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Ciência

Como as plataformas digitais de terapia impactam o trabalho das psicólogas?

Pesquisadora da UFU investiga serviços descritos como “Tinder das psicólogas” e identifica desafios como remuneração instável, sobrecarga e falta de segurança

Publicado em 25/09/2026 às 15:48 - Atualizado em 25/09/2026 às 16:15

No Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre a saúde mental, a pesquisa também chama atenção para quem trabalha na oferta desse cuidado (Arte: Thimóteo Prates)

Hoje em dia, já estamos acostumados com serviços mediados por aplicativos, que prometem tornar mais rápido e fácil o acesso a refeições, transporte e lazer, e essa tecnologia também chegou à psicoterapia.

Buscar atendimento psicológico pela internet se tornou uma alternativa para quem procura praticidade e flexibilidade de horários. Mas por trás da facilidade de escolher uma psicóloga e marcar uma sessão, existe um modelo de trabalho que pode produzir instabilidade, sobrecarga e perda de autonomia para as profissionais.

Quando se formou em Psicologia, em 2022, Gabriela Araújo Barbosa buscava uma forma de ingressar no mercado de trabalho. Morando em uma cidade do interior de Goiás, onde encontrava poucas oportunidades profissionais, ela começou a atender por uma plataforma digital indicada por uma colega. A experiência, que inicialmente representava uma possibilidade de trabalho, também trouxe dúvidas sobre as condições em que aquele atendimento era realizado.

“Aos poucos, fui percebendo que aquilo que eu estava vivenciando não era apenas uma experiência individual, mas que poderia estar relacionado a uma forma mais ampla de organização do trabalho”, conta Barbosa.

A experiência profissional se tornou ponto de partida para o mestrado da psicóloga no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (PPGPSI/UFU), sob orientação da professora Maristela Pereira. A pesquisa reúne entrevistas com oito psicólogas autônomas que realizam atendimentos por meio de plataformas digitais, e busca compreender como essa forma de trabalho interfere no cotidiano das profissionais, nas condições de exercício da profissão e na própria qualidade do atendimento.
 

O que muda quando o atendimento é mediado por plataformas?

O atendimento online, comparado com o presencial, já apresenta grandes diferenças, mesmo quando não mediado por plataformas. Barbosa explica que, no consultório presencial, a psicóloga consegue organizar o espaço para garantir privacidade e delimitar aquele ambiente como local da sessão. No atendimento online, parte desse controle depende do contexto em que o paciente está.

“A responsabilidade pela garantia daquele espaço de privacidade é muito mais compartilhada e a profissional perde parte do controle que teria no presencial”, afirma Barbosa. Sendo assim, as consultas são atravessadas por questões como problemas de conexão, interrupções e até pacientes que realizam outras atividades durante a sessão.

A principal diferença apontada pela pesquisa quando há uma plataforma intermediando a relação entre psicóloga e paciente é a forma como o atendimento é organizado. “As profissionais podem optar por atender online e definir aspectos importantes do seu trabalho, o que não se dá da mesma forma para quem atende vinculada a uma plataforma digital”, explica a orientadora Maristela Pereira. Quando esse atendimento é mediado por uma empresa, parte dessas decisões passa a seguir regras já estabelecidas.

Nesse cenário, a psicóloga nem sempre sabe quais critérios definem a visibilidade de seu perfil. Dependendo da empresa, também podem ter valores, formas de agendamento e outras condições do atendimento que ficam fora do seu controle.“A plataforma está controlando como, quando, de que forma e para quem o trabalho será ofertado”, explica Barbosa.

Um aspecto importante apresentado pelas entrevistadas que participaram da pesquisa é a expectativa dos pacientes de que os resultados da terapia sejam imediatos. Barbosa explica que isso também pode acontecer no atendimento presencial, mas a lógica de funcionamento dessas plataformas permite uma facilidade maior dos pacientes “irem procurar o que querem com outra profissional”.

