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Inclusão

Não basta estar na UFU; é preciso ser ouvido

Alunos e professores da UFU contam suas história em celebração ao Dia Nacional dos Surdos

Publicado em 25/09/2026 às 11:03 - Atualizado em 25/09/2026 às 13:29

UFU é referência nacional no desenvolvimento de tecnologia assistivas por meio do CINTESP.Br (Foto: Arquivo Pessoal CINTESP.Br)

De acordo com o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil mais de 10 milhões de pessoas possuem algum nível de surdez, e 2,7 milhões vivem com surdez profunda. Desde 2008, o Brasil memora em 26 de Setembro o Dia Nacional do Surdo, em alusão a fundação da primeira escola de surdos do país em 1857, o Instituto Nacional de Educação de Surdos. A data foi oficializada com a Lei nº 11.796. 

A educação mostra-se um dos maiores desafios para essa parcela da população. O IBGE não distingue as pessoas por tipo de deficiência, mas demonstra que entre as pessoas com algum tipo de déficit, a taxa de analfabetismo chega a ser quatro vezes maior (21,3% contra 5,2%). Os dados ainda apontam que 63,1% não tinham instrução ou não haviam completado o ensino fundamental e somente 7,4% haviam concluído o ensino superior, contra 19,5% das pessoas sem deficiência.

Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), dos quase 22 mil alunos, 57 possuem deficiência auditiva ou surdez total, um avanço comparado aos 13 discentes matriculados em 2024, de acordo com dados da Divisão de Acessibilidade e Inclusão (Dacin) da UFU

Uma dessas é Larissa Carvalho, discente do 7º período de Ciências Contábeis. Carvalho conta que gosta da área área contábil e financeira, e entrou na UFU porque queria compreender o controle e fluxo de caixa para ensinar aos surdos. Durante sua trajetória, ela destaca os desafios em relação à educação até chegar na UFU: “A maior dificuldade é a falta de acessibilidade na comunicação com professores e colegas que não sabem Libras, e também não ter um intérprete de Libras”.

 

Larissa Carvalho
Larissa espera ser lembrada como exemplo para que pessoas surdas quebram barreiras e conquistem seus objetivos (Foto: Arquivo Pessoal Larissa Carvalho)

Uma das maiores dificuldades para os deficientes auditivos é exatamente a falta de pessoas com conhecimento sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Não existem números oficiais sobre quantas pessoas sabem Libras, mas de acordo com o Ministério da Educação (MEC), até 2021, somente 0,55% dos professores do Brasil tinham formação específica em Libras. 

Em relação aos intérpretes, a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS), aponta que existem cerca de 20 mil intérpretes de Libras cadastrados em todo o país. Dentro da UFU, os intérpretes fazem parte da Dacin, e auxiliam os alunos durante a vida acadêmica. De acordo com a divisão, a UFU tem 16 intérpretes para atender os 57 alunos com deficiência auditiva, um para quase seis discentes.  

Carvalho expõe que uma das ferramentas mais importantes para a sua permanência na universidade são os intérpretes: “Eu acompanho um intérprete de Libras para me comunicar com os colegas nas aulas porque eles nem sabem Libras. No caso eu me comunico com eles por escrito, o intérprete é importante para facilitar a minha comunicação com todos”. 

A aluna acredita que ainda faltam algumas atitudes a serem tomadas para melhorar a educação no Brasil sobre o tema. “Acredito que os professores precisam se preparar para ensinar a Libras para os ouvintes, isso melhoraria a comunicação no Brasil”, conta Carvalho.

Do outro lado da sala está Márcia Lima, docente da Faculdade de Educação, que leciona a disciplina Libras nos cursos de graduação. Lima é uma DODA - termo em inglês para nomear uma pessoa surda filha de pais surdos. A professora conta que para ela a Libras sempre fez parte de sua vida. Com outras pessoas surdas, Lima cresceu dentro de uma comunidade. 

