Publicado em 23/09/2026 às 10:33 - Atualizado em 23/09/2026 às 11:31
A inteligência artificial avança mais rápido do que as regras criadas para acompanhá-la. Ferramentas capazes de escrever textos, resumir documentos, analisar dados, gerar imagens e automatizar tarefas já chegaram ao cotidiano do serviço público e das universidades. Ao mesmo tempo, governos e instituições começam a estabelecer orientações sobre como utilizar essas tecnologias com segurança, transparência e responsabilidade.
Esse movimento também chegou à Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Por meio da Portaria REITO nº 539, de 24 de agosto de 2026, a Universidade institucionalizou as Recomendações para a utilização e desenvolvimento ético e responsável de Inteligência Artificial na Universidade Federal de Uberlândia (clique na imagem abaixo para acessar a publicação).
O documento alcança docentes, técnicos-administrativos e estudantes e trata do uso de IA no ensino, na pesquisa, na extensão, na inovação e na gestão. Mais do que estabelecer o que pode ou não ser feito, as recomendações procuram preparar a comunidade para uma tecnologia que muda rapidamente — e cujo uso já faz parte de diferentes atividades da Universidade.
Um diagnóstico realizado durante a elaboração das recomendações ajuda a dimensionar esse cenário.
A consulta recebeu 466 respostas de docentes, estudantes, técnicos-administrativos e trabalhadores terceirizados. Entre os participantes, 59,7% afirmaram utilizar modelos de linguagem de grande escala (LLMs), como ChatGPT, Gemini e DeepSeek, com alguma frequência. Ao mesmo tempo, 57,9% declararam não possuir formação para o uso de inteligência artificial.
O relatório técnico detalha essa diferença: 31,8% disseram utilizar LLMs com frequência e 27,9% utilizar essas ferramentas. Já em relação à capacitação, 26,8% se declararam autodidatas e somente 8,4% disseram ter realizado curso oferecido pela própria UFU.
A diferença entre adoção e capacitação ajuda a explicar por que o letramento em IA aparece entre os princípios das recomendações. O Manual afirma que a Universidade deve promover e apoiar ações de formação dirigidas a estudantes, docentes e técnicos-administrativos.
Também são propostas atividades de formação continuada, eventos de sensibilização e discussões sobre temas como desinformação, plágio, vieses algorítmicos, privacidade, proteção de dados e impactos da tecnologia. O diagnóstico sugere, inclusive, a implantação de um programa de capacitação em níveis básico, intermediário e avançado para a comunidade universitária.
A consulta também perguntou quais assuntos deveriam receber atenção institucional. Entre 24 temas apresentados, seis receberam mais de metade das indicações. Ética no uso de IA liderou, com 322 menções, seguida pela confiabilidade das informações, com 319, e pelo plágio, com 302. Também aparecem revisão bibliográfica, criação de imagens e gráficos e aprendizagem personalizada.
Essas preocupações aparecem diretamente nas recomendações. O documento trata de supervisão humana, integridade acadêmica, transparência, privacidade, proteção de dados e avaliação contínua dos riscos associados à tecnologia.
Uma das orientações resume um princípio central do Manual. “Todas as decisões acadêmicas, administrativas, científicas e criativas [...] devem ser tomadas e validadas por seres humanos.”
Na prática, portanto, a IA pode auxiliar uma tarefa, mas não transfere para a máquina a responsabilidade pela decisão ou pelo conteúdo produzido.
Para os técnicos-administrativos, as recomendações admitem o emprego da IA na otimização de atividades e processos repetitivos, desde que exista supervisão e validação humana. Informações produzidas pelas ferramentas devem ser conferidas antes de serem utilizadas ou compartilhadas.
Para os docentes, o Manual recomenda deixar claras as regras sobre utilização de IA nos trabalhos acadêmicos e repensar atividades avaliativas de forma a valorizar pensamento crítico, contextualização e criatividade humana. Ferramentas de detecção de conteúdo produzido por IA devem ser utilizadas apenas como apoio, e não como elemento exclusivo para uma decisão.
Aos estudantes, a orientação é utilizar a IA como ferramenta de apoio à aprendizagem, e não como substituta do pensamento crítico e autônomo. Também é recomendado declarar seu uso nos trabalhos, verificar a precisão das respostas e recorrer a fontes confiáveis.
O Manual orienta ainda que, em atividades acadêmicas e científicas, sejam mantidos registros de elementos como ferramenta utilizada, versão, prompts e parâmetros, sempre que forem relevantes para validação, auditoria ou reprodução do procedimento.
Um dos pontos com efeito mais imediato no cotidiano da Universidade está relacionado às informações enviadas para ferramentas externas.As recomendações alertam que dados pessoais, dados sensíveis e informações estratégicas da UFU ou de terceiros não devem ser inseridos em sistemas que não ofereçam proteção adequada de segurança, privacidade e respaldo jurídico. O tratamento de dados pessoais deve observar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Isso exige atenção até mesmo em tarefas aparentemente simples, como pedir a uma IA que resuma um documento, analise uma planilha, revise um relatório ou organize informações administrativas.
A iniciativa da UFU não ocorre isoladamente. O próprio Manual informa que sua elaboração considerou legislação, políticas públicas nacionais, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e debates nacionais e internacionais sobre o tema.
A convergência ajuda a situar as recomendações da UFU em um processo mais amplo: a discussão deixa gradativamente de ser apenas sobre usar ou não usar inteligência artificial e passa a envolver como utilizá-la, com quais limites e sob quais responsabilidades.
A Portaria que institucionalizou o documento também criou uma Comissão Permanente de Acompanhamento e Atualização das Recomendações. A existência desse acompanhamento é especialmente relevante em uma área em que ferramentas, possibilidades e riscos podem mudar em poucos meses.
O diagnóstico produzido pela UFU aponta ainda caminhos para os próximos anos, como ampliação da formação, investimentos em ferramentas e suporte técnico, integração de conteúdos sobre IA aos currículos e desenvolvimento de uma política institucional mais abrangente. Para a comunidade universitária, a publicação das recomendações representa, assim, mais um ponto de partida do que uma conclusão.Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica.
Palavras-chave: inteligência artificial servidores estudantes
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