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Meio ambiente

Investigação em herbários ajuda cientistas da UFU a desvendar novas flores

Nomes de plantas reconhecem trajetória acadêmica de docentes do Instituto de Biologia

Publicado em 19/10/2026 às 10:10 - Atualizado em 20/10/2026 às 14:20

Rosana Romero, do Inbio/UFU, com a flor Bidens Rosanae, batizada em sua homenagem (Foto: Milton Santos)

Nos últimos 20 anos, o Parque Nacional da Serra da Canastra, no sudoeste de Minas Gerais, tem sido cenário de estudos científicos sobre a biodiversidade brasileira. Recentemente, pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), realizaram um levantamento botânico completo da tribo Lavoisiereae, que reúne plantas da mesma família das quaresmeiras e manacás. 

Divulgado na revista científica Phytotaxa em dezembro de 2025, o estudo catalogou 26  espécies na região, sendo 24 do gênero Microlicia e duas do gênero Rhynchanthera. A grande surpresa do trabalho, porém, foi a identificação de duas espécies endêmicas (exclusivas daquela localidade) que ainda não haviam sido descritas pela ciência. 

 

As novas moradoras da Canastra

Microlicia nakajimae

Encontrada na região leste do parque nacional, no município de São Roque de Minas, a planta vive a cerca de 1,3 mil metros de altitude. Trata-se de um arbusto ou subarbusto de até 1,5 metro de altura com flores magenta. No visual, a flor se destaca por desabrochar sozinha ou em pequenos cachos, com sépalas finas e uma base floral alongada em formato cilíndrico.

Registros e detalhes da Microlicia nakajimae (Fotos: Rosana Romero)
Registros e detalhes da Microlicia nakajimae (Fotos: Rosana Romero)

Microlicia sanfranciscana

Localizada no caminho para a parte alta da Cachoeira Casca d’Anta, a poucos quilômetros da nascente histórica do Rio São Francisco, a espécie traz o próprio rio em seu batismo científico. Menor e mais delicada, mede entre 10 e 50 centímetros de altura. Apresenta folhas finas, flores cor-de-rosa com centro em tom creme e estames divididos em duas cores.

Registros e detalhes da Microlicia sanfranciscana (Fotos: Rosana Romero e Rodolfo Ferreira-Alves)
Registros e detalhes da Microlicia sanfranciscana (Fotos: Rosana Romero e Rodolfo Ferreira-Alves)

O mistério de duas décadas nos herbários

As plantas não eram desconhecidas das trilhas da serra, mas sim das classificações científicas. Durante mais de 20 anos, exemplares colhidos na serra foram confundidos com parentes botânicos já conhecidas.

A professora do Instituto de Biologia (Inbio/UFU) Rosana Romero, curadora do Herbário Uberlandense (HUFU) e coordenadora do estudo, explica que a confirmação exigiu consultas a acervos internacionais. “No meu doutorado, cheguei a identificar essas plantas com outro nome. Mais tarde, durante o pós-doutorado em Londres e Paris, tive a oportunidade de analisar coleções históricas mundiais e percebi o equívoco. Descobri que se tratava de uma espécie sem nome científico”, relata a pesquisadora.

 

Reconhecimento acadêmico mútuo

A escolha do nome Microlicia nakajimae carrega história. Rosana é casada com o também biólogo Jimi Naoki Nakajima e iniciaram juntos, logo após o casamento, as primeiras expedições pela Canastra. “Quando encontrei a planta, decidi que daria o nome em homenagem a ele. Mas não por ser meu marido, porque na botânica não se faz isso. Homenageamos pela importância do trabalho acadêmico da pessoa na flora regional”, destaca a docente. Nakajima coletou quase seis mil amostras na Canastra e participou ativamente de muitas pesquisas científicas no local.

O reconhecimento foi recíproco: em estudo publicado no periódico internacional Systematic Botany nesse ano, Nakajima e colegas oficializaram a descrição da Bidens rosanae, espécie batizada em tributo à pesquisadora. A revelação foi uma surpresa organizada em segredo pelos autores: “Fiquei muito emocionada. O Jimi imprimiu o artigo com as ilustrações e me disse apenas: ‘Dá uma olhada nesse trabalho’. Quando li o nome da espécie, foi uma grande surpresa. Homenagens científicas precisam ser muito criteriosas e é emocionante saber que o nome Bidens rosanae ficará eternizado na história da botânica”, comemora a professora.

