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08/10/2021 - 14:32 - Atualizado em 13/10/2021 - 14:08
Como a alimentação impacta o tratamento contra o câncer de mama?
Pesquisadoras escrevem, na seção Leia Cientistas, especial do Outubro Rosa, sobre a relação do horário de comer e da frequência alimentar ao longo do dia com a qualidade da dieta e consumo energético diário em pacientes
Por: 
Portal Comunica UFU
Por: 
Mariana Tavares Miranda Lima* e Yara Cristina de Paiva Maia**

 

Foto: Freepik

Estudos recentes têm sugerido que o horário em que realizamos as refeições, assim como o número de vezes em que nos alimentamos ao longo do dia, podem estar relacionados com impactos negativos na saúde, como o surgimento de doenças metabólicas, obesidade e aumento no risco de desenvolvimento de câncer, como, por exemplo, o câncer colorretal e de cólon. O estudo dessas variáveis integra um tema relativamente novo, denominado crononutrição, que propõe que os nutrientes ou o horário das refeições podem interferir na regulação das funções biológicas do nosso corpo em um ciclo de 24 horas. 

Uma pesquisa que nós – Mariana Tavares Miranda Lima, sob orientação da professora Yara Cristina de Paiva Maia – desenvolvemos no Grupo de Pesquisa em Biologia Molecular e Nutrição (BioNut) e no Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde (PPCSA), da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), avaliou mulheres sobreviventes ao câncer de mama submetidas à terapia hormonal com tamoxifeno, que é uma classe de medicamentos que tem como objetivo evitar a recorrência (ou seja, a volta) do câncer de mama e que está associado a diversos efeitos adversos negativos, incluindo obesidade. 

O objetivo da pesquisa foi associar o horário e o número de refeições ao longo do dia com características do consumo alimentar, excesso de peso e de gordura corporal nestas mulheres. A pesquisa teve colaboração da doutora Isis Danyelle Dias Custódio, da doutoranda Fernanda Silva Mazzutti Nunes e da nutricionista Kamila Pires de Carvalho e contou com a parceria de importantes pesquisadores, como Cibele Aparecida Crispim, Paula Philbert Lajolo Canto e Carlos Eduardo Paiva (Barretos Cancer Hospital).

Neste estudo, avaliou-se o horário e o número de refeições diárias de 84 mulheres atendidas no Hospital das Clínicas (HC/UFU), sendo que parte delas ainda continua a terapia hormonal neste hospital devido à recomendação de utilização prolongada do tratamento. Dentre os resultados, foi observado que realizar o café da manhã e o jantar mais cedo foi associado com uma melhor qualidade geral da dieta e, especificamente, com um maior consumo de alimentos nutricionalmente importantes, como as frutas e os vegetais. 

Além disso, o horário mais cedo do jantar foi associado com um menor consumo de energia ao longo do dia. Interessantemente, os autores deste estudo também verificaram que as mulheres classificadas com sobrepeso e obesidade, de acordo com o Índice de Massa Corporal, relataram menor consumo energético para a refeição café da manhã, quando comparadas às mulheres classificadas como saudáveis em relação ao peso corporal. As mulheres que relataram um maior número de episódios alimentares diários também foram associadas com uma melhor qualidade geral da dieta, mostrando um maior consumo de frutas e um menor consumo de sódio.

A literatura tem sugerido que populações que seguem um padrão de alimentação de maneira que concentram a maior parte das calorias ingeridas durante o dia têm um padrão de saúde melhor. O café da manhã, especialmente, tem sido considerado uma refeição importante para o consumo diário de nutrientes e para a qualidade geral da dieta. 

Considerando que a obesidade e as escolhas alimentares não saudáveis são importantes fatores modificáveis ​​para o desenvolvimento e recorrência do câncer de mama e que, além disso, a obesidade está associada tanto à terapia hormonal com tamoxifeno como com o horário tardio da alimentação e menor frequência alimentar diária, sugere-se a inclusão dessa abordagem nas diretrizes nutricionais em pacientes com câncer de mama submetidas à tratamentos como a terapia hormonal com tamoxifeno, considerando o impacto adverso na saúde dessas mulheres. De acordo com o nosso conhecimento, nenhum outro estudo até o momento investigou a relação do horário e da frequência alimentar diária com resultados em saúde nessa população.

 

*Mariana Tavares Miranda Lima possui graduação em Nutrição pela Universidade Federal de Uberlândia (2014). Mestre (2017) e doutora (2021) em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia. Membro do grupo de estudos em Biologia Molecular e Nutrição (BioNut). Desenvolve pesquisas na área de avaliação do consumo alimentar, estado nutricional, crononutrição e câncer de mama.

 

**Yara Cristina de Paiva Maia é professora associada e pesquisadora da Universidade Federal de Uberlândia, com participação e desenvolvimento de projetos de pesquisa aplicados às doenças humanas e infecciosas, com ênfase na biologia molecular e nutrição. Atualmente é a coordenadora do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde (PPCSA). Atua principalmente nas seguintes áreas: oncologia molecular, phage display no mapeamento de peptídeos ligantes a diversos alvos; câncer de mama. Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Biologia Molecular e Nutrição (BioNut). Pesquisadora do INCT em Teranóstica e Nanobiotecnologia (INCT-TeraNano).

 

A seção "Leia Cientistas" reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao. Se você já enviou o seu texto, aguarde que ele deve ser publicado nos próximos dias.

 

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