Publicado em 15/06/2026 às 11:56 - Atualizado em 15/06/2026 às 12:38
O mês de junho é mundialmente reconhecido como o período dedicado à conscientização e à intensificação das ações em prol da sustentabilidade, denominado "Junho Verde". Além de debates teóricos ou campanhas sazonais, a preservação ambiental exige respostas complexas, práticas e estruturadas. É nesse cenário que a ciência e a tecnologia assumem um papel fundamental, transformando desafios ecológicos em oportunidades reais de desenvolvimento limpo, eficiente e viável para o planeta.
Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), esse compromisso se faz por meio de um ecossistema de inovação e pesquisa aplicada. Cientistas de diferentes institutos e faculdades dedicam-se à criação de patentes que não apenas mitigam impactos ambientais nocivos, mas também oferecem viabilidade econômica e competitividade para o setor produtivo. Apresentamos a seguir cinco tecnologias inovadoras desenvolvidas na UFU, por intermédio da Agência Intelecto da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propp), que ilustram o potencial da ciência em liderar a transição rumo a um futuro mais sustentável.
1. Síntese verde de nanopartículas de ouro: biossegurança e alta tecnologia
A fabricação tradicional de materiais microscópicos de alta qualidade, especialmente os de ouro, enfrenta um grande problema de segurança e agressão ao meio ambiente. Os métodos comuns dependem de processos químicos industriais que exigem o uso obrigatório de ingredientes artificiais perigosos. A desvantagem desse modelo é a necessidade de monitorar o tempo todo os riscos dessas substâncias tóxicas tanto para a natureza quanto para a nossa saúde.
Como alternativa limpa, uma patente idealizada por Ana Madurro, João Madurro, Pedro Guedes, Jéssica Brussasco, Anna Clara Moço, Dayane Moraes e Bárbara Cunha propõe um método de síntese verde para a obtenção de nanopartículas de ouro. Utilizando um meio que prioriza a biocompatibilidade e a baixa toxicidade, o processo industrial elimina completamente a dependência de estabilizantes puramente sintéticos e agressivos. O método produz partículas microscópicas de alta qualidade. Como elas têm a vantagem de variar de formato, ganham propriedades ideais para conduzir eletricidade e processar sinais visuais em aparelhos eletrônicos.
Essa inovação abre uma importante janela de oportunidade mercadológica na indústria biotecnológica, atendendo à crescente demanda por sensores analíticos miniaturizados, rápidos e de baixo custo. Empresas voltadas para segurança alimentar, bioengenharia e medicina diagnóstica podem absorver essa metodologia para desenvolver nanobiossensores, exames de tomografia computadorizada e terapias por raios X. O resultado é a criação de dispositivos avançados com menor índice de rejeição biológica e de carbono reduzido.
2. Formulações sustentáveis para o controle de bactérias na agricultura
No setor agrícola, a proteção das plantações contra doenças é um desafio constante que ameaça a produção de alimentos essenciais, como soja, tomate, milho, batata e citros. Ataques de bactérias nocivas, como as dos gêneros Xanthomonas, Pseudomonas e Ralstonia, atingem folhas, frutos, caules e sementes, causando grandes prejuízos aos agricultores. A resposta tradicional do mercado costuma ser o uso intensivo de agroquímicos de alta toxicidade, que geram impactos no solo, na água e na saúde dos consumidores.
Para solucionar esse problema, o grupo formado pelos pesquisadores Carlos Ueira, Ana Bonetti, Joberth Corrêa, Ana Carolina Santos, Murillo Silva, Rafaela Cerqueira, Tamiris Rodrigues, Luciana Bastos, Lucas Bernardes e Nilvanira Tebaldi desenvolveu formulações biotecnológicas voltadas especificamente para o combate direto a essas bactérias.
O diferencial da tecnologia é que ela consegue combater vários tipos de bactérias ao mesmo tempo, agindo direto no alvo. O segredo está no uso de partículas microscópicas em formato de cubo, feitas de prata e cloro. Essa estrutura inteligente faz com que os ingredientes sejam liberados no momento certo, atacando diretamente a proteção das bactérias e funcionando muito melhor do que os remédios comuns usados no campo.
A tecnologia surge como uma oportunidade para empresas do setor de agroquímicos e insumos biológicos que buscam alternativas sustentáveis de proteção de cultivos. A eficácia contra múltiplos hospedeiros confere ao produto um mercado massivo, atendendo desde pequenos produtores de legumes até grandes exportadores de grãos. Além disso, por se tratar de uma patente de invenção já estruturada junto à UFU, o ativo está pronto para transferência de tecnologia ou parcerias de licenciamento para escalonamento industrial.
3. Dispositivo inteligente para economia de água e energia em chuveiros
O desperdício de água dentro das residências e estabelecimentos comerciais é uma das principais preocupações da sustentabilidade urbana moderna. O banho diário figura como um dos maiores vilões do consumo doméstico, tanto pelo volume considerável de água potável perdido enquanto o usuário espera o aquecimento do sistema quanto pelo fluxo excessivo durante o banho. Encontrar soluções que reduzam esse consumo sem exigir reformas estruturais complexas nas edificações tem sido um desafio para a engenharia.