“Uma das participantes chegou a definir as plataformas como um ‘Tinder de psicólogas’”, explica a pesquisadora. Essa dinâmica é alarmante não só em relação à vulnerabilidade financeira das profissionais, mas também pelos desafios que pode criar para a construção do vínculo com os pacientes.


O que dizem as psicólogas 

Assim como a experiência pessoal de Barbosa, as plataformas podem ser uma porta de entrada para psicólogas recém-formadas, que conseguem começar a atender sem os custos de manter um consultório e ainda têm acesso a possíveis pacientes. A autonomia oferecida pelo modelo, porém, acaba gerando, muitas vezes, uma rotina de trabalho precarizada.

Como a remuneração depende da quantidade de atendimentos, essa instabilidade pode resultar em períodos de maior intensidade e outros de pouca ou nenhuma demanda. “Essa oscilação produz também uma maior vulnerabilidade financeira”, explica Barbosa. Isso faz com que seja necessário realizar uma quantidade maior de atendimentos para alcançar uma remuneração suficiente.

Outro aspecto apontado pelas entrevistadas é em relação à flexibilidade de horários prometida pelas plataformas, que pode gerar uma ausência de limite entre trabalho e descanso: "Existe uma sobreposição entre trabalho e vida doméstica que produz uma sobrecarga”.

Além disso, já que a pesquisa opta por um recorte de profissionais mulheres, há um destaque de desafios relacionados à segurança. Segundo a pesquisadora, a divulgação dos perfis feita pelas plataformas amplia o contato com possíveis pacientes, mas as profissionais não têm controle sobre quem chega até elas, resultando em episódios de assédio. Nos casos analisados, as psicólogas não contaram com suporte das empresas para denunciar ou se proteger de abordagens inadequadas.

Diante desses episódios, a própria rede de profissionais criou estratégias de proteção. Uma delas foi a formação de grupos de WhatsApp para compartilhar contatos de pessoas que haviam assediado profissionais e alertar outras psicólogas. “É uma estratégia que ajuda aquela profissional naquele momento, permite que ela continue trabalhando e consiga lidar com determinada situação, mas não modifica a condição que está produzindo o problema”, explica Barbosa.


Só a ponta do icebergue

As experiências das psicólogas, segundo a pesquisa, fazem parte de uma transformação que ultrapassa a Psicologia. “Trata-se de um fenômeno que atinge o conjunto da classe trabalhadora e que está reconfigurando os processos de trabalho em todos os âmbitos”, afirma Pereira.

A professora relaciona essa plataformização de serviços a uma característica mais ampla da nossa sociedade capitalista: “Na atualidade, a busca de explorar os trabalhadores se soma ao desenvolvimento tecnológico, criando novas formas de precarização que não estavam antes no horizonte, as quais se somam às formas que já existiam”.

Segundo Barbosa, nas condições atuais e dentro da lógica de lucro que orienta as empresas-plataforma, não seria possível pensar em uma plataforma de serviços que não produza precarização. “Isso não significa dizer que a tecnologia seja, por si só, responsável pela precarização. O problema está na forma como ela é incorporada a uma lógica de organização do trabalho marcada pela flexibilização, pela individualização dos riscos e pela transferência de responsabilidades para o trabalhador”, explica.

A pesquisadora espera que os resultados da pesquisa ampliem a discussão sobre remuneração, estabilidade, proteção social, responsabilização, formas de controle e consequências dessa organização de trabalho. “A questão não é simplesmente encontrar uma maneira de tornar a plataformização ‘menos precária’, mas questionar quais relações de trabalho estão sendo reproduzidas e ampliadas por ela e, principalmente, quem está ganhando com essa lógica de trabalho”, completa.

A pesquisa de Gabriela Barbosa estará disponível no Repositório Institucional da UFU a partir de julho de 2027.
 

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Palavras-chave: setembro amarelo Psicologia saúde mental plataformização

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