Por: Diélen Borges
Publicado em 31/03/2025 às 13:22 - Atualizado em
31/03/2025 às
17:29
A professora Yara Cristina de Paiva Maia é tão organizada que, depois que marcamos a entrevista para a Série Mulheres e Meninas na Ciência, leu as reportagens já publicadas com outras pesquisadoras e enviou as suas respostas, antecipadamente, por e-mail. Mas é claro que fomos até a sala nova dela, de diretora de Pós-Graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), fizemos outras perguntas e apuramos mais informações.
Ela é docente e pesquisadora do curso de Nutrição da Faculdade de Medicina (Famed/UFU) desde 2011 e coordena o Grupo de Pesquisa em Biologia Molecular e Nutrição (BioNut). Assumiu o cargo de gestão na Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação em janeiro deste ano.
Decorou a sala com um microscópio vermelho e uma foto do seu grupo de pesquisa para “nunca esquecer que é uma cientista”. Lembranças e homenagens de seus estudantes são várias pelo ambiente. É professora desde criança, quando dava aula para as bonecas.
São Yaras, como as Fernandas e as Gilmores Girls, e na entrevista contamos a história rara de uma menina que recebeu o mesmo nome da mãe. Como outras mulheres que chegam aos cargos de gestão, a agenda é totalmente preenchida, e ela gosta de papel. Continua orientando jovens cientistas e levando os filhos à escola. Os quadros da família e da cidade de Araxá (MG) mostram para onde ela volta.
Quem é você na plataforma Lattes?
Sou nutricionista, graduada pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) em 2000, bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) - Nível 2, diretora de Pós-Graduação da UFU e membro da Câmara de Ciências da Saúde da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). Minha linha de pesquisa está centrada na interseção entre Biologia Molecular, Nutrição e Oncologia, tema explorado durante o meu mestrado e o doutorado na Ufop (2005-2011), e ao qual continuo me dedicando na UFU desde 2011, quando ingressei como docente na instituição e criei o Grupo de Pesquisa em Biologia Molecular e Nutrição (Bionut/Famed/UFU), cadastrado no CNPq.
Após meu credenciamento, em 2011, como docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCSAUDE/UFU) [nota 6 na Capes] e do Programa de Pós-Graduação em Genética e Bioquímica (PPGGB/UFU) [nota 5 na Capes], o grupo de pesquisa tem atraído novos pesquisadores – atualmente composto por 23 integrantes – e publicado os resultados em periódicos de destaque na área, como Nutrition, European Journal of Nutrition, Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, British Journal of Nutrition, Nutrients e Scientific Reports, entre outros.
Realizei estágio de pós-doutorado no Departamento de Imunologia e Microbiologia Médica da Universidade da Califórnia, Davis (Estados Unidos). Também participei de missões de trabalho internacionais na University of Stuttgart Faculty, Institute of Cell Biology and Immunology, financiadas pelo Programa Institucional de Internacionalização (Capes - PrInt) [com a pesquisa Smart Prognostics: Prognostic accuracy in a software], e no Institute of Genetics and Cancer, The University of Edinburgh [Escócia].
Minha principal contribuição para a literatura científica tem sido a integração de marcadores nutricionais, clínicos e moleculares para o diagnóstico, prognóstico e monitoramento terapêutico em oncologia. Nos últimos dez anos, publiquei 56 artigos, sendo 32 nos últimos cinco anos (2020-2024), período em que 70% dessa produção foi classificada como A1/A2 no Qualis/Capes/Nutrição (2017-2020). A quase totalidade está relacionada à nutrição e biologia molecular, com forte vínculo à produção discente. Dos 32 artigos publicados nos últimos cinco anos, em 22 deles eu me encontro como última, penúltima ou autora correspondente, demonstrando assim protagonismo e liderança científica.