A resposta para esse impasse foi desenvolvida por Gustavo Fernandes, Álisson Machado, Matheus Martins e Lucas Barbosa, que criaram um dispositivo externo projetado para trabalhar de forma autônoma. O sistema utiliza sensores de vazão, temperatura e proximidade acoplados a uma central eletrônica e a válvulas que controlam o fluxo de água. A central interpreta os sinais e reduz ou aumenta a vazão da água e a potência da resistência elétrica do chuveiro de forma automática, cortando o fluxo total ou parcial quando o usuário se afasta da área de acionamento.
Compatível também com chuveiros aquecidos a gás ou energia solar, o dispositivo oferece uma oportunidade de mercado e desenvolvimento para fabricantes de automação residencial, equipamentos hidráulicos e elétricos. A crescente busca por eficiência e redução de custos em residências, hotéis e academias confere a este invento um alto potencial de comercialização em massa. O baixo custo de instalação e a aplicabilidade universal a diferentes tipos de chuveiro tornam o consumo consciente uma prática automatizada e acessível.
4. Inteligência Artificial aplicada ao manejo de pastagens
O agronegócio demanda ferramentas de precisão que otimizem o uso da terra e minimizem os impactos ambientais causados pela pecuária. O manejo inadequado de pastagens é um dos principais fatores de degradação do solo e de emissão de gases de efeito estufa no campo. Mas descobrir a quantidade exata de pastagem para planejar o uso correto da terra sempre dependeu de métodos tradicionais de amostragem manual, que são demorados, caros e propensos a erros humanos.
Como resposta tecnológica a esse desafio, os pesquisadores Ivan Perissini, André Santos, André Hernandes, Leandro Barbero, Carlos Grossklaus e Mauricio Igaras desenvolveram um método e sistema de análise e processamento de imagens por meio de software baseado em Aprendizagem de Máquina (Machine Learning). O diferencial inovador da tecnologia está na capacidade do algoritmo de Inteligência Artificial processar fotografias convencionais capturadas por veículos comuns em solo para identificar a área de cobertura vegetal e estimar a massa de forragem. A inovação substitui a amostragem física por um diagnóstico digital rápido e preciso.
Essa patente se apresenta como uma oportunidade de mercado altamente atraente para empresas de Tecnologia Agrícola (AgroTechs), desenvolvedores de softwares de agricultura de precisão e fabricantes de equipamentos de monitoramento. Ao possibilitar uma avaliação ágil da condição das pastagens, a ferramenta permite que o produtor otimize o manejo do rebanho, evite a degradação da terra por superpastoreio e reduza drasticamente os custos operacionais, unindo a sustentabilidade ecológica à lucratividade.
5. Monitoramento automatizado e em tempo real da qualidade da água
A preservação e o cuidado com ambientes de água doce, como lagos, lagoas e grandes reservatórios de usinas hidrelétricas, enfrentam sérios obstáculos devido à precariedade dos métodos tradicionais de monitoramento. Atualmente, a avaliação da qualidade da água depende de coletas manuais pontuais que geram altos custos logísticos e extensas lacunas temporais (geralmente de 20 a 30 dias entre as coletas), inviabilizando uma resposta rápida a desastres ecológicos, contaminações industriais ou aparecimento de algas nocivas.
Desenvolvido pelo pesquisador Márcio Augusto Schmidt, um novo equipamento automatizado supera essas barreiras ao realizar a aquisição de dados contínuos e distribuídos em tempo real. A plataforma reúne vários sensores dentro de um tubo à prova d'água, conectado a uma boia que funciona com energia solar, permitindo medir parâmetros como temperatura, pH, condutividade elétrica, turbidez, vazão e profundidade. O software de controle organiza os dados, transmitindo-os via Wi-Fi ou redes móveis para visualização imediata em mapas online.
Com um design cilíndrico inovador que reduz o arrasto da correnteza, o sistema pode ser configurado para flutuação livre, ancoragem ou distribuição em linha em rios e lagos. A tecnologia possui potencial de aplicação e licenciamento para órgãos governamentais de fiscalização ambiental, companhias de saneamento básico, startups e indústrias de grande escala nos setores de mineração, energia e agroindústria que dependem do monitoramento rígido dos recursos hídricos.
Ao consolidar o desenvolvimento dessas patentes, a UFU reafirma seu papel estratégico no panorama nacional de inovação e sustentabilidade. O portfólio demonstra como a pesquisa acadêmica desenvolvida nos laboratórios não está isolada da sociedade e antecipa as demandas mais urgentes do mercado ao projetar soluções reais que equilibram preservação ecológica e viabilidade econômica.
Acompanhe os trabalhos desenvolvidos na universidade por meio do site da Propp.
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