Pular para o conteúdo principal
Leia Cientistas

Pequenos pacientes, grandes desafios

O risco das infecções fúngicas na UTI Neonatal

Publicado em 25/08/2026 às 15:37 - Atualizado em 25/08/2026 às 16:04

Os resultados reforçam a importância da vigilância das infecções fúngicas nas UTINs (Foto: Magnific)

Nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTINs), as infecções fúngicas invasivas representam um importante desafio para a segurança dos recém-nascidos, especialmente entre aqueles que apresentam prematuridade e baixo peso ao nascer. A imaturidade do sistema imunológico, associada à necessidade de cuidados intensivos e ao uso de dispositivos invasivos, pode aumentar a vulnerabilidade desses pacientes a infecções graves.

Um projeto de Iniciação Científica, conduzido por uma aluna do 7º período do curso de Enfermagem, sob orientação da professora Dra. Ralciane Menezes e com apoio dos integrantes do grupo de pesquisa Epidemiologia das Infecções em Neonatos Críticos, avaliou a ocorrência de infecções fúngicas na UTIN do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU, vinculado à rede de hospitais universitários, a HU Brasil), no período de janeiro de 2025 a julho de 2026. A pesquisa identificou quatro neonatos com infecções fúngicas invasivas. Todos os casos ocorreram em 2025 e um dos pacientes evoluiu para óbito seis dias após a infecção, correspondendo a uma letalidade de 25%. O recém-nascido que evoluiu para óbito era também o paciente de menor peso ao nascer entre os casos analisados.

A espécie Candida albicans foi a responsável pelos quatro casos de infecção fúngica analisados. Popularmente conhecida por causar o “sapinho”, uma infecção comum na boca, a espécie pode representar um risco muito maior para recém-nascidos criticamente enfermos, podendo invadir a corrente sanguínea e causar infecções graves. A corrente sanguínea foi o principal sítio de infecção, identificado em três neonatos, enquanto um caso apresentou acometimento do trato urinário.

Os quatro recém-nascidos apresentavam baixo peso ao nascer e permaneceram internados por períodos prolongados. Antes da ocorrência das infecções, também foi observado o uso de dispositivos e terapias invasivas, principalmente Cateter Central de Inserção Periférica (PICC), nutrição parenteral (NPP) e intubação orotraqueal. Esses fatores fazem parte da complexidade do cuidado aos recém-nascidos críticos e estão relacionados ao risco de desenvolvimento de infecções fúngicas invasivas.

Os resultados encontrados no HC-UFU podem ser comparados com um cenário mais amplo apresentado Daniel Hsiang-Te Tsai, do Centro de Doenças Infecciosas Neonatais e Pediátricas, da Universidade de Londres, e outros pesquisadores, em uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025, no periódico Open Forum Infectious Diseases (“The Burden of Neonatal Invasive Candidiasis in Low- and Middle-income Countries: A Systematic Review and Meta-analysisOpen Forum Infectious Diseases 12: ofaf329, 2025),  que reuniu dados de 10.994 casos de candidíase invasiva neonatal em 27 países de baixa e média renda. Uma diferença importante aparece no perfil dos agentes causadores. Embora C. albicans também tenha sido a espécie individualmente mais frequente na análise liderada por Tsai, correspondendo a 39% dos isolados, Candida parapsilosis apareceu em seguida, com 24,8%, e as espécies não-albicans apresentaram predominância em algumas regiões analisadas. No HC-UFU, por outro lado, C. albicans esteve presente em 100% dos casos identificados.

Outro ponto de atenção é a resistência aos antifúngicos. No estudo realizado no HU-UFU, um dos isolados apresentou resistência ao voriconazol. Na revisão internacional, a resistência ao voriconazol foi identificada em 7,8% dos isolados que possuíam dados de sensibilidade disponíveis. Em relação aos desfechos, a letalidade de 25% observada no HU-UFU foi superior à estimativa agrupada de 18,7% encontrada por Tsai et al. Essa diferença deve ser interpretada com cautela, considerando o pequeno número de casos do estudo do HU-UFU, no qual um único óbito correspondeu a 25% da amostra. Na análise de Tsai et al., a letalidade apresentou diferenças importantes entre as regiões estudadas, chegando a 37,9% na América Latina. Embora C. albicans tenha sido a espécie mais frequente na metanálise, não foi estabelecida uma associação entre uma espécie específica e maior mortalidade

Os resultados reforçam a importância da vigilância das infecções fúngicas nas UTINs. O acompanhamento dos agentes causadores, do perfil de resistência aos antifúngicos e dos fatores relacionados à ocorrência das infecções permite conhecer melhor a realidade de cada serviço e contribui para o planejamento de estratégias de prevenção e controle.

Nesse sentido, os dados produzidos nesse estudo ajudam a aproximar a realidade local das evidências encontradas internacionalmente. A identificação de C. albicans nos casos analisados, a presença de resistência ao voriconazol e a ocorrência de um óbito demonstram a importância de manter a vigilância sobre essas infecções, mesmo quando sua frequência é relativamente baixa.

A prevenção das infecções fúngicas invasivas deve, portanto, permanecer como uma prioridade nas unidades neonatais. A vigilância microbiológica contínua, a identificação precoce dos casos, o uso seguro de dispositivos invasivos, a higiene adequada das mãos e dos equipamentos e a adoção rigorosa das medidas de prevenção e controle de infecções são fundamentais para reduzir os riscos e contribuir para a segurança dos recém-nascidos internados em UTINs.

 

*Ester Cristiny Silverio de Oliveira é acadêmica do 7º período do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). É integrante do grupo de pesquisa Epidemiologia das Infecções em Neonatos Críticos e participa do Projeto de Extensão em Infecção Neonatal (EpiNeo). Desenvolve atividades de pesquisa voltadas à epidemiologia, prevenção e controle das infecções relacionadas à assistência à saúde em neonatos críticos, com ênfase nas infecções fúngicas em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal.

**Ralciane de Paula Menezes é docente efetiva da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), vinculada ao Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICBIM), e Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Estrutural Aplicadas. É graduada em Biomedicina pela UFU (2011), com Mestrado (2014) e Doutorado (2018) em Ciências da Saúde, na área de Epidemiologia das Infecções Hospitalares, pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da UFU. Integra o grupo de pesquisa Epidemiologia das Infecções em Neonatos Críticos e atua como coordenadora do Projeto de Extensão Epidemiologia das infecções neonatais e educação em saúde (EpiNeo).

A seção "Leia Cientistas" reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao

 

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.

 

Palavras-chave: UTI neonatal saúde Recém-nascidos

A11y