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15/09/2022 - 10:05 - Atualizado em 16/09/2022 - 17:36
Recherche: uma nova experiência literária da obra de Marcel Proust
Primeiro texto da série 'Leia Cientistas - Especial TCC' é do curso de Design
Por: 
Portal Comunica UFU
Por: 
Rita Solimani e Cristiane Alcântara*

Projeto impresso e finalizado. (Foto: Rita Solimani)

 

Projeto impresso e finalizado. (Foto: Rita Solimani)

 

O contexto do projeto “Recherche”

A partir da obra monumental do escritor francês Marcel Proust (1871-1922), “Em Busca do Tempo Perdido” (À la Recherche du Temps Perdu), eu, Rita Solimani, e minha orientadora, Cristiane Alcântara, produzimos, para um trabalho de conclusão de curso (TCC), apresentado no curso de Design da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o projeto de Design Editorial denominado “Recherce”. Com o objetivo de promover uma nova experiência literária através de recortes e trechos retirados durante toda a história, o projeto é voltado para os leitores e colecionadores de Proust que buscam uma nova experiência literária de sua obra. 

Por ser uma obra cíclica e com uma temática bastante temporal, essa nova experiência foi feita, também, por meio da fisicalidade do livro: uma concertina (livro em dobras, contínuo, uma lâmina, tamanho livre, possui outros nomes como: leporello) contendo em si os recortes de texto e projeto gráficos dos sete livros, cada um com suas particularidades, mas mantendo a coerência e ligação entre eles. Uma colcha de retalhos que, juntas, formam a obra completa do “Em Busca do Tempo Perdido”.

 

Projeto impresso e finalizado. (Foto: Rita Solimani)

 

Projeto impresso e finalizado. (Foto: Rita Solimani)

 

O projeto e seus referenciais teóricos

Por ser um trabalho/projeto de cunho acadêmico, utilizou-se de dois importantes nomes para os referenciais teóricos: o autor Stéphane Mallarmé e o filósofo, ensaísta, crítico literário (inclusive da própria literatura de Proust) e tradutor alemão, Walter Benjamin.

Mallarmé promoveu uma verdadeira inovação no que se refere às novas maneiras de compreender o livro em sua estrutura física e o modo de leitura e escrita que ali irão se inserir; enxergava o livro como uma ampliação total da letra. A escrita ali não seria apenas uma maneira de informar, mas sim de expressar um conceito e estar intrinsecamente ligada à fisicalidade do livro. Dessa forma, pensando, primeiramente, na nova experiência literária a partir da fisicalidade de uma concertina, ou seja, o próprio formato, percebe-se que ela reflete, perfeitamente, uma das grandes essências do “Em Busca..” , que é a sua linha do tempo (ainda que a história seja composta por lembranças), e, simultaneamente, por ser uma obra cíclica (o fim do último livro se liga ao começo do primeiro), não há um princípio, nem um fim certo.

Além disso, é interessante retomar que o livro proporcionará uma nova experiência “sensitiva, poética e conceitual” ao espectador/leitor. Ao compreendermos esse novo papel do leitor ativo na obra, observa-se que o livro poderá ser experimentado mais intensamente e de uma maneira bastante pessoal e introspectiva através de seu repertório. 

 

“Na realidade, todo leitor é, quando lê, o leitor

de si mesmo. A obra não passa de uma espécie

de instrumento óptico oferecido ao leitor

a fim de lhe ser possível discernir o que, sem

ela, não teria certamente visto em si mesmo.”

(Proust, O Tempo Redescoberto).

 

O segundo referencial usado foi os escritos de Walter Benjamin. O  mesmo publicou importantes livros e ensaios no que concerne sobre os fenômenos urbanos, culturais e econômicos nas cidades europeias durante a modernidade. O autor trata de uma figura interessante na literatura incorporada pelo poeta Charles Baudelaire: o flâneur, criatura curiosa que vagueia pelas ruas e boulevares contemplando a cidade. 

