Publicado em 22/05/2026 às 16:59 - Atualizado em 22/05/2026 às 17:56
A trajetória de uma família marcada pela migração, pelo apagamento das ancestralidades indígenas e pelos impactos da expansão cafeeira no interior paulista se transforma em cena no trabalho desenvolvido por Mara Leal, docente do Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia (Iarte/UFU) e atual coordenadora do curso de Teatro. “No caminho do Tamanduá" - obra que será apresentada no próximo dia 30 de maio, às 19 horas, no palco do espaço Uai Q Dança - nasce de uma pesquisa autobiográfica que mistura documentos, relatos familiares e procedimentos do teatro documentário para discutir memória, violência colonial e identidade.
Segundo Leal, a investigação começou a partir de um interesse pessoal em compreender os silenciamentos presentes dentro da própria família. “Eu queria pesquisar o apagamento da ancestralidade indígena na minha família, que é um tema muito relacionado a esse apagamento que acontece na sociedade”, explica. A artista conta que já trabalhava há anos com criação cênica baseada em material autobiográfico, mas que os relatos fragmentados sobre as origens indígenas despertaram a necessidade de aprofundar a pesquisa.
Para construir a obra, a pesquisadora utilizou ferramentas do teatro documentário, como o Biodrama, que ´é uma linguagem criada pela diretora argentina Vivi Tellas. “O teatro documentário vai se desenvolver a partir de documentos reais, depoimentos, registros fotográficos, vídeos. O biodrama é um tipo de teatro documentário que trabalha com pessoas e histórias reais como matéria-prima para a cena", comenta.
Apesar da forte relação com a própria trajetória familiar, Leal destaca que o trabalho não busca reproduzir a realidade de forma literal. “Tudo que vai para a cena é ficcional. A partir do momento que você escreve e leva isso para o palco, já é uma releitura dos acontecimentos vividos”, ressalta. Ainda assim, ela optou por manter o chamado “pacto biográfico” com o público, deixando evidente a origem documental e autobiográfica da narrativa.
Ao longo da pesquisa, a questão da migração familiar acabou ganhando força e se tornando central na dramaturgia. A artista passou a investigar registros de cartório, cidades de origem da família e relatos da mãe e de outros parentes. “Eu fui percebendo justamente o impacto que a marcha do café e, com ele, as construções das estradas de ferro interior de São Paulo especificamente no Oeste Paulista onde minha família morou”, conta.
Foi nesse processo que ela se deparou com a violência sofrida pelos povos indígenas da região, especialmente o povo Kaingang. “Houve um processo muito violento de assassinato e expulsão do povo Kaingang do Oeste Paulista”, afirma. Na avaliação da docente, sua pesquisa evidencia que os efeitos da colonização não pertencem apenas ao passado distante: “Não é algo que aconteceu só no início da colonização. Há 100 anos isso ainda estava acontecendo e, em alguns lugares, continua acontecendo hoje.”
A artista escolheu transformar a pesquisa em uma palestra-performance, formato que mistura conferência, narrativa e elementos performáticos. Segundo ela, a escolha surgiu da necessidade de lidar com materiais documentais e memórias familiares sem recorrer à criação de personagens tradicionais. “Eu não tinha interesse em me transformar nessas pessoas da minha família para contar a história”, pondera.
Leal também destaca que o objetivo da obra não é oferecer respostas fechadas, e sim provocar reflexões sobre memória e pertencimento. “Ao narrar a história da minha família, eu não estou falando só de um contexto pessoal. Ele está inserido num contexto social maior, que é a migração, a alta migração que a gente teve, ao longo do Século XX, de pessoas oriundas do campo para a cidade", sublinha.
Por fim, a pesquisadora comenta que o espetáculo, que tem duração de 70 minutos, costuma despertar no público a identificação com histórias familiares marcadas por silenciamentos e violências: “Muitas vezes, é necessário falar sobre isso para entender a dinâmica da nossa sociedade e como esses macroacontecimentos estão entrelaçados com a vida das pessoas.”
Os ingressos custarão R$ 20,00 e serão disponibilizados na bilheteria da Escola de Dança Uai Q Dança, no momento da apresentação. Endereço: Rua Cel. Manoel Alves, 22, Fundinho. Para mais informações, acesse o perfil da Uai Q Dança no Instagram.
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Palavras-chave: teatro apresentação
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