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Ciência

Como é o atendimento médico em hospitais de ensino?

Pesquisa realizada com pacientes do Hospital de Clínicas da UFU aponta avaliação positiva e identifica fatores determinantes

Publicado em 11/05/2026 às 08:55 - Atualizado em 11/05/2026 às 14:37

Integrados ao Sistema Único de Saúde (SUS), os hospitais universitários são uma forma de democratizar o acesso ao atendimento médico e formar novos profissionais. (Foto: Freepik)

 

Em meio a desafios recorrentes da valorização das universidades públicas, a qualidade do atendimento médico em hospitais de ensino ainda é colocada em questionamento. Essa percepção foi o que incomodou Laura Mateus Borges, médica formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que decidiu investigar como os próprios pacientes do Hospital de Clínicas (HC-UFU)  avaliam suas experiências. “Existe um preconceito cultural de que o serviço dos hospitais de ensino seria pior pela presença dos estudantes”, afirma a atual residente em Medicina de Família e Comunidade na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

O estudo, publicado em abril na Revista Brasileira de Educação Médica, analisou a percepção de 173 pacientes atendidos no HC-UFU por meio de questionários e revelou que a aprovação é da grande maioria, com 93% dos entrevistados classificando o atendimento como “bom” ou “excelente”. A revista é classificada como A1, o nível mais alto de avaliação da produção científica brasileira de acordo com o sistema Qualis da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Coordenado por Borges, o projeto contou com a atuação das pesquisadoras Giovanna Morais Simões Alves, Louise Verônica Garcia Péres e Paula Hanada, assim como a orientação do professor Wallisen Tadashi Hattori e Marília Martins Prado Bonini. Além da apresentação dos dados, o estudo identificou elementos que impactam diretamente na qualidade do atendimento médico com a presença de estudantes de Medicina.

 

Equilíbrio entre ensino e assistência

O tempo necessário para o processo de aprendizado muitas vezes entra em conflito com a ideia de um atendimento médico ideal. Borges explica que a prática da medicina pode ser atravessada por metas de produtividade que nem sempre encaixam na dinâmica de ensino: “Existe uma pressão assistencial sobre os serviços de saúde”.

Segundo a pesquisadora, os hospitais de ensino são importantes por permitirem que o atendimento seja feito dentro das necessidades do aprendizado. Borges relata que, na época em que era estudante de Medicina, tentava realizar consultas médicas em ritmo acelerado e terminava o dia sem ter aprendido muita coisa.“Sem ter a pressão de se comunicar rápido, você consegue ter uma escuta muito melhor”, explica.

A relação com o paciente, segundo a orientadora Bonini, depende, principalmente, da disposição do profissional de ouvir e conversar por meio de uma linguagem adequada e acessível. “Em muitos casos, a qualidade da comunicação é mais determinante para a experiência do paciente do que o próprio conteúdo técnico da consulta”, completa.

 

Percepção dos pacientes
Fachada do Hospital de Clínicas da UFU
Questionário usado na pesquisa avaliava espaço físico, características da equipe e sensação de acolhimento do ambiente hospitalar. (Foto: Milton Santos)

Na pesquisa feita no HC-UFU, alguns fatores se destacam pela forma que impactam a experiência das consultas médicas. Borges aponta que grupos pequenos de alunos nas consultas devem ser priorizados, pois facilitam o vínculo com o paciente e evitam possíveis constrangimentos. “Se apresentar, explicar quem é, o que vai fazer, tudo isso é importante também”, explica.

A presença do preceptor, profissional experiente que supervisiona as interações entre estudantes e pacientes, também apareceu como um ponto importante. Bonini explica que, muitas vezes, quem está sendo atendido acaba sendo excluído do diálogo quando há discussões técnicas: “A supervisão do preceptor é indispensável, mas não deve comprometer a naturalidade da interação com o paciente”. A clássica aula “à beira do leito”, em que os estudantes apresentam os casos aos seus preceptores na frente do paciente, também é apresentada como uma dinâmica que pode causar constrangimento. 

O estudo também identificou diferenças entre áreas do hospital. Atendimentos em Ginecologia e Obstetrícia apresentaram avaliações mais positivas, enquanto contextos como a Cirurgia Geral tiveram resultados mais baixos, associados a situações de dor, urgência e menor tempo para comunicação. “Não se trata apenas da especialidade, mas das condições em que o cuidado ocorre”, explica Bonini.

 

Novos caminhos para a formação médica

Borges explica que, na última década, as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Medicina valorizam os aspectos éticos e humanos do aprendizado da profissão. Destacando a necessidade da empatia em serviços de saúde, a pesquisadora explica que a boa relação com os pacientes não é um talento, “é uma habilidade treinável e que precisa ser treinada”.

Bonini reforça que um currículo centrado apenas em aspectos técnicos é insuficiente para a prática médica: “Não basta saber diagnosticar e tratar”. Segundo a docente, fatores como escuta qualificada, linguagem acessível e respeito à autonomia do paciente são elementos que contribuem para um cuidado mais efetivo, maior adesão ao tratamento e, consequentemente, maior satisfação dos pacientes.

Os resultados do estudo destacam positivamente o atendimento do Hospital de Clínicas da UFU, mas abrem novas possibilidades de investigação. “Será que esse resultado permanece em outros hospitais universitários?”, Borges exemplifica. Além disso, aspectos de gênero na comunicação clínica estiveram presentes nos dados da pesquisa, abrindo novas possibilidades de aprofundamento: “Alunas meninas são melhor avaliadas do que os meninos. O que na comunicação dos homens gera isso?”.

Realizada antes da reestruturação recente do Hospital de Clínicas da UFU, Borges destaca a importância dos avanços para a instituição e para a população atendida, e aponta que a pesquisa pode indicar um cenário ainda mais favorável se refeita atualmente. “Estudantes de medicina não atrapalham o atendimento. Se os hospitais públicos estão sendo atacados por algum motivo ou por outro, é essencial que a ciência esteja sempre rebatendo esses argumentos”, completa.

A pesquisa completa está disponível na Revista Brasileira de Educação Médica.

 

 

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Palavras-chave: saúde Hospital de Clínicas hospitais de ensino Medicina SUS

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