Publicado em 13/03/2026 às 13:34 - Atualizado em 13/03/2026 às 14:49
O Dia Nacional de Luta contra a Endometriose, celebrado em 13 de março, tem como objetivo gerar conscientização para a doença crônica, ampliando o debate sobre saúde feminina. Em janeiro deste ano, a médica Ana Tereza Falci defendeu seu trabalho de conclusão de residência em Ginecologia e Obstetrícia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), orientada por Marcela Souza Carneiro. A pesquisa investiga a relação entre irregularidades do trato genital feminino, chamadas de malformações mullerianas, e o surgimento da endometriose, destacando a importância do diagnóstico precoce.A exigência de atenção médica para o assunto é um ponto importante do estudo de Falci. Ela destaca que, muitas vezes, os sintomas relatados por mulheres são negligenciados. O caso de uma paciente de 41 anos que recebeu um diagnóstico tardio foi uma das principais motivações para a pesquisa: “Eu vi a luta e o sofrimento dessa paciente por causa das consequências. Se tivesse sido diagnosticada mais no início, a gente teria tido mais facilidade e menos complicações no tratamento”.
O que são malformações mullerianas?
As chamadas malformações mullerianas são alterações que surgem ainda durante o desenvolvimento do feto. Falci explica que, durante a formação do organismo, estruturas conhecidas como ductos de Müller são responsáveis pela origem do útero, das trompas e da parte superior da vagina. “Quando essa formação não acontece de forma adequada, a gente tem alterações anatômicas desses órgãos. Às vezes, a mulher não tem a parte de cima da vagina, às vezes ela tem uma ausência do útero ou então alterações uterinas”, completa.
Essas alterações, muitas vezes, acabam passando despercebidas por anos. Um dos motivos para isso, segundo Falci, é o uso de exames mais simples, que não são capazes de identificar essas malformações. “Às vezes, você vai precisar de um exame mais complexo, como a ressonância nuclear magnética”, explica.
A relação com a endometriose
A endometriose é uma doença inflamatória crônica na qual o endométrio, tecido que reveste o útero, cresce fora da cavidade uterina. A pesquisadora explica que a forma mais aceita de explicar o surgimento da doença é a chamada Teoria da Menstruação Retrógrada, de Sampson. “A menstruação volta pelas tubas [uterinas] e cai na cavidade abdominal”, completa.
Quando existem malformações que dificultam ou bloqueiam a saída da menstruação, pode ocorrer o sangramento menstrual em órgãos pélvicos ou até abdominais, o que caracteriza a endometriose e gera dores intensas nas pacientes.
Sentir dor é normal?Essa dor pélvica crônica é um dos principais sinais, tanto das malformações quanto da endometriose. No entanto, Falci relata que muitas mulheres convivem com esses sintomas por anos sem receber um diagnóstico adequado.”O que acontece, na maioria das vezes, é que a gente subestima os sintomas das mulheres”, explica.Embora cólicas menstruais sejam comuns, a intensidade e o impacto da dor devem ser observados com atenção. Quando o desconforto começa a afetar atividades do dia a dia, como trabalho, estudos ou a própria qualidade de vida, é um sinal de que a situação precisa ser investigada. “Isso não pode ser considerado normal”, destaca.
Falci também chama atenção para fatores culturais que contribuem para a naturalização da dor feminina. “A gente é levada a acreditar que tem que aceitar esse tipo de coisa durante a nossa vida, porque a mãe teve, a avó teve, mas provavelmente elas tinham algum problema também”, completa.Impactos do diagnóstico tardioA presença das malformações no trato reprodutivo podem ser identificadas por meio de alguns sintomas que, quando não tratados, resultam em complicações mais graves. A piora progressiva da dor pélvica, dor na relação sexual e alterações menstruais são algumas indicações dessas obstruções do fluxo menstrual.Quando essas condições não são investigadas, o quadro pode evoluir e provocar impactos em outros órgãos do corpo. “O pior é a progressão dos focos de endometriose, causando mais dor e mais repercussões, que podem ser urinárias ou intestinais”, explica Falci.Além dessas complicações, o impacto na fertilidade da mulher é um ponto de destaque para a pesquisadora. É preciso, então, investigar com cautela as dificuldades em engravidar, como abortos espontâneos em repetição. “Muitas vezes a gente acaba diagnosticando mulheres que passaram a vida inteira tentando engravidar, então se perde muito tempo importante para trabalhar a fertilidade dessas pacientes”, destaca.
Informação e acolhimentoFalci afirma que ampliar o acesso à informação é fundamental para que mais mulheres reconheçam sinais de alerta e busquem investigação médica. “Hoje em dia a gente tem informações maiores, a gente discute, mas justamente isso, no nosso meio”, explica.
Além da importância da conscientização direcionada às pacientes, a médica destaca que ainda é necessário uma mudança dentro do meio profissional. “Também é fundamental treinar os profissionais de saúde para acolher essas pacientes e valorizar essas queixas”, completa.
Formada em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em 2018 e com experiência como médica da família, Falci agora finaliza seus três anos de residência e pretende montar uma clínica que atenda as necessidades femininas em todas as fases da vida: “Tudo focado na melhora da qualidade de vida da mulher. Um pré-natal humanizado, com acolhimento correto das gestantes, e também o segmento das mulheres pós-menopausa, que ainda é muito muito renegado”.
O trabalho de conclusão de residência de Ana Tereza Falci pode ser encontrado no Repositório Institucional da UFU. Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.
Palavras-chave: ginecologia obstetrícia Ciências Biológicas Medicina endometriose
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