Desde 2011, realizei quatro supervisões de pós-doutorado, orientei 11 doutorandos, 21 mestrandos e 18 bolsistas de iniciação científica. Todos os meus indicadores de produtividade vêm apresentando crescimento nos últimos dez anos. Sou pesquisadora do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia em Teranóstica e Nanobiotecnologia (INCT-TeraNano) e da Rede Mineira de Imunobiológicos e Biofármacos (REMITRIBIC).
Estabeleci colaborações com pesquisadores de instituições como a University of Edinburgh – Institute of Genetics and Cancer, Cancer Research UK Edinburgh Centre, a University of California, Davis (Estados Unidos) e a Universidad de las Américas Puebla (México). No Brasil, mantenho parcerias com o Departamento de Oncologia Clínica da Fundação Pio XII – Hospital de Câncer de Barretos, além da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).
Na área de gestão acadêmica, fui coordenadora do PPGCSAUDE e do PPGPCS da UFU por dois mandatos (agosto de 2019 a dezembro de 2023) e membro dos colegiados desses programas entre 2017 e 2024. Também tenho experiência na coordenação de projetos de pesquisa financiados.
O grupo de pesquisa que coordeno recebeu 20 prêmios nos últimos anos. Dentre os destaques estão: Melhor Tese de Doutorado do PPGGB (2022) – Prêmio UFU de Teses; Prêmio Marcos Moraes 2023 – Primeiro lugar na categoria Iniciativas para Controle do Câncer (Fundação Ary Frauzino para Pesquisa e Controle do Câncer – Fundação do Câncer); Melhor Tese PPCSA (2019 e 2018); Prêmio Destaque em Pesquisa – Mulheres na Ciência (2020) – Faculdade de Medicina/UFU; e Menção Honrosa por Excelência na Iniciação Científica e Tecnológica (16º Prêmio CNPq).
Possuo ainda seis patentes depositadas e duas cartas-patente concedidas nos últimos cinco anos, evidenciando minha atuação na produção tecnológica da pesquisa. Além disso, coordenei projetos de extensão e iniciativas de impacto social na área de nutrição e oncologia, cujos resultados têm sido divulgados em rádio e TV, com matérias e entrevistas publicadas em canais de visibilidade nacional, como a CNN.
Atuo como revisora ad hoc em periódicos científicos e, atualmente, meu foco de pesquisa está na construção de um modelo preditivo baseado em software para o diagnóstico precoce da Caquexia Associada ao Câncer (CAC) em pacientes com tumores avançados.
E quem é você além do Lattes?
Sou a Yara, filha do Antonio Carlos e da Yara. Sim! Tenho o mesmo nome da minha mãe e nasci no mesmo dia que ela em um parto natural em 31 de julho de 1975. Meu pai que escolheu o meu nome como uma homenagem à minha mãe. Algo não muito comum em mulheres. Carrego em mim as raízes de Araxá (MG), mas sou movida pelo desejo de desbravar o mundo. Sou a esposa do Marcelo Maia [professor da Faculdade de Computação da UFU], mãe da Mariana e do Marcelo Filho – pilares que dão sentido à minha vida.
Sou uma pessoa organizada e que gosta de agendas e planilhas. Escrevo para esvaziar a mente e dar forma aos pensamentos. Essa é uma forma que eu encontrei de organizar os meus pensamentos e a minha vida.
O meu esporte é a corrida de rua. Eu corro porque a corrida é minha meditação em movimento, o instante em que respiro fundo e deixo o tempo fluir no compasso dos meus passos. E, todos os dias, bem cedo, estou na musculação ou na corrida. Meu cronotipo é matutino. Corro ouvindo música, deixando as melodias se entrelaçarem com os pensamentos. Amo um bom podcast, daqueles que provocam e expandem a visão de mundo.
Gosto de viajar para onde os mapas me levarem. Mas também gosto do que me abraça por dentro: música, teatro, poesia, natureza. Aprecio a música de Nando Reis, Coldplay e Marisa Monte. Me encanto com a magia do Teatro Mágico. E, entre tantos livros, volto sempre para Rubem Alves – porque suas palavras me lembram que a vida é poesia e que, no meio da ciência, também há espaço para sonhos.
