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Ciência

Como o uso dos smartphones está afetando a nossa memória?

Pesquisa da UFU busca participantes para analisar impactos dos aparelhos em jovens adultos

Publicado em 15/04/2026 às 16:48 - Atualizado em 16/04/2026 às 14:51

Uso excessivo do celular pode estar relacionado à ansiedade, insônia e dificuldade de concentração. (Foto: Freepik)

 

O uso intenso de telas tem sido cada vez mais associado a questionamentos sobre saúde mental e física. A presença constante da tecnologia no cotidiano aparece ligada a queixas recorrentes de cansaço mental e dificuldade de atenção. A doutoranda do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (IP/UFU), Priscilla Custódia, sob orientação do professor Joaquim Rossini, desenvolve sua pesquisa a partir de uma reflexão semelhante: será que são os smartphones que estão gerando isso em nós?

Desenvolvida no Laboratório de Psicobiologia e Ciências Cognitivas da UFU (LABPCC), a investigação foca na memória de trabalho de pessoas entre 18 e 40 anos e sua estreita relação com a ansiedade. O estudo busca compreender como o excesso de estímulos digitais pode provocar sobrecarga cognitiva e influenciar a qualidade do sono e índices de depressão e estresse.

 

O que é memória de trabalho?

O principal foco da pesquisa se refere à capacidade de armazenar e manipular informações por um curto período de tempo, como a que usamos no dia a dia para tarefas imediatas. “Você está procurando a chave do teu carro e tem que lembrar onde é que a deixou. Você achou e acabou, talvez no final do dia você nem lembre que teve que procurar ela, porque ficou na tua memória de trabalho”, explica Rossini.

A atenção faz uma interface com várias capacidades cognitivas, incluindo a memória de trabalho. “Os nossos recursos cognitivos são limitados, a gente não consegue processar várias informações ao mesmo tempo”, afirma o docente. Quando há muitas informações no ambiente, incluindo os múltiplos estímulos visuais e auditivos do aparelho celular, a atenção é dividida e esses recursos são redirecionados.

Rossini também explica que essa ideia de limitação não é recente, ela se refere a estudos da década de 70 do psicólogo e economista Daniel Kahneman: “É como se você tivesse um tanto de recurso financeiro ali no banco, que é o seu cérebro, e fosse disponibilizar esses recursos para áreas específicas”.

 

Ansiedade, estresse e os recursos cognitivos

A relação entre recursos cognitivos limitados e fatores emocionais é outro eixo central da pesquisa, dando destaque a como a ansiedade também é capaz de drenar recursos. Rossini explica que esse processo ocorre porque, ao antecipar situações ou lidar com múltiplas demandas, o cérebro direciona energia para cenários hipotéticos, reduzindo a disponibilidade para a memória de trabalho.

Essa questão também aparece em outras pesquisas desenvolvidas no laboratório, como a do mestrando Tiago Alves Tavares, que investiga como a ansiedade afeta a seleção de informações em contextos de alta demanda atencional. “Quanto mais recurso a pessoa tem, mais rápido ela consegue fazer essa análise do contexto”, completa Rossini.

 

A pesquisadora Priscilla Custódia e seu orientador Joaquim Rossini no Laboratório de Psicobiologia e Ciências Cognitivas.
Em ambiente controlado e sem interferências, o LABPCC permite que Custódia e Rossini analisem dados como o tempo de reação de uma pessoa a estímulos. (Foto: Tiago Alves Tavares)

 

Os caminhos da investigação

Com um recorte de adultos jovens entre 18 e 40 anos, o questionário aplicado aos participantes na fase inicial da pesquisa foi estruturado com base em instrumentos já consolidados na psicologia, como a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse, a Escala de Sonolência de Epworth (ESE-BR) e a Escala de Adição ao Smartphone (SAS-SV), que permitem avaliar diferentes dimensões das relações entre uso de tecnologia, atenção, memória e indicadores emocionais.

O recorte em adultos jovens também evidencia desafios específicos dessa faixa etária em usufruir da tecnologia sem ter um sofrimento mental. “A gente pode considerar essa faixa etária como uma geração que já se desenvolveu com esse meio digital”, observa Custódia. A integração entre vida cotidiana e ambientes digitais torna mais complicada a separação entre trabalho, estudo e descanso, ampliando a exposição contínua a demandas e estímulos.

Pensando em possíveis resultados da pesquisa, a doutoranda também aponta formas de lidar com os impactos da tecnologia, como a higiene do sono: “É muito importante que a gente coloque isso em prática, não é só reduzir as telas.”

Além disso, a pesquisadora aponta para a reabilitação cognitiva como estratégia de melhora de dificuldades já instaladas, assim como de prevenção dos impactos. A importância de estimular diferentes formas de processamento cognitivo no dia a dia também é destacada ao aprofundar sobre esses desafios. “Escrever, por exemplo, é um processo cognitivo distinto de digitar”, explica Rossini.

 

Box informativo sobre higiene do sono.
(Arte: Divisão de Publicidade, Propaganda e Design Gráfico)

 

Como participar

A pesquisa está aberta à participação de voluntários e, até o momento, não há prazo final definido. Interessados podem preencher o formulário on-line.

 

 

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Palavras-chave: Psicologia Memória ansiedade smartphones

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