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02/07/2021 - 14:27 - Atualizado em 05/07/2021 - 13:55
Multiletramentos, ensino e ‘Produções Pandêmicas’
Contribuindo para fortalecer a autonomia e a criatividade do professor desde a sua formação inicial
Por: 
Portal Comunica UFU
Por: 
Mirella de Oliveira Freitas*

 

Com os avanços das tecnologias de informação e comunicação, mudanças importantes impactam continuamente as práticas de linguagem em todas as esferas sociais e culturais. As novas formas de comunicação e interação fazem emergir também novas modalidades de textos, ao mesmo tempo em que exigem que as formas de linguagem existentes sejam remodeladas e, por que não, atualizadas. Esse processo de mudanças assinala uma língua que é viva, que serve à interação, ao diálogo pretendido pelo sujeito do dizer, nos inúmeros contextos situados.

Tal realidade ─ que é dinâmica, que dá voz e vez à inventividade ─, não pode ser ignorada pela escola. Esta, muitas vezes, ainda tem se mantido resistente a ampliar ou até a abandonar práticas pedagógicas improdutivas. De igual modo, é importante que as instituições de ensino superior preparem o professor em formação para fazer do espaço escolar uma extensão das interações cotidianas. Nestas, as necessidades de comunicação surgem naturalmente e as formas de se fazê-lo passam por mudanças muito frequentes.

Com essa perspectiva, o curso de Licenciatura em Letras: Língua Portuguesa com domínio de Libras da UFU tem em sua grade curricular a disciplina Multiletramentos e Ensino, ofertada no 1º período. O componente é de natureza prática, tendo como propósito desenvolver habilidades para implementação de didáticas de multiletramentos nas escolas de educação básica. Segundo a professora Roxane Rojo (livre-docente do Departamento de Linguística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, e expoente dos estudos na área no Brasil), o termo multiletramentos surgiu a partir de reflexões acerca das mudanças sociais e tecnológicas que afetam também a educação. Ele se refere às novas possibilidades de leitura e escrita na contemporaneidade, que, além de articularem linguagens híbridas (escrita, imagem estática e em movimento, áudios, etc.), também incorporam a diversidade cultural do mundo globalizado.

Diante desse cenário, apresentar os novos canais de comunicação aos futuros professores, as possibilidades pedagógicas de se empregá-los, bem como convidá-los a interagir por meio deles é um compromisso da instituição formadora com a introdução de novos paradigmas pedagógicos nas escolas. Assoma-se a essa perspectiva o intuito de se formar não só um professor com habilidades tecnológicas, mas principalmente um professor autor de sua prática, criativo e, por isso, mais autônomo, conforme ideais freireanos e também de Pedro Demo, um sociólogo da educação que defende mudanças radicais na rotina escolar.

Em vista desses propósitos e expectativas e baseando-se nas teorias de Paulo Freire e Vygotsky, na ocasião da segunda etapa das Atividades Acadêmicas Remotas Emergenciais (AARE 2, 2020) e do semestre 2020-1, recém-finalizado, os alunos da disciplina vivenciaram experiências de ensino-aprendizagem que oportunizaram a apropriação de elementos culturais, romperam com a mera transmissão, recepção e consumo de conhecimentos e os desafiaram, de fato, como autores de seu dizer. Todo o período formativo, parte dele dedicada à leitura e discussão de textos técnicos e teóricos relacionados à prática pedagógica, culminou na elaboração de produções multimodais, disponibilizadas num mural digital, na plataforma Padlet.

O mural foi intitulado “Reflexões e Produções Pandêmicas”, haja vista que, além de ser produzido em contexto de pandemia, almeja-se que se dissemine a vários públicos e que encontre nestes pessoas dispostas a dialogar com os autores a partir do conteúdo do material, curtindo, comentando e/ou compartilhando. Como se pode ver na própria página, os alunos agregaram linguagens que enriqueceram as produções, dentre as quais a Libras, que tornou mais acessível a surdos vídeos de contação de histórias e de mensagens sobre a pandemia e sobre deficiência.