Você disse que gosta de viajar e conhecer lugares diferentes. Quais mais te marcaram?
Entre os muitos lugares que já conheci, um dos que mais me marcou foi o Museu de Ciências da Universidade de Edimburgo, na Escócia. Foi lá que vivi um dos momentos muito emocionantes da minha trajetória como pesquisadora: o encontro com a ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado a partir de uma célula adulta. Lembro-me do instante em que parei diante da vitrine onde seu corpo taxidermizado está exposto. Foi impossível não sentir um arrepio. Ali estava um marco da ciência, uma revolução na Biologia Molecular, algo que antes parecia impossível e que mudou completamente o que sabemos sobre clonagem e manipulação genética.
Naquele momento, uma aluna registrou a cena em uma foto – e foi só então que percebi o quão impactada eu estava. Era mais do que ver a Dolly, era sentir a grandiosidade da ciência, perceber como o conhecimento tem o poder de desafiar limites e transformar o mundo.
Além disso, o museu me encantou pela forma como apresenta a biologia, o DNA, os processos celulares e a evolução da ciência ao longo dos séculos. Foi uma experiência que não apenas reforçou minha paixão pela pesquisa, mas também me lembrou da importância da curiosidade e da busca incansável por respostas. Sair do laboratório e estar diante de um dos maiores ícones da ciência moderna foi como fechar um ciclo – da teoria para a história, do estudo para o impacto real.
Uma outra viagem marcante foi neste ano, em Yosemite (Estados Unidos). Um dos lugares mais impactantes que já conheci. E foi lá, em uma viagem de férias, que escrevi o meu primeiro projeto institucional de bolsas na UFU como diretora de Pós-Graduação. A minha filha registrou um dos momentos que eu estava escrevendo.
Como era a sua relação com a ciência quando você era criança?
A ciência sempre esteve presente, ainda que de forma sutil, no cenário da minha infância. Na sala da minha casa em Araxá tinha a Enciclopédia Delta Universal, e eu me perdia entre suas páginas, fascinada por curiosidades sobre o mundo, descobertas inesperadas e explicações que pareciam mágicas. Era um portal para outros tempos, outros lugares, outras formas de entender a vida.
Na casa dos meus avós maternos, um jabuti habitava o quintal. Eu passava horas observando seu casco, intrigada com seus padrões e texturas, tentando entender seu ritmo, sua lógica de existir. Era um pequeno mistério ambulante, e eu, sem saber, já exercitava o olhar curioso que a ciência exige – o desejo de perguntar, de investigar, de encontrar sentido nas coisas.
Sempre gostei de ler. Lia tudo que estivesse ao alcance dos olhos: livros, rótulos, embalagens... As palavras me seduziam, e os livros eram passagens para mundos que só a imaginação alcançava.
A escola foi um capítulo especial. Estudei no Colégio São Domingos, em Araxá, e as lembranças desse tempo são como um álbum de momentos felizes. Ali, me envolvi com teatro, dança, música – expressões que despertaram minha criatividade e moldaram minha maneira de ver o aprendizado. Mas foram os professores que realmente deixaram marcas profundas. Tia Darci, Bebel, Marcos Antônio Bonfim – cada um, à sua maneira, transformava a sala de aula em um palco para o encantamento. Eles ensinavam com paixão, com ludicidade, com vivências que extrapolavam o quadro-negro. Eu amava quando as aulas vinham acompanhadas de filmes, atividades práticas, experimentações. Era uma verdadeira viagem pelo conhecimento.
E talvez tenha sido ali que nasceu a professora que sou hoje. Em casa, tínhamos um quadro-negro, e ele era meu universo particular. Eu passava horas escrevendo, apagando, rabiscando ideias que, na minha mente de criança, faziam todo sentido. Minhas alunas eram as bonecas – pacientes, silenciosas, sempre dispostas a mais uma aula. Eu ensinava com seriedade, como se aquele pequeno espaço fosse um auditório cheio.
