Publicado em 06/03/2026 às 15:27 - Atualizado em 06/03/2026 às 16:26
A ocupação de espaços de poder por mulheres é um processo contínuo de quebra de barreiras históricas. Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o cenário reflete as complexidades de uma sociedade em transformação. Na primeira matéria da série especial Conexões com Elas (em que mulheres contam sobre suas relações com a UFU por meio da Extensão e da Cultura), conversamos com mulheres que estão à frente de decisões cruciais para a instituição: Neiva Flávia, diretora do Centro de Incubação de Empreendimentos Populares Solidários (Cieps/UFU); Paula Callegari, diretora de Cultura; e Maria Andréa Angelotti, diretora de Extensão.
Os desafios enfrentados
Embora o debate sobre equidade de gênero tenha avançado nos últimos anos, a desproporção nos altos cargos ainda é um sintoma latente. Apesar de serem mais da metade da população e, em média, possuírem maior grau de instrução, de acordo com dados de 2024 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres ocupam apenas 42% dos cargos de chefia no setor público.
Essa discrepância tem raízes profundas na forma como os espaços de prestígio são historicamente distribuídos. No curso de Música, área de formação de Paula Callegari, a divisão é nítida: "Na área de flauta temos muitas mulheres. É um instrumento que geralmente é muito associado à musicalização infantil. Mas em outras áreas de maior destaque, como na regência e na composição, ainda há a predominância masculina", afirma a diretora de Cultura.
O mesmo ocorre em outros cursos da universidade. Neiva Flávia atua no campo dos direitos humanos há mais de 30 anos e aponta que em carreiras como engenharias, medicina e direito, curso no qual atua como professora, as mulheres ainda são a minoria no corpo docente.
Para Maria Andréa Angelotti, a ausência feminina nos altos escalões não é falta de interesse, mas o reflexo de obstáculos monumentais construídos por uma estrutura sexista. O maior exemplo disso, segundo ela, está no próprio cargo máximo da instituição: "A nossa universidade nunca teve uma reitora. Isso é a compreensão de uma sociedade extremamente machista", pontua a diretora de Extensão.
Na gestão, esse desafio ganha o contorno da desconfiança. As decisões tomadas por gestoras frequentemente passam por questionamentos que dificilmente se aplicariam aos pares masculinos. "Eu já passei por algumas situações que eu fiquei pensando: se fosse um homem, não estaria [sendo questionada]. Vejo que, nessa posição, somos muito testadas o tempo todo", descreve Paula.
Essa percepção também é compartilhada por Maria Andréa, que ao relembrar suas passagens por coordenações de curso e direções de unidade acadêmica, nota que os obstáculos são desproporcionalmente maiores. "São questionamentos que, se fosse um homem que tivesse tomado a mesma decisão que eu, ele não teria sido questionado ou abordado da mesma maneira". Mesmo lidando com esse desgaste institucional, a diretora de Extensão defende a urgência de ter mais mulheres em postos de liderança, justamente por trazerem uma perspectiva diferente e fundamental para a resolução de problemas.
Representatividade que inspira e educa
Se os desafios surgem pelo caminho, o significado de permanecer e liderar é ainda maior. Para essas gestoras, ocupar diretorias da UFU ultrapassa a burocracia dos cargos, trata-se de um ato de resistência e um espelho para as próximas gerações. Para Paula Callegari, estar à frente da Diretoria de Cultura, setor no qual iniciou sua vida profissional como estagiária durante a graduação, tem um peso especial. "É muito gratificante, pois a gente vê que é um reconhecimento da nossa trajetória profissional e dos trabalhos anteriores", avalia.
O desejo de que outras mulheres não recuem diante das barreiras também move Maria Andréa Angelotti. A diretora de Extensão enxerga a sua atual posição como um instrumento direto de incentivo. "Eu gostaria que outras mulheres, alunas e professoras, se sentissem encorajadas a ocupar esses cargos de coordenação e direção. Entendo que o meu lugar é um pouco de tentar motivar outras a estarem nessas posições", reflete.
Esse exemplo reverbera não apenas nas salas de aula e nos corredores da universidade, mas também na comunidade externa. Para Neiva Flávia, estar na gestão de um setor como o Cieps, que dialoga de forma profunda com grupos em vulnerabilidade e movimentos sociais, compostos majoritariamente por mulheres, é uma maneira prática de validar e fortalecer a voz feminina.
Como resume a diretora, a presença de mulheres na liderança aliada à educação tem um poder transformador irrefutável para quem está começando agora: "Isso em si é educativo. É formativo para as estudantes olharem e falarem: 'Nossa, a gente pode tudo. A gente pode estudar e pode chegar aonde a gente quiser'".
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