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Ciência

Carnaval é palco para narrativas de resistência

Pesquisadoras aprofundam debate sobre o ensino de História antirracista

Publicado em 10/02/2026 às 12:57 - Atualizado em 10/02/2026 às 18:40

Em 2019, a Estação Primeira de Mangueira destacou figuras deixadas de lado na história brasileira no samba-enredo “História para Ninar Gente Grande” (Foto: Richard Santos/Riotur)

O samba-enredo e o Carnaval, muito bem conhecidos pelos brasileiros que assistem aos desfiles em fevereiro, podem também ser importantes instrumentos no ensino de História. Essa é a principal reflexão de duas pesquisas de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) desenvolvidas na graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que investigam o potencial dessas manifestações culturais para um ensino antirracista e decolonial.

As pesquisas foram realizadas por Agatha Santana e Giovana Pagni sob orientação de Nara Rúbia de Carvalho Cunha, professora do Instituto de História (INHIS/UFU). Os trabalhos partem de inquietações a respeito da aplicação da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas. Apesar de representar um avanço, a legislação estabelecida em 2003 ainda encontra limites na prática escolar, o que motivou as pesquisadoras a voltarem seus olhares para a avenida.
 

O samba-enredo como documento histórico

Com origens ligadas ao Império Romano, ao Egito Antigo e à práticas 'pagãs' e cristãs da Europa, o Carnaval chegou ao Brasil por meio dos colonos portugueses, que celebravam os entrudos, festas de entrada da Quaresma características por suas brincadeiras nas ruas. Ao longo do tempo, a festa foi se tornando intrínseca à cultura negra e popular, que a transformou em algo singular do brasileiro (conheça mais sobre a história do Carnaval na nossa seção “Leia Cientistas”).

É nesse processo histórico, com o Carnaval de rua já consolidado, que o samba-enredo se afirma como um de seus principais elementos narrativos — e como ponto crucial das pesquisas de Pagni e Santana. As canções, que ilustram o tema alegórico escolhido por cada escola de samba, dão destaque a personagens e pontos de vista que costumam ser deixados de lado no ensino tradicional de História.

Um exemplo citado por Santana é o samba-enredo da Mangueira de 2019, História para Ninar Gente Grande. “Ele me ajudou muito a escrever o TCC. Tinha uma crítica muito forte aos heróis que a gente conhece na escola, como Tiradentes, Dom Pedro e a Princesa Isabel”, comenta.

No desenvolvimento de sua monografia, a diferença entre analisar registros oficiais e a memória cultural registrada no samba-enredo se tornou evidente para a pesquisadora. “Quando você vai analisar um documento, um arquivo, ele já está ali. É só buscar as referências e complementar a pesquisa. Agora, o Carnaval é uma coisa maior. Eu tive que buscar desde as origens dele, porque eu queria trazer o Carnaval para entender a história local, a história de Uberlândia”, explica Santana.
 

A pesquisadora Agatha Santana sendo entrevistada.
‘É um privilégio hoje no Brasil ter acesso à educação’, destaca Santana (Foto: Mateus Amorim)

Da avenida à sala de aula

Durante uma experiência que teve em sala de aula, quando participou de um Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID/UFU) em 2024, Santana abordou os sambas-enredo para explicar o conceito de “patrimônio imaterial”, e percebeu que os estudantes estabeleciam conexões imediatas com seu cotidiano. “Eles associaram muito à Congada, porque é a realidade que eles mais vivem aqui na cidade”, relata.

Essa aproximação, segundo a pesquisadora, favorece o sentimento de pertencimento e  fortalece a relação dos alunos com o conhecimento histórico. “Quando você traz esse material didático para questões da história local, o aluno consegue ter um pertencimento sobre essas questões”, afirma.

Ao conversar com a orientadora de ambas as pesquisas, Rúbia aponta que o potencial educativo dos sambas-enredo não se restringe à sala de aula. “Eles são verdadeiras aulas de história. Eles também nos ensinam, ajudam a formar as nossas compreensões do que é o nosso passado, da nossa história, da nossa trajetória enquanto população, enquanto nação”, destaca a professora.
 

Memória e resistência

O debate sobre memória ocupa lugar central nos trabalhos. Para Santana, as narrativas presentes no Carnaval permanecem atuais porque dialogam diretamente com problemas estruturais da sociedade brasileira. “Gentrificação está acontecendo, exclusão está acontecendo. Uberlândia ficou sete anos sem ter Carnaval. Isso precisa ser falado”, afirma.

Rúbia reforça que, como educadora, assumir essas discussões no ensino de História é essencial para avançarmos rumo a uma sociedade mais justa. “O meu papel é político, eu tenho que assumir, eticamente e politicamente, o meu papel em prol do verdadeiro sentido da História, que é trabalhar pela construção de uma sociedade democrática. Não há democracia se a gente fomentar exclusão”, defende.

Assumir o compromisso com o combate ao racismo e com a Lei 10.639/03, então, é fortalecer as discussões sobre memória na formação dos estudantes, o que demanda tempo e sensibilidade. “É pouco. Uma grande crítica que fazemos é a interpretação da lei: não é para trabalhar só na semana da Consciência Negra”, finaliza a educadora.
 

Foto da tela do computador de Agatha Santana durante a defesa do seu TCC em 2025.
As monografias de Santana e Pagni foram defendidas em abril e setembro de 2025, respectivamente (Foto: arquivo pessoal/ Agatha Santana)

A luta continua

Santana destaca a importância de que as pesquisas acadêmicas resultem em materiais didáticos acessíveis e conectados à realidade dos estudantes. “[Espero] que pesquisas que abordam essa temática atentem para produzir aulas que atendam essas pessoas, porque a realidade de quem estuda na escola é parecida com a realidade das pessoas que produzem o Carnaval”, afirma.

As investigações feitas por Pagni e Santana destacam como as práticas culturais e artísticas garantem a continuidade de narrativas afro-brasileiras essenciais à compreensão da história do país, servindo como espaço de preservação e resistência de memórias perdidas nas lacunas da história.

No futuro, Santana pretende seguir investigando a História por meio da cultura, agora com foco no cinema africano. “Quero continuar nesse campo de pesquisa, mas sem sair das manifestações culturais”, diz.


Acesso às pesquisas

A monografia de Agatha Santana, O potencial didático do Carnaval dentro e fora da sala de aula’, e a de Giovana Pagni, ‘Histórias para Ninar Gente Grande’, estão disponíveis no Repositório Institucional da UFU.

Rúbia reflete sobre como o estudo do samba-enredo e do Carnaval vai além da dimensão acadêmica, alcançando as salas de aula e, consequentemente, a memória coletiva: “Cada processo de pesquisa e elaboração de material didático é um potente movimento de formação, capaz de se desdobrar em outras ações. Isso me alimenta e me dá forças como formadora de professores”.
 

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Palavras-chave: educação carnaval samba história Ciências Humanas Ciências Sociais

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