No pré-escolar, algo me marcou profundamente: terminei o processo de alfabetização antes do tempo previsto, e minha professora me convidou para ajudá-la a ensinar os colegas a ler. Aquilo não era apenas um gesto de reconhecimento – era um chamado. Servir, colaborar, ajudar sempre fizeram parte de quem eu sou. Naquele momento, mesmo sem compreender totalmente, senti que ensinar também era um jeito de amar.
Você tem alguma boa história que já vivenciou como cientista e que, quando conta, todo mundo acha interessante? Poderia nos contar também?
Desde pequena, as histórias me encantavam. Meu pai é um estudioso de genealogia e, ao longo dos anos, traçou nossa árvore genealógica com quase vinte mil pessoas cadastradas. Entre os ramos desse grande mapa da nossa família, ele me contou algo que me surpreendeu: Carlos Chagas faz parte da nossa linhagem. Sim, aquele mesmo Carlos Chagas, cientista brilhante, que revolucionou a medicina ao descobrir a doença que leva seu nome. O Carlos Chagas está entre os 19.408 registros no banco de dados na genealogia da nossa família!
Mas há uma história sobre ele que meu pai me contou quando criança e que acho muito interessante e sempre gosto de contar para os meus alunos em aula. Meu pai me contou que, quando jovem, Carlos Chagas não queria saber de abrir consultório. Ele passava horas e horas caçando borboletas, observando insetos e se perdendo em estudos aparentemente sem sentido. Sua mãe, preocupada, desabafava com as amigas: “Meu filho acabou de se formar em Medicina, mas não quer saber de clínica! Só quer saber de pegar mosquitos, borboletas... O que será dele?” As primas tentavam acalmá-la: “Isso é só uma fase! Logo ele se cansa e abre um consultório!”.
Mas não. Carlos Chagas tinha um outro olhar. Um olhar de cientista. Um olhar que via além do óbvio. E, quando questionado pela mãe, ele respondeu com firmeza: “Mamãe, se eu abrir um consultório, poderei salvar algumas dezenas de vidas. Mas, com o trabalho que estou fazendo, posso salvar milhões.”
E assim foi. A insistência de um jovem que via grande levou a uma das maiores descobertas médicas do Brasil. Essa história sempre me fez pensar na ciência como um caminho de descobertas inesperadas. Muitas vezes, começamos buscando uma coisa e encontramos algo ainda maior.
De certa forma, eu também tenho uma história como cientista que começou sem que eu esperasse… Quando comecei o meu doutorado, em 2007, eu queria estudar biomarcadores para o câncer de mama. Minha pesquisa envolvia a coleta de sangue para analisar esses sinais do câncer. O tempo passou. Em 2012, já como professora da UFU, comecei a orientar uma aluna, Alinne Silva, que seguiu essa linha de pesquisa na iniciação científica, no mestrado e no doutorado. Ao longo de dez anos, coletamos amostras de sangue de mulheres com câncer de mama e com doenças benignas da mama. Começamos a traçar perfis moleculares, procurando padrões.
E então, algo inesperado surgiu. Descobrimos que havia um padrão molecular claro, que poderia indicar a presença ou a ausência do câncer e poderia ajudar no monitoramento terapêutico. Era como encontrar um mapa escondido, que mostrava um caminho antes desconhecido. Sem bisturi, sem cortes, apenas com uma amostra de sangue, poderíamos identificar e monitorar o câncer de mama.