Essa aliás é uma das coisas favoritas de Lima: “Gosto muito de estar com minha família e meus filhos, viajar, conhecer lugares e ler. E existe algo que para mim vai além de hobby: estar com a comunidade surda. Gosto de participar de encontros, eventos e atividades, encontrar meus pares surdos, conversar em Libras, rir, trocar experiências e simplesmente estar em um espaço onde nossa língua circula naturalmente. É um sentimento de pertencimento que me acompanha desde a infância”.

Dentro da sala de aula, Lima demonstra uma grande preocupação não somente em ensinar aos alunos a Libras, mas pretende fazer com que eles entendam o que significa ser surdo. “O que mais gosto na docência é perceber que ensinar também pode transformar o olhar de alguém. Quando entro em uma sala de aula, não quero ensinar apenas sinais. Quero que meus alunos conheçam a Libras, mas também compreendam a cultura surda, nossa identidade, nossa história e nossos direitos linguísticos”, explica a docente.

 

Marcia Lima
Marcia Lima compõe o Núcleo de Educação Especial e Libras (NEEL/UFU) com outros 8 professores (Foto: Arquivo Pessoal Marcia Lima)

Lima trabalhou por mais de 15 anos na Educação de Surdos, da Educação Infantil à EJA, principalmente na alfabetização de estudantes surdos. Hoje no âmbito universitário seu objetivo não mudou. “Durante muito tempo, a pessoa surda foi vista principalmente pela deficiência, pelo que supostamente não consegue fazer. Eu quero provocar o olhar contrário: enxergar a pessoa antes da deficiência, reconhecer sua língua, suas potencialidades e sua maneira visual de compreender o mundo. Por isso, considero muito importante formar profissionais que não tenham um olhar capacitista sobre as pessoas surdas, mas que reconheçam e respeitem a Libras e o direito à comunicação e à participação em igualdade de condições. É isso que dá sentido à minha profissão”, ela pontua.

A docente explica que muitas vezes não é a surdez, sozinha, que impede uma pessoa de estudar, trabalhar, cuidar da própria saúde ou participar da sociedade. Muitas vezes, o que impede é chegar a um espaço e descobrir que aquele espaço não foi pensado para ela. Quando não há Libras, legenda, informação acessível ou profissionais preparados, a pessoa surda perde autonomia. Por isso, muitas limitações não estão na pessoa surda, mas nas barreiras que a sociedade ainda não conseguiu eliminar.

Ela mesma narra a dificuldade em sua trajetória acadêmica, tanto na escola como na primeira formação, em Pedagogia. Lima teve de enfrentar espaços e profissionais sem preparo, professores falando de costas, explicações que não conseguia acompanhar, filmes sem legenda e muitas atividades exclusivamente orais. Mas em sua segunda graduação, Letras-Libras, ela encontrou um espaço totalmente diferente com colegas surdos e aulas em Libras.  

Mas a vida de um professor vai além das aulas. Um professor surdo precisa estar presente em reuniões, comissões, pesquisas, eventos e espaços de decisão. Sem acessibilidade linguística, é como se a voz dessas pessoas não existisse, e a participação e autonomia ficassem limitadas. Isso mostra que inclusão não é apenas permitir que a pessoa surda entre pela porta. É garantir que, depois de entrar, ela possa falar, decidir, liderar, pesquisar e ocupar seu lugar com autonomia: “Não queremos estar na universidade apenas para ensinar Libras; queremos participar plenamente das decisões, projetos, pesquisas, comissões e discussões que também constroem a universidade”. 


 

Esporte e Inclusão

 

Existem diversas ferramentas para a inclusão de pessoas surdas na sociedade. Intérpretes, Libras, legendas, entre outros. Mas assim como o esporte pode incluir pessoas sem deficiência dentro de um espaço, para as pessoas surdas o esporte se torna parceiro importante. 