 

 

Dentre a riqueza de todos os textos disponibilizados ao público, destacam-se três produções audiovisuais que exigiram edições mais complexas por parte dos estudantes e, por isso, muita pesquisa e letramento digital mais aprimorado. Um dos vídeos consiste no depoimento de uma senhora (avó de uma das estudantes), acerca do isolamento social na perspectiva dos idosos; já os outros dois são documentários produzidos neste último semestre, em grupo, também com temáticas relacionadas à pandemia: um focaliza as dificuldades por que têm passado os profissionais da área de eventos diante do “fim das festas”; o outro apresenta os desafios do ensino remoto para os professores. Particularmente a produção dos documentários ocupou a maior parte das aulas do semestre, para orientações quanto aos procedimentos e etapas de produção e leitura de bibliografia a respeito.

 

 

As produções evidenciaram a estreita relação da língua(gem) com os contextos de produção. A pandemia vivenciada no momento não era um tema obrigatório. Aliás, de certa forma, esperava-se que os estudantes optassem por outros temas de “escape”. Entretanto, ela ganhou espaço a partir da liberdade de expressão conferida aos autores e de experiências vivenciadas por eles próprios (alguns, músicos e outros com pais e amigos professores, por exemplo). Os sujeitos do dizer se apropriaram de seus próprios contextos e se fizeram ouvir a partir de suas percepções, sentimentos e criticidade.

Para as produções, respeitou-se o conhecimento prévio dos graduandos, mas não sem requerer deles a pesquisa, a busca por alternativas, reconhecendo-se, como Paulo Freire, que todos somos sujeitos inacabados. O trabalho foi encaminhado segundo o que propõe Vygotsky (A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores): "O único bom ensino é o que se adianta ao desenvolvimento", ou seja, que se baseia no que o estudante, potencialmente, pode vir a conhecer e a realizar.

Subjacente a essa perspectiva, abriu-se espaço para os acadêmicos se expressarem, visando-se a uma proposta que fosse além do cumprimento de uma tarefa. A língua(gem), então, deixou de ser vista, nesses momentos, como algo externo aos alunos.

A expectativa é de que as vivências na disciplina impactem, em alguma medida, a formação identitária dos futuros professores que dela participaram ─ ainda que as ações pareçam ter sido mínimas e mesmo diante de limitadores pertinentes ao micro e ao macro contexto de sua realização. Afinal, é também um desafio fazer com que as opções pedagógicas ganhem o mesmo significado para os estudantes nesse momento inicial de formação, fazer com que compreendam o porquê do que fizeram e do como foi realizado, principalmente porque as práticas tradicionais ainda sustentam as bases da educação.

No relatório que produziram ao final da disciplina ou por meio de mensagens eletrônicas, a maioria dos acadêmicos reconheceu a validade da proposta e os aprendizados que proporcionou, apesar das dificuldades decorrentes e de envolver tarefas bastante árduas. De fato, apenas um estudante expressou resistência à fuga ao convencional. Assim, os resultados foram considerados satisfatórios e, por isso, pretende-se renovar e aprimorar a metodologia.

Os estudos dos (multi)letramentos encorajam e contribuem para o fortalecimento de práticas de ensino-aprendizagem que sejam mais arrojadas, no sentido de levarem os estudantes a “colocarem a mão na massa”. De igual modo, as disciplinas de natureza prática, previstas, até então, nos currículos acadêmicos. Também, a pretendida curricularização da extensão tende a fortalecer orientações metodológicas nessa direção. Em se tratando dos cursos de licenciatura, incentivará o envolvimento com a prática, tão logo já contribuindo para fortalecer a autonomia e a criatividade do professor desde a sua formação inicial.

 

*Mirella de Oliveira Freitas, doutora em Letras, professora adjunta do curso de Letras: Língua Portuguesa com domínio de Libras, campus Santa Mônica da Universidade Federal de Uberlândia. E-mail: mirellafreitas@ufu.br.

 

A seção "Leia Cientistas" reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao. Se você já enviou o seu texto, aguarde que ele deve ser publicado nos próximos dias.

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