E assim, iniciei a linha de pesquisa em biópsia líquida – um método inovador que permite diagnosticar e acompanhar a doença de forma minimamente invasiva. No dia 22 de dezembro de 2020, depositamos o pedido de patente: "Método, Painel e Kit para o Diagnóstico e Monitoramento do Tratamento de Pacientes com Câncer de Mama". Em 5 de julho de 2022, ele foi publicado nacionalmente. E, em 10 de outubro de 2022, nosso artigo foi publicado no International Journal of Molecular Sciences, um periódico de alto impacto (fator 6.2). Uma ideia que começou lá atrás, com um simples exame de sangue, agora estava registrada como uma inovação científica.
Nossa pesquisa continua. Estamos analisando amostras de pacientes em diferentes estágios da doença, desde aquelas com tumores iniciais até aquelas em cuidados paliativos. Queremos transformar os dados que coletamos em uma ferramenta acessível.
No fim, tudo se conecta… Quando olho para trás, vejo que essa descoberta começou com uma curiosidade, assim como no caso de Carlos Chagas. Assim como ele, não estávamos procurando exatamente isso – mas encontramos. A ciência é assim. Ela acontece nos detalhes, no que não se espera, no que só se enxerga quando se olha com outros olhos.
Quais as barreiras que as mulheres enfrentam no mundo da ciência?
A ciência sempre se apresentou como um campo onde a meritocracia deveria prevalecer. Mas, ao longo da história, sabemos que nem sempre foi assim para as mulheres. Muitas cientistas brilhantes precisaram lutar contra estereótipos e estruturas que dificultavam seu reconhecimento.
Uma das primeiras barreiras que enfrentamos está no próprio imaginário social. Quando pensamos em cientistas, ainda hoje, a imagem que surge na mente da maioria das pessoas é a de um homem, de cabelos brancos e despenteados, talvez Einstein. Mas, ao lado dele, deveríamos visualizar também Marie Curie, Rosalind Franklin, Katherine Johnson, Bertha Lutz e tantas outras mulheres que moldaram a ciência. As meninas precisam crescer sabendo que podem ser cientistas, que esse universo também pertence a elas.
Tive o privilégio de crescer em uma família que sempre me apoiou. Nunca ouvi que ciência não era para meninas, nunca fui desencorajada a seguir meu caminho. Mas sei que essa não é a realidade de muitas mulheres. O incentivo ao pensamento científico desde cedo ainda é desigual. Muitas meninas são direcionadas para áreas que a sociedade tradicionalmente associa ao "feminino", enquanto os meninos são incentivados a explorar tecnologia, exatas e inovação. Essa barreira cultural precisa ser quebrada, e a mudança começa nas pequenas coisas: nos brinquedos que damos às crianças, nas referências que apresentamos a elas, no modo como tratamos seus interesses.
Outro desafio está nos cargos de liderança. Ainda vemos mais homens do que mulheres ocupando posições de decisão na ciência e na gestão acadêmica. Isso não acontece porque faltam mulheres capacitadas, mas porque, historicamente, os espaços de poder foram estruturados para privilegiar os homens. Precisamos de mais mulheres dirigindo laboratórios, coordenando programas de pesquisa, presidindo instituições científicas. A equidade não acontece por inércia – precisamos lutar para que as estruturas sejam mais inclusivas.
Há também um fator silencioso, mas poderoso: o impacto da maternidade na trajetória científica. A ciência exige tempo, dedicação e um nível de imersão que, muitas vezes, conflita com as responsabilidades familiares. Publicar artigos, orientar alunos, escrever projetos, conduzir experimentos – tudo isso exige um comprometimento profundo e constante. E, culturalmente, as mulheres ainda carregam a maior parte das responsabilidades com os filhos e a casa.
Quando uma cientista engravida, amamenta ou cuida dos filhos pequenos, é essencial que ela tenha uma rede de apoio. Sem esse suporte, muitas mulheres acabam reduzindo sua produção acadêmica ou até mesmo abandonando suas carreiras. Essa é uma das razões pelas quais, apesar de termos muitas pesquisadoras brilhantes, ainda vemos menos mulheres do que homens atingindo os níveis mais altos da carreira científica.
