecnologia também é acessível e sustentável. Após a validação dos métodos em humanos, o novo teste poderá ser aplicado diretamente em clínicas, hospitais, centros de reabilitação e investigações policiais sem a necessidade de grandes laboratórios ou equipamentos complexos. “O objetivo é desenvolver uma técnica mais sustentável com uma tecnologia brasileira”, afirma Robinson Sabino-Silva.
Durante o estudo, os pesquisadores receberam apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapemig). A pesquisa foi publicada na revista científica "Spectrochimica Acta Part A: Molecular and Biomolecular Spectroscopy" com participação dos pesquisadores Igor Santana-Melo (UFU) e Douglas Carvalho Caixeta (UFAL).
O trabalho foi realizado no Laboratório de Nanobiotecnologia Prof. Dr. Luiz Ricardo Goulart e faz parte de Redes científicas como o INCT em Saúde Oral e Odontologia, o INCT em Teranóstica e Nanobiotecnologia (INCT-TeraNano), a Rede Mineira de Diagnóstico de Doenças Infecciosas e a Rede Mineira de Saúde Oral e Odontologia. Além disso, também é um dos projetos aprovados com selo de sustentabilidade da ODS-UFU (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU), que reforça a relevância do estudo para a saúde pública e a preservação ambiental.
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Palavras-chave: sustentabilidade Salivanano Parceria Polícia Federal Parceria UFU e UFAL
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