Publicado em 02/12/2025 às 14:49 - Atualizado em 08/12/2025 às 11:06
Uma pesquisa realizada por um grupo de ciêntistas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) identificou aumento nos casos de baixo peso ao nascer, em Uberlândia (MG), entre 2018 e 2023. O novo levantamento registrou prevalência de 10,89%, maior do que o índice encontrado no estudo anterior, referente ao período de 2012 a 2016, quando o valor era de 9,61%. O resultado coloca Uberlândia acima da média nacional e acende um alerta para a saúde pública do município.
Segundo a equipe responsável, existem diversos fatores que explicam o aumento desse índice. No primeiro estudo, foram identificados elementos como idade materna mais jovem, baixa escolaridade, poucas consultas de pré-natal, doenças maternas e vulnerabilidade social. Já no levantamento mais recente, o perfil mudou: a maior parte das mães tinha 30 anos ou mais, e houve um aumento de gestações múltiplas, além de alto índice de cesarianas e persistência de questões socioeconômicas. “A gente viu que as características mudaram, mas os riscos continuam presentes”, afirma Karina do Valle, docente da Faculdade de Medicina (Famed/UFU), responsável pela pesquisa.
A investigação também analisa a relação entre a poluição do ar e o baixo peso ao nascer, já que o grupo faz parte de uma rede de estudos sobre impactos ambientais na saúde. Embora Uberlândia não esteja entre as cidades mais poluídas do país, a docente explica que a exposição a partículas atmosféricas pode interferir no desenvolvimento fetal. “Uma mãe grávida caminhando perto de rodovias em horários de grande fluxo respira toda aquela poluição, e isso pode ser um fator determinante para o baixo peso”, destaca.
Os pesquisadores observaram ainda que bebês do sexo feminino são os mais afetados. A professora explica que, biologicamente, em contextos de estresse ambiental, como mudanças climáticas ou aumento de poluentes, costuma nascer um número maior de meninas. Apesar disso, o baixo peso pode ter efeitos prolongados. “Crianças que nascem abaixo do peso podem apresentar atraso no desenvolvimento neural. O córtex cerebral pode não estar totalmente formado, o que aumenta o risco de transtornos neurodivergentes, como autismo e TDAH”, afirma.
A pesquisa também analisou o impacto da pandemia de covid-19 no período. Os dados indicam um aumento nos casos de baixo peso entre 2019 e 2020, seguido de estabilização. Para a equipe, as mudanças no acesso ao pré-natal e os efeitos sociais da pandemia podem ter contribuído.
A professora ressalta a importância dos cuidados durante a gestação para reduzir o risco. Consultas de pré-natal regulares, acompanhamento nutricional e monitoramento de doenças maternas (como diabetes gestacional e pré-eclâmpsia) são fundamentais. “Não adianta só ter o acompanhamento médico se a mãe não consegue se cuidar. Às vezes há uso de muitos medicamentos, depressão, doenças prévias. Tudo isso influencia”, explica.
Para os bebês que já nascem com baixo peso, os cuidados variam conforme o grau de prematuridade. Muitos precisam permanecer no hospital até atingir estabilidade. Depois da alta, o acompanhamento nutricional e pediátrico é essencial para monitorar crescimento, ganho de peso e desenvolvimento do encéfalo.
Sem financiamento externo, o estudo envolveu nove estudantes na etapa mais recente e integra o Laboratório de Estudos Epidemiológicos em Medicina (LabMed), que hoje reúne mais de 40 pesquisadores em diferentes linhas de investigação. A pesquisa serve como base para novos estudos que pretendem cruzar dados sobre cordão umbilical, tecido neural e condições maternas.
Para a docente, os resultados reforçam a necessidade de ações imediatas. “Uberlândia precisa urgentemente de políticas públicas voltadas para o pré-natal, para conscientizar sobre o risco das cesáreas realizadas antes do tempo e para reduzir a exposição à poluição”, afirma.
Mesmo com o porte da cidade, a taxa elevada preocupa. “Grande parte das crianças está nascendo com baixo peso, e isso pode impactar toda uma geração. O desenvolvimento fetal define muito do que a criança será após o nascimento”, completa.
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Palavras-chave: Ciência Famed LabMed Medicina nascimento maternidade
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