Posso falar por experiência própria. Quando meus filhos eram pequenos e eu ainda estava construindo minha trajetória acadêmica, contar com uma rede de apoio fez toda a diferença. Ter alguém que pudesse estar ali quando eu precisava me dedicar intensamente à pesquisa me permitiu seguir em frente. Mesmo hoje, com meus filhos adolescentes, esse equilíbrio continua sendo fundamental.
Olhando para o futuro, acredito que temos um papel ativo nessa transformação. Precisamos de políticas que considerem as necessidades específicas das mulheres na ciência. Precisamos incentivar as novas gerações de meninas a se verem como cientistas. Precisamos normalizar a presença feminina nos cargos mais altos da academia e da pesquisa. Porque, no fim das contas, as mulheres podem ser o que quiserem ser. E a ciência só tem a ganhar quando inclui, valoriza e promove essa diversidade de olhares e experiências.
Hoje, você é diretora de Pós-Graduação, que também é um espaço de poder. Como você se vê nesse papel?
Curiosamente, a gestão superior nunca foi um objetivo para mim. Meu lugar sempre foi na sala de aula, no laboratório, no hospital, onde a ciência acontece no seu estado mais puro. Mas a vida tem caminhos inesperados, e quando surgiu a oportunidade de contribuir com a pós-graduação da UFU de uma forma mais ampla, eu aceitei o desafio.
Durante o processo eleitoral, engajei-me ativamente na construção de uma proposta que fizesse sentido para mim e para as necessidades da universidade. Auxiliei na elaboração da carta-programa para a gestão superior e, com minha experiência de mais de quatro anos e meio como coordenadora de dois Programas de Pós-Graduação, fui convidada para assumir a Diretoria de Pós-Graduação. Aceitei porque acredito na pós-graduação como um pilar essencial da universidade. Aceitei porque vi que poderia contribuir para que a UFU avançasse ainda mais.
Enquanto coordenadora, dediquei-me intensamente ao crescimento dos programas de pós-graduação, trabalhando para melhorar seus indicadores e fortalecer sua posição na avaliação da Capes. Mas não foi só para os programas que coordenei: ajudei outros PPGs a se estruturarem melhor, contribuí na construção de autoavaliações, planejamento estratégico e no preenchimento dos relatórios quadrienais. Meu objetivo sempre foi colaborar, auxiliar, fortalecer a pós-graduação como um todo.
Agora, à frente da diretoria, mantenho essa mesma postura. Não estou aqui por status ou ambição pessoal, mas porque acredito que posso fazer a diferença. Tanto é que trouxe para minha sala um microscópio e uma foto do meu grupo de pesquisa, para nunca esquecer quem sou e de onde vim. Estou aqui temporariamente, mas minha essência continua sendo a da cientista e professora que acredita na transformação pelo conhecimento.
Nestes três meses à frente da diretoria, tenho me dedicado a ouvir. Fiz um diagnóstico da equipe, mantive escuta ativa com coordenadores de PPGs, secretários, técnicos – porque gestão se faz junto, e a construção precisa ser coletiva. Já realizamos a autoavaliação da Diretoria de Pós-Graduação e estruturamos um planejamento estratégico de curto e longo prazo. Agora, estamos na fase de reuniões para consolidar e avaliar nossas estratégias.
Como diretora, vou me dedicar para que a pós-graduação continue sendo referência em excelência. Quero oferecer um suporte ativo para que os Programas de Pós-Graduação aumentem suas notas, com acompanhamento contínuo ao longo da quadrienal. Mais do que pensar no resultado, quero fortalecer o processo, ajudando os PPGs a desenvolverem um planejamento estratégico sólido e uma Comissão Permanente de Avaliação que seja construída ao longo dos anos.
Ser diretora de Pós-Graduação é um desafio imenso, com inúmeras atribuições, mas vejo isso como parte do jogo. A pós-graduação é a espinha dorsal da pesquisa universitária, e se queremos uma UFU mais forte, precisamos de uma pós-graduação consolidada e bem estruturada.