Como se sabe, Benjamin foi leitor, tradutor e crítico da literatura de Marcel Proust, e em dois dos seus livros sobre sua cidade natal, Berlim, percebemos essa grande influência do gosto pelas formas do urbano, a sua descritividade e o olhar muito atento aos acontecimentos do seu entorno. Assim, podemos referenciar Marcel (aqui, o narrador de “Em Busca do Tempo Perdido”) como um flâneur e observador anônimo de seu próprio contexto. 

Segundo Menezes (2003), os símbolos e marcos urbanos, quando associados aos costumes cotidianos, funcionam como referência na criação do texto memorialístico. Tal qual no texto de Proust, a cidade fictícia de Combray, onde o narrador passa a infância e retorna algumas vezes quando adulto, é um lugar de referência para muitas reflexões e lamentações sobre a passagem do tempo. Assim, essa Paris efervescente da época (final do século XIX e início do século XX), o seu contexto urbano, as soirées e relações sociais, a primeira guerra, a cultura e arte daquele momento, serviram como pano de fundo para o projeto editorial.Dessa maneira, os cenários e toda a visualidade e descritividade própria de Proust como escritor foram usadas como um norte durante todo o projeto. Cada um dos sete livros que compõem a obra total possuem suas particularidades, momentos vividos pelo narrador, e temas universais abordados de diversas maneiras; então, para respeitar e transmitir a essência de cada volume, a decisão projetual de unificar e proporcionar coerência à todos os recortes retirados do livro foi justamente se basear no olhar observador anônimo de flâneur do narrador.

 

A escolha do tema

Nesta parte do trabalho, eu, Rita,  gostaria de discorrer, brevemente, sobre a minha experiência e trajetória ao ler Marcel Proust, e também contar, de maneira pessoal e sensível, sobre o contexto em que tal leitura se deu. 

Meu interesse por literatura, especialmente, a literatura clássica, começou no ensino médio e se entendeu até aos meus atuais anos como universitária, quando, ao entrar para o Grupo de Estudos do Livro (GEL) e cursar a disciplina de design editorial, percebi que poderia unir a paixão pelos livros à minha futura profissão: o design. 

Durante a pandemia, em meados de maio de 2020, já conhecendo o autor francês, comecei a pesquisar mais sobre sua monumental obra. Logo, houve uma identificação muito pessoal com a história; o contexto, o próprio narrador Marcel, e as questões filosóficas abordadas nos livros. Afinal, a sensação constante de tempo perdido e não vivido durante o isolamento era muito pertinente para mim naquele momento. Percebi, então, que seria extremamente enriquecedor usar a obra para o meu trabalho de conclusão de curso, tanto pelo seu valor literário, quanto por minha identificação pessoal.

Por ser uma leitura complexa e com livros muito extensos, decidi, junto à minha orientadora, que leria os sete volumes com calma. E lendo, aproximadamente, um por mês, foi suficiente para a finalização da leitura de todos os livros. Desse modo, passei boa parte do primeiro ano pandêmico mergulhada no universo proustiano: a Paris da época, os personagens interessantíssimos e cheio de camadas, a descrição de lugares e festas; afinal, a recherche (busca) por esse tempo perdido não era apenas do narrador, era minha também.

 

A edição lida por mim, Rita Solimani. (Foto: Rita Solimani)

 

A criatividade 

Quando demos início à etapa de criatividade do projeto Recherche, pensamos em três aspectos criativos: a estrutura do livro, o conteúdo e os elementos editoriais que iriam compor o projeto (exemplo: layout/diagramação, fotografias, grafismos etc). 

 

Estrutura 

A decisão pelo formato concertina para o livro foi baseada na própria essência da obra de Proust como um todo: é uma história cíclica com uma linha temporal, onde o final do sétimo e último livro se conecta com o começo do primeiro (em ambos o narrador está já com meia-idade). Assim, a concertina contínua possui um formato que suporta e transmite essa linha temporal, tendo em sua estrutura uma continuidade, e ainda assim, algo de cíclico e infinito.

