Publicado em 21/05/2026 às 17:16 - Atualizado em 21/05/2026 às 17:47
"Aqui era só mato. E é aqui que nós vamos começar uma universidade…”. Com um misto de orgulho e assombro, a Irmã Ilar Garotti sorri ao entrar no Campus Santa Mônica da Universidade Federal de Uberlândia e lembrar da primeira vez que esteve no local, em 1962. Na manhã de 20 de maio de 2026, aos 93 anos, a religiosa visitou o campus para gravar seu depoimento ao Projeto MEMÓRIA UFU.
Garotti, que dirigia uma das seis faculdades isoladas que deram origem à Universidade de Uberlândia e, na sequência, à UFU, foi a primeira mulher a ser vice-reitora da Universidade de Uberlândia, entre 1971 e 1975. Seu depoimento marca o início das celebrações ao jubileu de 50 anos da federalização da instituição, a ser comemorado em maio de 2028.
Depois de participar, na tarde de terça-feira, 19 de maio, das comemorações de 50 anos do Curso de Psicologia, criado por ela, ainda na direção da Faculdade de Filosofia, a religiosa visitou, na quarta-feira, 20 de maio, locais que marcaram sua trajetória na UFU: a Faculdade de Educação (Faced), na qual esteve lotada durante os 30 anos em que atuou na UFU e o Gabinete da Reitoria, muito diferente daquele no qual trabalhou como vice-reitora, há mais de 50 anos, localizado na Rua Duque de Caxias.
“Vocês estão trabalhando e desenvolvendo isso aqui como eu nunca pensei. Nunca pensei que, nessa idade, eu fosse ver o que vocês estão fazendo”, admira-se Garotti. E deixa uma mensagem para toda a comunidade UFU: “Continuem, meus amigos, continuem com essa garra para fazer disso aqui uma grande universidade!”.
No final da tarde de ontem, Irmã Ilar participou ainda de uma edição especial do Programa Bora Prosear, gravado no estúdio da TV Universitária com a jornalista Eliane Moreira e o radialista Vitor Hugo de Oliveira. A entrevista vai ao ar na próxima quinta-feira, 28 de maio, marcando a semana de comemoração dos 48 anos de federalização, celebrado em 24 de maio. O Bora Prosear é transmitido às quintas-feiras, pela TV Universitária e a Universitária FM 107,5. Os episódios também estão disponíveis no Canal da UFU no YouTube.
Pedagoga por formação, mestre em Educação e Ciências da Religião, a irmã Ilar Garotti nasceu em 15 de março de 1933, na cidade paulista de Jardinópolis, filha de um imigrante italiano e uma descendente de italianos. Ela concluiu o curso normal na cidade natal e, aos 18 anos, mudou-se para Campinas, para estudar Pedagogia na Pontifícia Universidade Católica (PUC).
Durante o curso, ficou instalada no pensionato do Instituto Complementar São José, dirigido pelas Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado e, a partir desse convívio, descobriu sua vocação religiosa. Aos 20 anos, em 1954, ingressou na ordem religiosa que, oito anos depois, a incumbiu de mudar-se para Uberlândia e assumir a direção da Faculdade de Filosofia.
“Chorei uma noite inteira ao saber que teria que vir, mas não pude dizer não, pois como religiosa eu havia feito um voto de obediência”, recorda ela. A Faculdade de Filosofia havia sido fundada em 1960 pela irmã Maria Lázara e a Madre Emília Ribeiro, junto ao colégio Nossa Senhora, que era administrado pela congregação. No início de 1962, aos 29 anos, Ilar chegou a Uberlândia e assumiu a direção da Faculdade.
Apesar da resistência inicial, Garotti teve uma atuação decisiva na criação da Universidade de Uberlândia (UnU) que surgiu em 1969, pela união das seis faculdades já existentes na cidade. “Eu era diretora [da Faculdade de Filosofia] e a nossa madre tinha me falado: ‘tudo que Uberlândia precisar você tem que fazer’. E, na hora, eu tive a inspiração: o que Uberlândia está precisando? De uma universidade!”, detalha Garotti.
Entre 1972 e 1976 também participou ativamente do grupo que trabalhou pela federalização da universidade. “Tem que ir em Brasília todo mês? Eu vou! Porque religiosa não tinha marido, não tinha filho, não tinha nada, eu podia ir”, diverte-se Garotti ao relembrar das viagens constantes que foram necessárias para ajustar toda a documentação organizada para a federalização ser efetivada.
A religiosa seguiu atuando como professora no curso de Pedagogia da UFU e também em cargos da administração superior ao longo de 30 anos. Foi, ainda, Secretária de Educação da Prefeitura Municipal de Uberlândia, entre 1997 e 2000, na gestão do prefeito Virgílio Galassi. Hoje, aos 93 anos, Irmã Ilar vive em Jardinópolis, próxima de familiares, mas segue ativa, escrevendo e publicando livros, além de participar de eventos acadêmicos sempre que possível.
O MEMÓRIA UFU prevê a criação de um Centro de Memória Digital da Universidade Federal de Uberlândia, que abrigará documentos, depoimentos e outros registros sobre a história da Universidade. “Registrar a memória das pessoas que viveram um fato é fundamental para garantir que a história não se perca. É através desses fragmentos de memória que conseguimos conhecer o passado e, assim, reforçar o que foi positivo e corrigir o que deu errado”, afirma o historiador Carlos Henrique de Carvalho, reitor da UFU, que também colabora com o projeto.
A iniciativa surgiu em 2025, a partir de diálogo entre o Gabinete da Reitoria (GABIR) e a Diretoria de Comunicação Social (DIRCO). A execução da proposta será realizada pela equipe da Fundação Rádio e Televisão Universitária (RTU) e conta também com a parceria do Programa de Pós-Graduação em Educação PPGED/Faced, através do Centro de Documentação e Memória em Educação, e com a colaboração de docentes, técnicas e técnicos administrativos de diversas unidades da instituição.
“Em 2025 começamos a discutir as bases do projeto e costurar parcerias. Existem muitas pesquisas concluídas ou em andamento sobre a história da UFU, assim como alguns espaços dedicados à conservação da memória. Não queremos substituir esse rico acervo, pelo contrário, pretendemos reuni-lo em um só local, dar visibilidade a ele e torná-lo acessível digitalmente, garantindo amplo acesso da sociedade”, explica a coordenadora do projeto, Ana Spannenberg, professora do Curso de Jornalismo.
O cronograma do projeto é de longo prazo, pois o trabalho demanda uma equipe ampla, que inclui profissionais e estudantes de diferentes áreas, além de recursos a serem buscados em múltiplas fontes. A primeira fase será marcada pela captação dos depoimentos como o da Irmã Ilar Garotti.
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Palavras-chave: Federalização UFU Ilar Garotti
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