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CIÊNCIA E SOCIEDADE

Indígenas e pesquisadores constroem programa de estruturação da aldeia Xukuru-Kariri

Língua, saúde e sustentabilidade estão entre os eixos de trabalho das equipes

Publicado em 24/08/2026 às 16:27 - Atualizado em 24/08/2026 às 18:09

Comitiva da UFU e do Ibama visitou a aldeia em abril de 2026 (Foto: Marco Cavalcanti)

 

Uma colaboração entre a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a aldeia Xukuru-Kariri Renascer Wakonã está viabilizando um programa de apoio à comunidade indígena, localizada no município de Presidente Olegário, em Minas Gerais. 

Cerca de 4 mil pessoas da etnia Xukuru-Kariri vivem, atualmente, em três estados: Alagoas, Bahia e Minas Gerais. O grupo de Presidente Olegário é originário de Palmeira dos Índios (AL) e enfrentou sucessivos deslocamentos forçados. Além de séculos de violência, expropriação territorial e políticas de assimilação impostas aos povos indígenas, durante a colonização portuguesa e nas décadas seguintes, os conflitos internos e territoriais agravaram a situação.

Lideradas pela cacica Giselma Ferreira de Brito, 30 famílias originárias da caatinga têm, hoje, o desafio de construir suas vidas no cerrado mineiro, lidando com uma natureza diferente daquela de onde vieram e lutando por infraestrutura e cidadania. A liderança feminina é uma ruptura com os ciclos traumáticos pelos quais essas famílias passaram, refletida na forma como a cacica se organiza com seu povo.

 

Cacica Giselma Ferreira de Brito fala ao grupo de professores, técnicos e estudantes
Cacica Giselma Ferreira de Brito fala ao grupo de professores, técnicos e estudantes (Foto: Marco Cavalcanti)

 

Juntos, indígenas e professores, técnicos e estudantes de diferentes áreas estão elaborando os projetos que compõem o programa, em dias e noites de vivência coletiva na aldeia. A comitiva da UFU e do Ibama visitou a aldeia três vezes no último ano. A última viagem foi em julho, durante a 2ª Assembleia Geral das Mulheres Indígenas de Minas Gerais. 

Nesses encontros, os pesquisadores participam de cerimônias de espiritualidade na mata, dormem nas salas de aula construídas em forma de oca e todos comem juntos no pátio da escola. Jovens e adultos da aldeia analisam os textos apresentados pela UFU e pelo Ibama, sugerindo alterações e acréscimos até deixar os projetos de acordo com a realidade da comunidade. Afinal, eles não são objetos de estudo, são coautores dos trabalhos.

Jornalista de ciência da UFU, cobri a visita de 24 a 27 de abril. A notícia se mostra para a gente nesses casos. Eu vi universidade e sociedade fazendo ciência juntos, desde o primeiro movimento de elaboração dos projetos.

 

De Wakonã ao renascimento

 

Museu preserva história do povo Xukuru-Kariri
Museu preserva história do povo Xukuru-Kariri (Foto: Marco Cavalcanti)

 

Durante a vivência, formaram-se várias rodas, em volta da fogueira ou das refeições, em que a cacica e sua família contavam histórias não lineares, fragmentos que saltavam em milhares de anos e quilômetros, rumo ao passado, ao nordeste e ao agora. A data mais antiga que apurei na tradição oral é 8 mil anos atrás, quando teria vivido o Cacique Wakonã, um ancestral encantado que comandava oito nações na Terra.

Segundo a história contada pela comunidade, os Wakonã seriam os habitantes originários da região de Palmeira dos Índios, até 200 anos atrás, quando teriam chegado outros dois povos, os Xukuru e os Kariri. A literatura histórica e antropológica descreve a formação do povo Xukuru-Kariri como resultado de processos de convivência, deslocamentos e miscigenação entre diferentes grupos indígenas.

O primeiro aldeamento formal contemporâneo foi criado entre 1962 e 1963, na Fazenda Canto, em Palmeira dos Índios, pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), órgão governamental que funcionou no Brasil de 1910 a 1967. Mas uma família acabou expulsa de lá após um conflito interno, que resultou em uma morte. 

A família expulsa refugiou-se na Bahia, inicialmente em Ibotirama e, depois, em Paulo Afonso, onde fundaram uma nova aldeia e permaneceram até o final da década de 1990. Após novos conflitos internos, que culminaram em outra morte, o grupo migrou para Minas Gerais. 

 

Aldeia tem escola construída pela própria comunidade
Aldeia tem escola construída pela própria comunidade (Foto: Marco Cavalcanti)

 

O povo viveu em São Gotardo (MG) por três anos, sem um território próprio, aguardando providências da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Em 2001, eles conquistaram a aldeia Bela Vista, em Caldas (MG). 

Entre o fim de 2017 e início de 2018, após atos de violência especialmente contra mulheres, uma dissidência liderada pela Cacica Giselma e sua irmã Raquel Ferreira de Brito deixou Caldas e deslocou-se para Presidente Olegário. A área de 1490 hectares foi cedida pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) à Funai. 

Cerca de 30 famílias chegaram a uma terra sem infraestrutura, onde viveram inicialmente sob lonas. Desde então, eles criaram a aldeia Xukuru-Kariri Renascer Wakonã, construíram casas e sua própria escola, iniciaram projetos de sustentabilidade e proteção de nascentes. “A gente estava na fase da lei da sobrevivência, agora está na lei da vivência, do viver”, diz a cacica. 