E sobre ser mulher e ocupar esse espaço, acredito que fui convidada não pelo fato de ser mulher, mas pelas minhas habilidades e competências. Não porque uma mulher faz melhor ou pior, mas porque faz diferente. A gestão feminina carrega um olhar cuidadoso, estratégico e integrador. E é com esse olhar que eu sigo, porque sei que o impacto da ciência vai muito além do laboratório – ele começa em como estruturamos e fortalecemos quem faz ciência.
Do que precisamos para ter mais meninas e mulheres na ciência?
A presença feminina na ciência não depende apenas da vontade das meninas em seguir essa carreira, mas do ambiente que criamos para que elas possam enxergar esse caminho como uma possibilidade real. Precisamos transformar o cenário desde a base, estimulando a curiosidade e garantindo que a ciência seja apresentada como algo acessível, estimulante e, acima de tudo, inclusivo.
Uma das ações mais fundamentais é capacitar professores para proporcionar aulas mais lúdicas e interativas, despertando o espírito investigativo nos alunos. Segundo Carl Sagan, “toda criança nasce cientista. O problema é como permanecermos cientistas ao crescer”. Isso significa que a curiosidade natural precisa ser cultivada e não desestimulada. Se não houver um ambiente que alimente essa chama da descoberta, dificilmente uma menina seguirá adiante nesse caminho.
Além disso, é essencial trazer problemas reais do nosso cotidiano para dentro das salas de aula, conectando a ciência ao mundo ao redor. Perguntas como "por que as coisas são assim?" e "e se fossem diferentes?" despertam o pensamento crítico e criam nas alunas a capacidade de questionar e investigar. Como Angela Saini destaca em Inferior: How Science Got Women Wrong, mudar a forma como a ciência é ensinada pode ajudar a desconstruir estereótipos e aumentar a representatividade feminina nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Outro fator essencial é a representatividade. Meninas precisam ver mulheres cientistas para acreditarem que podem ser uma delas. Como a matemática Katherine Johnson, que ajudou a levar o homem à Lua, ou Marie Curie, que revolucionou a Física e a Química. Quando mostramos exemplos reais, tornamos o caminho mais concreto e possível. Como bem disse Marian Wright Edelman, "você não pode ser o que não pode ver."
A ciência exige persistência e resiliência, mas quando uma mulher prospera, ela abre caminhos para muitas outras. Precisamos garantir que mais meninas tenham a oportunidade de se encantar pela ciência e, mais do que isso, que tenham condições de permanecer e crescer nesse ambiente. O futuro da inovação depende da diversidade de olhares, e incentivar mais mulheres na ciência não é apenas uma questão de equidade – é uma necessidade para o avanço do conhecimento.
E o interesse pela Biologia Molecular?
Meu caminho na Biologia Molecular começou na graduação, quase 30 anos atrás, quando comecei minha iniciação científica na Ufop, explorando a relação entre biologia molecular e oncologia. Na época, a Ufop já possuía um núcleo de pesquisa nessa linha, e foi ali que minha curiosidade se transformou em paixão.
O fascinante da Biologia Molecular é a sua capacidade de revelar o invisível – entender como pequenas alterações em nível celular podem determinar o curso de uma doença. Cada descoberta é um pequeno passo em direção a respostas maiores.
Ao longo da minha trajetória, fui ajustando as oportunidades que surgiam, sempre alinhando-as aos meus interesses. A ciência é, em grande parte, feita de oportunidades e escolhas – e eu escolhi seguir esse caminho porque vi nele um potencial de impacto real na vida das pessoas.
Biologia Molecular e Nutrição se entrelaçaram na minha pesquisa, e, desde então, sigo desvendando os mecanismos moleculares por trás das doenças, sempre buscando formas de transformar conhecimento em soluções para a saúde e que tenham impacto social.
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