Publicado em 17/12/2025 às 16:56 - Atualizado em 22/12/2025 às 13:49
Em pleno carnaval da cidade de Uberlândia, na Praça Clarimundo Carneiro, durante o Bloco do Seu Chico, acontece um momento de encontro que acompanha e atravessa personagens que carregam em si memórias, silêncios e escolhas que ainda não sabem nomear. É assim que se inicia “Sol do Amanhã”, romance de Richard Augusto, mestre em Artes pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e membro da Academia de Letras de Uberlândia, ocupando a cadeira nº 29, que tem como patrono Ariano Suassuna. O livro de Augusto aborda atravessamentos de presente, de passado e de futuro; nele, a cidade de Uberlândia não é apenas cenário, mas uma participante ativa da narrativa, transformando-se com o tempo, reagindo à chuva, ao sol, aos alagamentos e às transformações que acontecem dentro dos personagens e no próprio espaço urbano.
A obra acompanha Moyo, personagem que ressurge das águas do rio Uberabinha em um gesto simbólico de renascimento e rito de passagem, iniciando uma jornada de enfrentamento de suas sombras e reconstrução de si. O sol, elemento central do título, funciona como metáfora de esperança, continuidade e futuro possível após a travessia das águas da memória. Ao reunir personagens, referências históricas e simbólicas da cultura negra, o romance reivindica pertencimento e visibilidade para a população negra na construção da identidade da cidade. “É um livro sobre ancestralidade afro-brasileira, que traz a experiência de um afro-uberlandense na cidade de Uberlândia”, acrescenta Augusto.
A ideia para a obra surgiu dentro e fora do mestrado. A pesquisa de Augusto já se relacionava ao imaginário da cidade de Uberlândia, ao mito do progresso e a como as heranças culturais resistem e transpõem tal imaginário. Em sua trajetória como professor de Artes na rede estadual de ensino de Minas Gerais, em determinado momento, a Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais publicou uma resolução apontando um déficit de leitura e escrita entre os alunos do ensino fundamental e médio da educação básica. O mestre em Artes então desenvolveu um projeto em sala de aula, apresentando a Jornada do Herói em doze etapas como forma de estimular a leitura e a escrita, até que, certo dia, os alunos perguntaram se o professor já havia publicado um livro. A resposta era negativa e, a partir daquele momento, Augusto começou a escrever uma história sobre sua chegada a Uberlândia, durante o carnaval de 2017.
“A partir daí, o horizonte foi se abrindo e a história foi se transformando em ficção. Os personagens ganharam voz própria e, depois de três anos, nasceu Sol do Amanhã”, conta o autor.
Durante seu mestrado, Augusto teve como objeto de estudo a memória da cidade de Uberlândia. De acordo com ele, a dissertação abriu caminhos para estudar e vivenciar os fenômenos do imaginário sociocultural, traduzi-los em mito e expressá-los por meio da arte, da literatura e das artes visuais e, sobretudo, para construir um olhar e uma produção decolonial sobre a história da cidade.
Em seu livro, a cartografia afetiva estrutura a narrativa, porque a cidade é construída a partir de histórias que nem sempre aparecem nos registros oficiais. O enredo avança conforme os personagens se deslocam pelo espaço urbano e, ao mesmo tempo, pelas próprias memórias, enquanto a cidade se revela à medida que os personagens lembram, esquecem, retornam e se transformam.
“A cidade de Uberlândia me acolheu, me formou artisticamente e atravessou de forma significativa minha vida profissional, acadêmica e pessoal. Ao longo de nove anos, fui criando vínculos afetivos com seus espaços, suas celebrações, suas contradições e com as pessoas que a habitam. Escrever sobre Uberlândia foi uma forma de escutá-la com mais atenção, de caminhar por suas ruas com outros olhos, de dar voz às camadas invisíveis e de me conectar com a memória coletiva da cidade”, explica o autor sobre escolher retratar Uberlândia em sua obra.
Para Augusto, a literatura atua como uma forma de preservar a memória coletiva. De acordo com ele, por meio da ficção, é possível registrar experiências, afetos, conflitos e modos de viver que se manifestam no imaginário e na arte e que, muitas vezes, não se encontram registrados na produção acadêmica, historiográfica e/ou científica. O romance “Sol do Amanhã” é um projeto que conta com o apoio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) de fomento à cultura, da Prefeitura de Uberlândia via Secretaria Municipal de Cultura e Turismo e também do Ministério da Cultura e Governo Federal.
O livro pode ser adquirido por meio do site da editora A Arte da Palavra ou de forma gratuita pelas plataformas Kindle e Google Play livros.
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Palavras-chave: livro Mestrado Artes história narrativa
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