Publicado em 06/01/2026 às 16:18 - Atualizado em 09/01/2026 às 13:59
O ano de 2026 começou com uma crise no nosso continente e a escolha de cada palavra para contar o que aconteceu pode produzir uma história diferente — um desafio para o jornalismo, menos árduo quando se faz comunicação pública e divulgação científica.
No dia 3 de janeiro, os Estados Unidos fizeram uma operação militar na Venezuela e levaram o presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Mas, como assim: um país pode fazer isso com outro? As palavras deveriam ser intervenção ou invasão, captura ou sequestro? E se os presidentes forem ditadores?
A ciência — nesse caso, as humanas — pode nos ajudar, mais uma vez, a compreender o que está acontecendo e a que devemos nos atentar. Por isso, procuramos pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) para responderem a essas perguntas, assim como fizemos quando precisávamos entender coronavírus, data centers e outros temas de importância local e global.
Os professores Danilo Enrico Martuscelli, da área de ciência política do Instituto de Ciências Sociais (Incis/UFU); Georgia Cristina Amitrano, estudiosa de filosofia política e terrorismo de Estado, vinculada ao Instituto de Filosofia (Ifilo/UFU); Aureo de Toledo Gomes, que pesquisa paz e segurança internacional, do Instituto de Economia e Relações Internacionais (Ieri/UFU); e Alex Cabello Ayzama, egresso da Faculdade de Direito (Fadir/UFU) e atual professor de Direito Internacional e diretor de Pesquisa da Universidade Privada Domingo Savio, na Bolívia, falam sobre o que aconteceu na Venezuela nos últimos dias e com o que precisamos nos preocupar.
Os pesquisadores classificam a operação como invasão de território e sequestro do presidente Maduro, pois ocorreu à margem do direito internacional e sem o aval da Organização das Nações Unidas (ONU). A ação é vista como uma violação direta da soberania nacional e do princípio de autodeterminação dos povos. “É importante deixar claro que não se trata de defender uma pessoa ou um modelo de governo, mas, sim, de defender princípios básicos: a soberania, o respeito às normas internacionais e a proibição do uso unilateral da força”, esclarece Ayzama.
Os Estados Unidos e seus apoiadores justificam a ação como luta contra o narcoterrorismo ou defesa da democracia, mas os entrevistados concordam que os reais interesses são econômicos, mais especificamente o controle de recursos estratégicos, como petróleo, lítio e terras raras. Segundo o professor de Direito, o discurso de defesa da democracia e dos direitos humanos tem sido usado de forma seletiva, subordinado a interesses geopolíticos e estratégicos. Por isso, a professora Amitrano, da Filosofia, prefere usar a palavra “colonização” a “imperialismo”, porque há, segundo ela, uma invasão de terras para retirada de bens.
De todo modo, os professores apontam para uma nova faceta de imperialismo ou neocolonização, pois os Estados Unidos buscam reafirmar a América Latina como seu quintal para frear a influência global de potências como a China e a Rússia. “Falo aqui em agressão imperialista, pois o governo Trump [atual presidente estadunidense] demonstrou em vários discursos e ações que pretende implementar uma nova Doutrina Monroe [anunciada, em 1823, pelo presidente estadunidense James Monroe, com a frase ‘América para os americanos’], cujo resultado é projetar unilateralmente os Estados Unidos como dono do mundo”, afirma Martuscelli.
A queda forçada do governo venezuelano pode significar riscos para outros países, alertam os cientistas. Colômbia e México podem ser os próximos alvos de pressão ou desestabilização, e Cuba deve sofrer impactos diretos pela interrupção do apoio econômico venezuelano, particularmente no fornecimento de petróleo subsidiado. Alguns acordos de paz também podem ser afetados. Por exemplo, a instabilidade na fronteira pode arruinar processos delicados, como o acordo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
O Brasil é visto em uma posição de “saia justa” diplomática e vulnerabilidade logística. Os pesquisadores preveem uma nova e intensa onda migratória, exigindo uma coordenação federal e internacional para acolhimento de refugiados. Além disso, há preocupação com a segurança das fronteiras terrestres e a proteção de comunidades indígenas, como os Yanomami.
A ação cria um precedente jurídico alarmante: ao ignorar as normas internacionais, os Estados Unidos sinalizam que o uso da força pode substituir o direito. Isso poderia autorizar, indiretamente, que outras potências ignorem soberanias em conflitos como os de Taiwan ou da Ucrânia, empurrando o sistema internacional para uma lógica de barbárie similar à do início do século 20.
A conclusão comum dos professores é que os países latino-americanos, liderados pelo Brasil, precisam agir em bloco. A desunião facilitaria a instalação de governos fantoches, enquanto uma resposta institucional conjunta e mobilizações populares seriam caminhos para restaurar a autonomia política e impor custos diplomáticos à ação estadunidense.
Os períodos eleitorais ampliam a vulnerabilidade a interferências externas e operações de influência, que precisam ser ativamente contidas para preservar a soberania popular e a integridade dos processos democráticos, afirma Gomes. Além do Brasil, outros quatro países latino-americanos têm eleições presidenciais previstas para 2026: Colômbia, Costa Rica, Peru e Haiti. “Defender a soberania hoje não significa apoiar governos, mas, sim, evitar que a força substitua definitivamente o direito no sistema internacional”, defende Ayzama.
“Desunidos, os países da região terão pouquíssima capacidade de barganha frente às grandes potências; em concerto, ainda é possível impor custos políticos e diplomáticos relevantes a novas aventuras intervencionistas”, explica Gomes. “A coordenação desses esforços na América do Sul cabe, de maneira inescapável, ao Brasil, que precisa se preparar política e institucionalmente para assumir esse papel de liderança regional em defesa da não‑intervenção e da autodeterminação dos povos”, conclui.
Quer saber mais sobre o que a pesquisa científica tem a dizer sobre a Venezuela? Acesse os trabalhos acadêmicos sobre esse tema disponíveis no Repositório da UFU.
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Palavras-chave: Venezuela Estados Unidos soberania neocolonização Relações Internacionais DIREITO filosofia Ciências Sociais política
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