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11/11/2020 - 15:53 - Atualizado em 13/11/2020 - 13:25
Por que conhecer teorias contra-hegemônicas da literatura?
Livro 'Revisões do cânone', de pesquisadores da UFU e de outras instituições, busca produzir olhares mais diversificados sobre objeto literário
Por: 
Diélen Borges

 

Estudos literários sobre autores e obras não tradicionais surgem na década de 1960. (Foto: Diélen Borges)

O que é um cânone? O termo vem da palavra grega κανόνας, que se refere a uma vara utilizada como medida. Em português, cânone se relaciona a regras e padrões. No catolicismo, uma pessoa considerada santa pode ser canonizada. Nas artes, cânones são as obras-primas, os chamados clássicos. 

Na literatura, o cânone também funciona como a métrica com a qual é medido o valor literário dos textos, explica o professor Fábio Figueiredo Camargo, do Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia (Ileel/UFU). Camargo organizou, com os docentes André Luís Mitidieri e Sandra Sacramento, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), o livro de ensaios REVISÕES DO CÂNONE: estudos literários e teorias contra-hegemônicas, publicado em 23 de outubro pela editora O Sexo da Palavra.

Cânones são as listas de grandes autores e obras que deveriam ser estudados na disciplina de literatura, reconhecidos por questões de tempo e tradição, porque informam um modo de se escrever e de se pensar o que seja literatura, formatam um gosto e organizam uma tradição para os futuros leitores e escritores. "No Brasil, o nosso cânone se forma com os românticos do século XIX e está muito ligado à constituição de uma nacionalidade brasileira, aquilo que se gostaria que os brasileiros vissem como Brasil, a língua que falassem, os costumes que tivessem. Acaba sendo uma conformação de civilização", afirma Camargo. 

Entretanto, a partir dos anos 1960, começam a surgir estudos literários sobre autores e obras não tradicionais. Essas pesquisas possibilitaram o levantamento de autores que não compunham o cânone e, portanto, não apareciam para o público. "No Brasil, tem a ver com o nacionalismo exacerbado, que não deixa aparecer, por exemplo, textos que são críticos de sua imagem", explica o professor da UFU. 

As mulheres também foram apagadas do cânone. No século XIX, as que conseguiam publicar utilizavam outros nomes, às vezes o nome do marido. Amélia de Oliveira, por exemplo, foi proibida de publicar pelo seu noivo, o poeta parnasiano Olavo Bilac. Na carta que ele enviou a ela, publicada no livro O noivado de Bilac, de Elmo Elton, é possível observar a estratégia de interdição das mulheres na literatura por meio de argumentos relacionados à reputação.

 

Trechos publicados no livro O noivado de Bilac, de Elmo Elton. (Arte: Marcel Arantes)

O cânone também excluiu, historicamente, os escritores negros. A maior parte dos escritores brasileiros do século XIX, para se firmarem como escritores, segundo Camargo, precisavam minimamente passar uma imagem de brancos. "Hoje a gente tem a polêmica de por que o Machado de Assis se embranqueceu, por que o Castro Alves se embranqueceu, por exemplo. Isso é uma questão gravíssima na nossa história e na nossa configuração de cânone, porque se o Machado de Assis se transforma no grande escritor brasileiro, isso deve, em parte, também ao fato de que a sua cor, ou a sua raça, teve que ser apagada."

Camargo cita, ainda, o caso dos escritores homossexuais, que tinham que "fingir que não eram homossexuais, não podiam tratar dessa temática, porque isso não caía no gosto das pessoas, isso era colocado como algo vexatório". Nós abordamos esse assunto na reportagem PESQUISA DA UFU ANALISA CENAS HOMOERÓTICAS NA LITERATURA BRASILEIRA

É aí que entram as revisões do cânone. "O que as teorias contra-hegemônicas vão propor é a necessidade de se estudar a literatura desses sujeitos, percebendo que o cânone ocidental foi montado a partir da escritura de escritores brancos, na maior parte europeus, cristãos, heterossexuais e de renda alta ou média, pertencentes a uma certa classe que tinha a cara de uma burguesia. Todo o restante vai ser jogado para debaixo do tapete, como se não fosse necessário estudar esses sujeitos", afirma Camargo.

Foram dois anos de trabalho para a produção do livro Revisões do cânone, que debate e revisa conceitos-chave da teoria literária, como mimese, escrita de mulheres, escrita e diáspora, teoria queer, autoficção e literatura de minorias. O objetivo dos autores é possibilitar aos leitores o contato com conceitos que podem ser utilizados para produzir olhares mais diversificados sobre o objeto literário. 

Os ensaios foram escritos por pesquisadores dos grupos de trabalho A mulher na literatura e Homocultura e linguagens, vinculados à Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll). Camargo destaca que o grupo A mulher na literatura, criado em 1984, é o mais antigo da Anpoll, e isso demonstra a importância das feministas para fazerem os estudos que quebram com a ideia de um cânone regulado pela escritura masculina. O grupo Homocultura e linguagens está na Anpoll desde 2012 e já foi coordenado por Camargo. Segundo o professor, o grupo estuda as relações entre literatura e as "dissidências sexuais", ou "todas as letras do arco-íris, LGBTQIA+". 

 

'Revisões do cânone' foi publicado pela editora O Sexo da Palavra. (Foto: Divulgação)

 

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