Publicado em 21/10/2026 às 16:35 - Atualizado em 23/10/2026 às 14:00
“Um projeto de universidade está em disputa. Um projeto de educação e de formação humana está em disputa. E a gente tem que saber de que lado a gente está. E a ciência não é neutra. A ciência responsável que a gente faz é uma ciência que defende direitos sociais, que defende a cidadania, que defende a democracia, que defende uma pesquisa responsável comprometida com o desenvolvimento humano. É por isso que estamos aqui”.
As frases acima, ditas durante a cerimônia de abertura do 6º Seminário Internacional Desafios do Trabalho e da Educação no Século XXI, pela coordenadora do evento, Fabiane Previtalli, professora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), ressalta a importância do momento político atual do Brasil.
Também na cerimônia de abertura, Catarina Azeredo, vice-reitora da UFU, destacou o papel da ciência, referindo-se ao nome do seminário: “Se a gente pode usar a ciência, usar as nossas pesquisas para responder a esses desafios baseados na evidência científica, aí sim, a gente constrói caminhos alternativos, porque a simples negação da realidade que está posta não nos permite caminhar de forma que a gente consiga chegar em uma sociedade mais justa”, destacou a docente da Faculdade de Medicina.
Integram as atividades do evento palestras, apresentação de trabalhos acadêmicos, discussões em Grupos de Trabalho, a IV Mostra de Formação Política pela Sétima Arte e lançamentos de livros, como A coragem de ensinar o que é o mundo e a vida humana, do pedagogo Newton Duarte, e ‘A trilogia do trabalho: intermitência, uberização e desantropomorfização na era da IA (de)generativa’, do sociólogo Ricardo Antunes. Confira a programação completa clicando aqui e também no perfil do evento no Instagram.
O seminário, de natureza interdisciplinar e interinstitucional, é organizado por uma rede de grupos de pesquisa de programas de pós-graduação, teve início na manhã de terça-feira e termina no dia 22/10. As atividades estão sendo realizadas no auditório do bloco 3Q do Campus Santa Mônica — e também no Campus Pontal, em Ituiutaba — da UFU.
Fazem parte da rede organizadora os programas de pós-graduação em Educação (PPGED/UFU), em Ciências Sociais (PPGCS/UFU), em Educação Básica (PPGPEDU/UFU – Campus Pontal), em Geografia do Pontal (PPGEP/UFU), em Educação Profissional da Universidade de Uberaba (PPGEP/UNIUBE), o em Educação da Universidade Federal de Jataí (PPGE/UFJ), em Geografia da Universidade Federal de Catalão (PPGEO/UFCAT) e o em Educação Profissional e Tecnológica do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (PPGEB/IFTM – Uberaba).
Trabalho
Em entrevista para o portal Comunica UFU, Ricardo Antunes, ao ser perguntado qual conselho daria para os jovens que estão iniciando uma carreira profissional, comentou sua experiência pessoal, quando, ainda nos anos 1970, passou por uma transição em sua visão de mundo. Após uma formação inicial no curso de Administração da Fundação Getúlio Vargas, ele redirecionou seu foco para as Ciências Sociais na universidade pública: “me tornei um sociólogo crítico das empresas”, afirma.
“Eu queria ter o que minha família de classe média baixa não tinha. Só que na universidade — meu curso era público—, eu me defrontei com uma outra questão fundamental: ‘faz sentido eu querer coisas boas só para mim? Faz sentido eu pensar só em mim? Ou tenho que pensar na humanidade do meu país, nos que menos têm, nos que precisam?’”, revela Antunes.
Ele recomenda aos jovens, independentemente dos cursos que escolherem, que procurem uma universidade pública e exijam que ela dê uma educação não só técnica e que exijam um conhecimento profundo da área, mas sempre com o pensamento no social. “Nunca esqueça que você está em um país em que temos que pensar em uma saída para mais de 200 milhões de pessoas”, reforça.
Crítico ao modelo do trabalho contemporâneo mediado por plataformas digitais e sob controle de algoritmos, o sociólogo reprova a inteligência artificial como está concebida.
“Não é uma inteligência artificial para a humanidade, não é para melhorar a vida da população, para que nós trabalhemos menos e ganhemos mais. A inteligência artificial, tal como está sendo desenhada hoje pelas grandes corporações mundiais, é para ver quem ganha o domínio do mundo, quem vai destruir o mundo primeiro. Aliás, o Bill Gates [fundador da Microsoft] disse isso, duas semanas atrás: que ‘a inteligência artificial poderia eliminar 1 bilhão [de pessoas]’. Não é o Ricardo Antunes que está falando. É o Bill Gates. Porque a inteligência artificial está absolutamente descontrolada”, diz.
Além de lembrar que as diversas guerras atuais estão ocorrendo com a participação de inteligência artificial, o que ele batizou de “inteligência artificial (de)generativa”, Antunes é contra a IA na universidade quando ela deixa de fazer com que os estudantes pensem.
“A inteligência artificial pode me ajudar a pensar, mas se ela fizer um trabalho por mim, uma tese por mim, uma dissertação por mim, ela acaba com o sentido fundamental da educação, que é o ato pedagógico dialogal entre alunos, alunas, professores, professoras”, afirma o docente.
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Palavras-chave: Sociologia educação trabalho
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