Matheus Costa é graduado em Letras: Língua Portuguesa com domínio de Libras (LPDL), pela UFU. Além da universidade mineira, Costa também é graduado em Letras-Libras e pós-graduado em Atendimento Educacional Especializado pela Uniasselvi. Atualmente é graduando em Educação Física pela UNIFATECIE e mestrando em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB).

Assim como a professora, Costa gosta de estar com sua família e envolvido em atividades relacionadas à comunidade surda, mas tem um espaço de sua vida dedicado exclusivamente ao esporte.  Ele conta que seu hobby é o futsal. Atua como goleiro e diz que o esporte teve e continua tendo um papel muito importante na vida dele, permitindo que ele conhecesse pessoas, viajasse, participasse de competições e convivesse com atletas de diferentes lugares: “Dentro e fora da universidade, o esporte também foi uma forma de criar vínculos e superar algumas barreiras de comunicação. No ambiente esportivo, existe uma convivência muito forte, um objetivo coletivo e uma troca de experiências que contribuem muito para a socialização. Além disso, o esporte me ajudou a desenvolver disciplina, responsabilidade, confiança e trabalho em equipe”.

 

Matheus Costa
Matheus já representou as equipes nacionais de badminton e futsal (Foto: Arquivo Pessoal Matheus Costa)

A docente da Faculdade de Educação Física e Fisioterapia (FAEFI/UFU) Solange Rodovalho atesta a experiência de Matheus: “A atividade física e como parte delas a prática esportiva tem sido preconizada por estudiosos do tema e pela Organização Mundial da Saúde como fatores de prevenção às doenças crônicas não transmissíveis. Estas atividades também colaboram no estado geral de saúde mental das pessoas, podendo diminuir os sintomas de depressão e ansiedade, melhorando o bem-estar geral. No caso de pessoas surdas, a situação não é diferente e ter um estilo de vida ativo contribui com a melhoria das capacidades físicas, como o aumento da função muscular e função cardiorrespiratória”. 

A professora é tutora do Programa de Atividades Físicas para Pessoas com Deficiência (PAPD/UFU), e explica que, dentro do programa, pessoas com diversas deficiências experimentam diversas práticas corporais como atividades físicas, esportivas, jogos e brincadeiras, atividades circenses, atividades aquáticas e exercícios físicos. “A partir desta participação elas são estimuladas a adotarem um estilo de vida mais ativo e a estreitar os relacionamentos com outras pessoas, sendo possível perceber, pelos relatos dos/das participantes, uma melhora em sua condição física e independência para a realização das atividades de vida diária, além da melhoria em sua saúde mental e bem-estar”, conta Rodovalho.

Assim como Larissa e Marcia, Matheus demonstra grande preocupação com a educação de pessoas surdas no Brasil: “Não basta colocar o aluno surdo dentro da sala de aula; é necessário garantir que ele tenha acesso ao conteúdo por meio de uma língua que consiga compreender plenamente. A Libras precisa ser respeitada como língua de instrução e de comunicação. Também existem dificuldades relacionadas à falta de profissionais preparados, materiais didáticos acessíveis em Libras e, principalmente, à falta de compreensão sobre as necessidades linguísticas e educacionais dos estudantes surdos”.

Atualmente, Costa desenvolve uma pesquisa de mestrado abordando Libras e esporte, com uma proposta de léxico bilíngue dos sinais-termo do futsal: “Hoje, já formado, e como mestrando em Linguística na UnB, percebo ainda mais a importância da acessibilidade no ensino superior. Minha trajetória acadêmica também se relaciona diretamente com minha experiência como pessoa surda e atleta”. 

 

CINTESP.Br

 

O Centro Brasileiro de Referência em Inovação em Tecnologia Assistiva (CINTESP.Br/UFU) é um laboratório de Tecnologia Assistiva que desenvolve pesquisas, ações e formações voltadas à temática para as pessoas com deficiência. Sua atuação compreende a articulação, a organização e o desenvolvimento de projetos de pesquisa, inovação e extensão em diferentes áreas, como esporte, com ênfase no paradesporto, lazer, saúde, educação, cultura, mundo do trabalho e atividades da vida diária. Essas iniciativas são direcionadas especialmente às pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e doenças raras. O projeto conta com a área de Educação Inclusiva, que atua em várias frentes, entre elas a oferta de cursos de extensão e o desenvolvimento de projetos com o uso da impressão 3D para estudantes com deficiência, além de outras tecnologias assistivas.

