Publicado em 05/10/2026 às 12:21 - Atualizado em 05/10/2026 às 14:09
A eutanásia animal é frequentemente vista apenas como um procedimento clínico, mas, na prática dos consultórios, ela representa um dos momentos mais delicados da Medicina Veterinária. A decisão surge, na maioria das vezes, quando as possibilidades de tratamento se esgotam e o sofrimento do animal passa a exigir uma intervenção definitiva. No entanto, a escolha não depende apenas de exames e diagnósticos: ela envolve aspectos éticos, morais, o bem-estar do paciente e o estado emocional dos tutores.
Para compreender como os futuros e atuais profissionais enfrentam essa complexidade, uma pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) está investigando a percepção de estudantes e médicos-veterinários sobre os dilemas bioéticos que cercam a eutanásia.
O estudo é desenvolvido pelos estudantes Guilherme Acconcia, Luccas Fernandes e Guilherme Soares, sob orientação da professora Pamela Rodrigues Moreira, docente da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ/UFU). O objetivo principal da investigação é mapear como a tomada de decisão ocorre na prática e identificar possíveis lacunas na formação acadêmica desses profissionais.
Decisões que vão além do diagnóstico
No contexto veterinário, a eutanásia é um procedimento regulamentado, frequentemente indicado para casos como doenças sem tratamento ou quando é necessário diminuir o sofrimento de animais em estágios críticos, em prol do seu bem-estar. Contudo, os pesquisadores apontam que os maiores dilemas surgem quando variáveis externas entram na sala de atendimento clínico.
Acconcia explica que o trabalho busca olhar para além da técnica. “A pesquisa tem um cunho muito mais social do que biológico. É muito mais para poder entender como a sociedade da medicina veterinária reage com isso”, afirma o estudante. Ele ressalta que o profissional carrega uma enorme responsabilidade, pois "o médico-veterinário é a ponta final da decisão" e, muitas vezes, os critérios utilizados para o aval são morais e éticos, colocando o próprio registro profissional (CRMV) em jogo.
O conflito bioético pode se manifestar de diferentes formas. Os pesquisadores relatam situações como tutores que chegam às clínicas solicitando a eutanásia sem que o animal tenha um diagnóstico fechado, ou até mesmo quando ele está saudável, mas o pedido é feito apenas por não terem mais condições de mantê-lo. Nesses casos, o veterinário enfrenta o dilema de negar o procedimento e tentar conscientizar o responsável. Por outro lado, há o cenário inverso, que costuma ser ainda mais desafiador.
“Quando a gente vê que o animal não está tendo um bom estado de vida naquele momento e indica fazer a eutanásia, muitos tutores não aceitam. É uma das partes mais difíceis do médico-veterinário, que a gente precisa trabalhar com a parte psicológica também”, detalha Moreira. Segundo a professora, o vínculo longo entre o animal e o tutor torna a comunicação de fim de vida uma tarefa complexa, que exige que o médico-veterinário se mantenha profissional, mesmo diante do forte abalo emocional da família e do seu próprio apego ao paciente.
Entre a formação e a prática profissional
Para investigar essas nuances, a pesquisa adotou como metodologia a aplicação de questionários estruturados e anônimos. O formulário, que contém menos de 15 perguntas, coleta o perfil do participante e apresenta dois casos clínicos hipotéticos.
Diante dos cenários, os respondentes devem assinalar se concordam totalmente, se concordam parcialmente ou se discordam da realização da eutanásia naquelas circunstâncias específicas. A escolha de investigar tanto estudantes quanto profissionais consolidados tem um propósito claro.
O estudo pretende comparar a teoria vista em sala de aula com a realidade clínica. A bioética, campo que reflete sobre os limites éticos nas decisões que envolvem a vida, e a deontologia, conjunto de deveres e normas da profissão, são pilares fundamentais nesse processo de escolha.
Moreira observa que, historicamente, esses conceitos costumam ser ensinados apenas no início da graduação. “Geralmente no primeiro período a gente acaba falando um pouquinho sobre ética e moral, quando deve ou não fazer. Só que depois vão passando os períodos e não têm mais disciplinas que vão focar na bioética da eutanásia. E quando eles se formarem, eles vão ter esses casos e ter que escolher entre fazer ou não”, explica a docente.
Ao mapear as respostas do questionário, os pesquisadores esperam identificar qual é o limiar ético que influencia a decisão dos participantes e avaliar se a vivência e a experiência prática acabam suprindo as falhas do que não foi aprofundado durante os cinco anos de faculdade.
Com os resultados, a expectativa é que o estudo contribua para fortalecer o currículo acadêmico e a formação dos futuros médicos-veterinários, apontando exatamente onde a discussão sobre o tema precisa ser retomada para preparar melhor os alunos. “Um bom veterinário precisa, além de saber diagnosticar e tratar, também saber decidir e conversar com o tutor quando o tratamento deixa de ser a melhor opção”, conclui Acconcia.
A pesquisa está disponível pelo formulário online.
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Palavras-chave: pesquisa iniciação científica Medicina Veterinária eutanásia ética
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