Além disso, é interessante comentar que pensamos, para o verso dessa concertina, uma espécie de fundo levemente opaco, com recortes de uma ilustração da imagem do autor, feita pela artista Isabella Campos, junto à uma sobreposição de imagem do manuscrito de Proust; por cima disso, uma linha do tempo que trará os anos em que cada livro foi lançado e seus respectivos títulos.

Ressaltamos que essa linha do tempo se estenderá até a frente da última página da concertina (sétimo livro), assim como a imagem do manuscrito do autor e a ilustração do mesmo, mas, desta vez, completa.

Projeto impresso e finalizado. (Foto: Rita Solimani)

 

Projeto impresso e finalizado. (Foto: Rita Solimani)

 

Conteúdo 

Por ser uma nova experiência literária, optamos por utilizar apenas recortes dos conteúdos dos livros. Durante os setes meses da minha leitura pessoal, fui marcando os trechos que achava mais interessantes, já pensando em seu futuro uso no novo projeto editorial. Assim, esses recortes possuem a característica da minha própria curadoria como leitora de Proust e da minha visão pessoal de cada uma das sete obras.

 

Elementos editoriais 

Como uma ferramenta criativa para auxiliar na composição dos elementos editoriais, foram feitos dois moodboards com diversas imagens de livros da época, assim como ilustrações, capas e fotos antigas em preto e branco.

 

Moodboard com referências de livros antigos. (Foto: Rita Solimani)

 

Moodboard com referências de fotografias em preto e branco. (Foto: Rita Solimani)

 

A sobrecapa e o título

É interessante falar que também foi pensada uma sobrecapa que, ao mesmo tempo que possuísse uma função de suporte e proteção para a concertina (especialmente para quando estiver na estante do leitor), fosse, também, um elemento de linguagem e estética para o projeto como um todo. Cada uma das orelhas da sobrecapa se encaixam nas primeiras e últimas páginas da concertina, ligando o final do último livro ao início do primeiro, e assim, formando o ciclo da obra de Proust.

O título escolhido, “recherche”, na sua tradução do francês para o português significa busca ou pesquisa,  é um apelido dado à obra de Proust, por seus leitores mais íntimos, que também simplifica o título geral que é muito comprido. Assim, pensando neste projeto exposto nas livrarias, é certo que esse título atrairia o público-alvo do projeto, visto que os leitores reconheceriam a recherce que despertaria sua curiosidade.

 

Projeto impresso e finalizado. (Foto: Rita Solimani)

 

Projeto impresso e finalizado. (Foto: Rita Solimani)

 

Projeto impresso e finalizado. (Foto: Rita Solimani)

 

Projeto impresso e finalizado. (Foto: Rita Solimani)

 

Por fim

Enfim, após todo esse processo de leitura, estudo e muita criatividade para a feitura da nova experiência literária da obra de Proust, como pesquisadora, cheguei a algumas conclusões. 

Academicamente falando, o projeto obteve êxito em produzir uma nova experiência literária de seus livros, possuindo como público-alvo leitores conhecedores de toda a obra. Além disso, observou-se que, estruturalmente, a concertina foi o formato ideal de suporte para os conteúdos e a composição, contribuindo para o conceito intrínseco de ciclo e continuidade presente em toda a obra.

Entretanto, o mais importante foi perceber a importância de novas experiências e formas de leitura, que no caso deste projeto, se deu através do formato e da curadoria do conteúdo textual, o que permite, além do estímulo a leitura, a valorização e imortalização da cultura literária no Brasil e em todo o mundo.

 

*Rita Solimani é designer e pesquisadora do Grupo de Estudos do Livro (GEL), do curso de Design da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Cristiane Alcântara é professora do curso de Design da UFU. Doutora pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisa o Design Editorial voltado para o livro.

 

 
A seção "Leia Cientistas" reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao. Se você já enviou o seu texto, aguarde que ele deve ser publicado nos próximos dias.

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