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09/03/2021 - 08:58 - Atualizado em 10/03/2021 - 09:17
Mulheres venezuelanas e suas experiências migratórias para o Brasil
Trabalho da UFU aborda feminismos interseccional e decolonial e fatores como raça e gênero no processo de migração
Por: 
Julia Alvarenga

 

Arte: Viviane Aiko

 

Na segunda reportagem da série de pesquisas sobre mulheres, que o portal Comunica UFU publica nesta semana, falamos sobre o trabalho de conclusão de curso VENEZUELANAS NO BRASIL: UM ESTUDO SOBRE GÊNERO E ETNIA NAS EXPERIÊNCIAS MIGRATÓRIAS, cuja proposta foi estudar de que forma fatores como raça e gênero influenciam as experiência do processo de migração das mulheres venezuelanas que vieram ao Brasil.

O trabalho foi desenvolvido por Letícia Angelini, formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). “Acredito que devemos voltar nosso olhar para questões mais próximas das nossas vidas, buscar compreender fenômenos que nos afetam ou afetam pessoas semelhantes a nós”, comenta Angelini.

O estudo mostrou que o movimento de venezuelanas para o Brasil é diverso em etnia, cultura, nível socioeconômico, estado civil e familiar, idade, sexualidade, qualificações, entre outros fatores. Porém, os objetivos da migração são geralmente os mesmos: melhores condições de saúde (especialmente materna ou pediátrica), busca por mais segurança, estabilidade ou até mesmo autonomia, além de melhor acesso a bens de consumo essenciais, como alimentos.

Consequentemente, as experiências dessas mulheres também são diversas, assim como o grau em que seus objetivos são atingidos. “Mulheres indígenas, por exemplo, costumam encontrar maiores dificuldades no mercado de trabalho, que já é difícil para todas elas. Muitas vezes, acabam completamente fora do mercado de trabalho formal”, afirma a autora do trabalho.

Essa experiência também depende da maneira como a sociedade, a justiça e o governo encaram a questão migratória. De acordo com Angelini, em Roraima, onde está a maioria das imigrantes, a xenofobia exacerbada e a falta de políticas públicas acessíveis e pensadas de forma interseccional fazem com que a maioria das experiências migratórias seja mais violenta e degradante do que poderia ser.

Professora do Instituto de Relações Internacionais da UFU, Lara Selis foi orientadora do trabalho e comenta sobre a importância de pesquisar temas que envolvem as questões de gênero. Selis relata que o sistema de gênero binário das sociedades ocidentais instituiu uma dualidade hierárquica que promove desigualdades ainda vigentes nos dias atuais: “Parece-me inconcebível pensar qualquer engajamento científico preocupado com as relações humanas que não leve em consideração as variáveis de gênero como fator relevante.”

Além disso, Selis explica que é preciso trazer visibilidade para essas questões no âmbito latino-americano. “Os movimentos feministas da região (América Latina) têm sido responsáveis pelas principais contestações realizadas recentemente no campo político, servindo como fonte de reflexão tanto teórica, como prática”, afirma a professora.

 

 

Para realizar a pesquisa, foram estudados os feminismos interseccional e decolonial. Você sabe o que eles significam? A professora Lara Selis explica.

 

O que é feminismo interseccional?

Lara Selis: De forma simples e resumida, poderíamos pensar no feminismo interseccional como uma perspectiva que busca compreender as opressões de forma conjugada. Ou seja, parte-se da ideia de que a vivência de um corpo feminino (ou feminilizado) não acontece separada das demais vivências desse corpo, sobre o qual incidem outras identidades, como de raça, de classe, de sexualidade, de nacionalidade etc. Por isso, não podemos pensar na categoria “mulher” como algo universal, ou mesmo coeso e singular. As múltiplas combinações entre camadas de opressão nos contam também sobre múltiplas experiências de “ser mulher”.  Assim, a vivência das mulheres negras, pobres, lésbicas, não será a mesma das mulheres brancas, burguesas e heterossexuais, ou mesmo das mulheres indígenas, camponesas e assim por diante.

Dessa forma, o feminismo interseccional nos lembra sobre a importância de abrirmos mão das narrativas de unidade, que, além de ocultarem as demandas daquelas que habitam as ambiguidades categoriais, também promovem uma ação violenta contra as mulheres não-hegemônicas. Do ponto de vista prático, a falta de uma preocupação com a interseccionalidade pode revelar uma construção de direitos e de políticas públicas pouco eficaz na promoção de equidade, na medida em que supor uma mulher universal acaba sendo uma forma de silenciar a demanda daquelas que ocupam, simultaneamente, múltiplas esferas de opressão.

 

O que é feminismo decolonial?

Lara Selis: O feminismo decolonial nasce na esteira dos debates sobre a Colonialidade do poder, que ocorreram predominantemente entre pensadores latino-americanos do final do século XX. Tal conceito, inicialmente descrito por Aníbal Quijano, discorre sobre um padrão de poder que, desde a colonização, promove estruturas de dominação em favor do avanço do capitalismo global e eurocêntrico. De forma correlata, as feministas dessa linha chamam atenção para a faceta colonial da modernidade, porém, acentuando os pressupostos sexuais desse sistema que, junto com a ideia de raça, seguem justificando explorações e desigualdades sobre os corpos não-hegemônicos.

Na visão dessas autoras, como María Lugones, a lógica de gênero e sexualidade dos colonizadores europeus, pautada no binarismo sexual e em um patriarcado de alta intensidade, contrastava com as normas das sociedades nativas. Por isso, a colonização implicou também a imposição cultural de um “sistema de gênero colonial/moderno”. Tal sistema, junto às noções de raça, foi responsável pela criação de mecanismos de controle e exploração política e econômica vigentes ainda hoje. É por isso que, para o feminismo decolonial, os conceitos de patriarcado, colonização e capitalismo caminham juntos. Um não existe sem o outro, assim como não há saída possível sem considerar uma mudança que venha também das três esferas. Como diria uma célebre frase do movimento, “no se puede descolonizar sin despatriarcalizar”.

 

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