Com o apoio das instituições, os indígenas de Presidente Olegário trabalham de forma coletiva, buscando a sobrevivência material e o fortalecimento espiritual. Eles cultivam lavouras, produzem artesanatos, constroem moradias e atuam na escola da aldeia. 

É um povo que também se dedica aos esportes, inclusive com tradição no futebol. O jogador José Sátiro Nascimento, conhecido como Índio, que atuou como lateral direito no Corinthians de 1998 a 2000, é alagoano Xukuru-Kariri. Na aldeia de Presidente Olegário, há campo de futebol, piscina olímpica em construção e planejamento para receber os Jogos Indígenas em novembro de 2026.

Além da UFU e do Ibama, o grupo tem atuado junto ao Ministério Público Federal (MPF), Justiça Federal, Centro de Justiça Restaurativa (Cejure), Funai, Universidade Federal de Viçosa (UFV) Campus Rio Paranaíba, Centro Universitário UniMG, Freeland e Secretaria de Saúde Indígena (Sesai). O trabalho que está sendo desenvolvido é chamado de programa, por ser um conjunto de projetos que envolvem várias áreas e pessoas. 

 

O programa

 

Jovens e adultos da aldeia debateram propostas da UFU e do Ibama
Jovens e adultos da aldeia debateram propostas da UFU e do Ibama (Foto: Marco Cavalcanti)

 

A estruturação da aldeia Renascer Wakonã ainda demanda direitos fundamentais, como a homologação do território e construção de posto de saúde indígena. A energia elétrica, por exemplo, foi ligada somente no fim de junho deste ano.

O resgate da língua Xukuru-Kariri, tratada não como “morta”, mas como uma “língua adormecida”, é uma das frentes de trabalho. O professor Israel de Sá, do Instituto de Letras e Linguística (Ileel/UFU), coordena a produção do registro histórico e linguístico. “O que a gente tem proposto é sempre pensando na necessidade da comunidade, não da nossa pesquisa”, explica o docente.

O docente, em parceria com jornalistas da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), Marco Cavalcanti e eu, também trabalha na produção de um livro em que esse povo conta sua própria história.

A agroecologia e a sustentabilidade norteiam o projeto liderado pela professora Adriane de Andrade Silva, do Instituto de Ciências Agrárias (Iciag/UFU). O foco é na autossuficiência alimentar e na proteção do bioma Cerrado. Um exemplo prático é a colaboração com o raizeiro Mariozan de Freitas, que trabalha com os indígenas o reconhecimento de plantas medicinais da nossa região.

A professora e nutricionista Marina Rodrigues Barbosa, da Faculdade de Medicina (Famed/UFU), desenvolve um projeto para registrar a cultura alimentar da aldeia, especialmente os alimentos que curam e a memória afetiva que as receitas carregam, para garantir que esses saberes não se percam com a mudança de território.

 

O raizeiro Mariozan de Freitas participa do programa com o reconhecimento de plantas do Cerrado
O raizeiro Mariozan de Freitas participa do programa com o reconhecimento de plantas do Cerrado (Foto: Marco Cavalcanti)

 

Tudo isso se relaciona à saúde das pessoas da aldeia. O pesquisador Glênio Alves de Freitas, da Famed/UFU, atua na interseção entre a medicina biomédica e a tradicional. O trabalho contempla, por exemplo, que os profissionais de saúde que atendem a comunidade conheçam e respeitem suas práticas de cura. “Se eu fosse escrever um projeto no gabinete sem conhecer esse contexto, eu não iria reproduzir a realidade necessária”, diz Freitas.

A educação ambiental e a proteção territorial ficam sob responsabilidade, prioritariamente, do Ibama. Por meio do programa "É Tempo de Mudanças", o instituto colabora com a proteção contra incêndios e a estruturação de uma brigada nativa. A parceria, coordenada pela servidora Adriana Melo Magalhães, inclui o apoio logístico para a demarcação e homologação da terra junto ao MPF.

O programa prevê ainda a disponibilização de galpão e maquinário para artesanato feito a partir de resíduos de madeira, intercâmbio multiétnico ecossocial, cozinha comunitária, trilhas dirigidas, recuperação de áreas degradadas, construção de centro de pesquisa, monitoramento da fauna, da flora e dos solos.

“Esse programa é a minha última cartada na esperança de tempos melhores. É como as flechas que o arqueiro lança: ele atira numa direção, mas não vê o alvo que vai alcançar do outro lado”, diz a cacica Giselma.

Os projetos estão em fase de formatação para serem submetidos a editais de financiamento, incluindo um da Justiça Federal e recursos do próprio Ibama. Indígenas, professores, técnicos e estudantes seguem fazendo, juntos, ciência de interesse público, em um ato de reparação histórica e garantia de cidadania para as futuras gerações. Já são 13 crianças nascidas na aldeia Xukuru-Kariri Renascer Wakonã.

 

Vivem 99 pessoas na aldeia de Presidente Olegário, entre elas, 13 crianças nascidas naquele território
Vivem 99 pessoas na aldeia de Presidente Olegário, entre elas, 13 crianças nascidas naquele território (Foto: Marco Cavalcanti)


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Palavras-chave: indígenas Xukuru-Kariri

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