Registros da espécie Bidens rosanae (Foto: Maria Liris Barbosa)
Registros da espécie Bidens rosanae (Foto: Maria Liris Barbosa)

Fomento institucional e formação de pesquisadores

A construção do acervo botânico que viabilizou as descobertas é fruto do investimento continuado. O trabalho de campo teve início nos anos 90 com apoio financeiro da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propp/UFU). Os recursos custearam viagens de coleta sucessivas, mobilizando turmas de graduação e pós-graduação e parcerias com especialistas de outras instituições do país. 

O investimento resultou na formação de novos mestres e doutores na área de Biologia Vegetal e abasteceu coleções científicas do Brasil e do exterior com materiais do patrimônio natural mineiro.

Em entrevista, Romero detalha a importância da proteção do Cerrado (Foto: Milton Santos)
Em entrevista, Romero detalha a importância da proteção do Cerrado (Foto: Milton Santos)

Confira abaixo a entrevista com Romero sobre os bastidores da descoberta.

Comunica Ciência: Qual é o papel das expedições de campo e das coleções de herbário para a biodiversidade da região?

Rosana Romero: Eu sempre digo aos estudantes que precisamos conhecer para preservar. O que a ciência não documenta, para a sociedade não existe. Hoje até inverto essa frase: precisamos preservar para conhecer, porque o tempo está contra nós e muitas áreas são desmatadas antes de serem pesquisadas. As espécies endêmicas funcionam como espécies-bandeira, elas chamam a atenção pela raridade e ajudam a justificar a conservação de um ecossistema inteiro.

Mesmo sendo exclusivas de pequenas áreas, as novas espécies foram avaliadas com menor risco de extinção. O que explica essa segurança, mesmo com o turismo e queimadas?

Rosana: O principal fator é o fato de estarem abrigadas dentro de uma unidade de conservação federal, que é o Parque Nacional da Serra da Canastra. Quando descrevemos uma espécie nova, precisamos seguir critérios técnicos para avaliar o grau de ameaça. Existem plantas que já nascem catalogadas como criticamente ameaçadas. No caso da Canastra, o relevo rochoso e o acesso mais difícil aos locais onde elas habitam garantem uma proteção maior frente a esses impactos diretos.

A Microlicia sanfranciscana tem uma ligação próxima com a nascente histórica do São Francisco. Como se deu essa escolha?

Rosana: Essa espécie é meu xodó. Sou devota de São Francisco e a planta foi encontrada em um campo úmido muito perto da nascente histórica. É uma área simbólica que chegou a sofrer com a degradação e a passagem indevida de veículos. Durante a elaboração do plano de manejo do parque, recomendamos a transferência da estátua do santo para mais perto da estrada principal, reduzindo o pisoteio nas áreas alagadas e protegendo aquela vegetação.

O que essa pesquisa nos ensina sobre a urgência de defender o Cerrado hoje?

Rosana: Eu costumo provocar: nós realmente precisamos de um motivo utilitário para não destruir a natureza? Muitas vezes o ser humano se coloca no centro do universo e só aceita proteger aquilo que lhe serve diretamente, como uma planta medicinal ou um animal carismático. O Cerrado sofre uma pressão imensa do avanço agrícola e da mineração. Essas espécies merecem continuar existindo simplesmente pelo direito à vida e para que as próximas gerações tenham a oportunidade de contemplar a riqueza que encontramos aqui.

O Herbário Uberlandense é um órgão complementar do Inbio/UFU, dedicado à preservação e ao estudo da flora do Cerrado. O acervo reúne cerca de 80 mil espécies registradas. O setor fica localizado no Campus Umuarama, Rua Ceará, Bloco 4Q.

Para consultas ao acervo virtual e agendamento de visitas, acesse o perfil oficial no Instagram: @herbario_ufu. 

 

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Palavras-chave: botânica Serra da Canastra Biologia Herbário

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