 

Aula sobre Educação Inclusiva do CINTESP.Br
CINTESP.Br desenvolve projetos e programas voltados a todos os tipos de comunicações verbais e não verbais (Foto: Arquivo Pessoal CINTESP.Br)

Dentro da área da educação, o CINTESP.Br desenvolve projetos com recursos pedagógicos para auxiliar no campo formativo das crianças, além de cursos de Audiodescrição, Braille, Orientação e Mobilidade, projetos culturais e oficinas lúdicas para crianças. 

A atual equipe é formada pelos professores Cleudmar Amaral de Araújo, Ana Sara Tomé, Elaine Cristina de Paula Bragança, Elaine Maria de Carvalho e Haline Gonzaga.

De acordo com a equipe, essas ferramentas assistivas devem estar articulados às metodologias de ensino para garantir que o estudante tenha acesso ao conteúdo, possa se expressar e participar efetivamente das atividades escolares: “Na prática, falar em Tecnologia Assistiva e educação inclusiva é falar em possibilidades de comunicação, aprendizagem, autonomia e participação. A Tecnologia Assistiva compreende um conjunto de recursos, equipamentos, dispositivos, estratégias, práticas e serviços destinados a ampliar a funcionalidade, a independência e a qualidade de vida das pessoas com deficiência”.

Os pesquisadores explicam que não existe uma única forma de aprender, comunicar-se ou compreender o mundo. Mesmo entre pessoas com a mesma deficiência, existem diferentes necessidades, experiências, habilidades e preferências, é singular. Por isso, a inclusão não pode ser construída a partir de uma solução única, dessa forma o CINTESP.Br trabalha com Libras, Braille, audiodescrição, orientação e mobilidade e outras formas de acessibilidade.

 

Aula CINTESP.Br
CINTESP.Br mantém parcerias importantes como o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Comitê Paralimpico Brasileiro e Praia Clube (Foto Arquivo Pessoal CINTESP.Br)

O CINTESP.Br tem grande contribuição na produção do conhecimento, e trabalha para que esse conhecimento possa dialogar com a vida das pessoas. Iniciativas como as desenvolvidas pelo CINTESP.Br/UFU aproximam ensino, pesquisa, inovação e extensão das necessidades reais da comunidade. Por meio dos cursos, oficinas, projetos, pesquisas e ações formativas, eles conseguem compartilhar conhecimentos: “O Dia Nacional do Surdo, celebrado em 26 de setembro, é uma oportunidade para valorizar a Libras, a cultura surda, a identidade e o protagonismo das pessoas surdas. Para a comunidade surda, é fundamental que seus direitos sejam reconhecidos e garantidos, incluindo o direito à língua, à cultura, à participação plena na sociedade, à comunicação sem barreiras e ao acesso ao conhecimento, bem como superar o capacitismo”.

A professora Elena Bragança entende bem a importância do dia e do reconhecimento dos direitos das pessoas surdas no Brasil. Bragança é surda e tem duas filhas ouvintes. Ela conta que as duas sabem Libras e isso possibilita um pleno convívio familiar: “Cada um de nós possui opiniões e formas diferentes de pensar. Por meio da Libras, podemos dialogar, compartilhar sentimentos e ideias, aprender uns com os outros e fortalecer nossa união. Nossa experiência familiar mostra como o acesso a uma língua compartilhada aproxima as pessoas, fortalece os vínculos e garante a cada integrante da família a oportunidade de se expressar e ser compreendido”. 


 

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Palavras-chave: educação inclusiva Aluno Surdo surdez Dia Nacional do Surdo Esporte

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